2Ai – Escola Superior de Tecnologia, Instituto Politécnico do Cávado e do Ave, Barcelos, Portugal
CIEd – Centro de Investigação em Educação, Universidade do Minho, Braga, Portugal
inED – Centro de Investigação e Inovação em Educação, Escola Superior de Educação do Politécnico do Porto, Porto, Portugal
A crescente presença da inteligência artificial generativa no ensino superior coloca uma questão pedagógica central: como integrar estas ferramentas de forma crítica, ética e inclusiva, sem reduzir a complexidade da aprendizagem à automatização de respostas. Esta questão é particularmente relevante no ensino da Matemática, onde a abstração conceptual, a linguagem simbólica e a resolução sequencial de problemas podem constituir barreiras significativas para estudantes com diferentes perfis cognitivos e comunicacionais. Neste contexto, o Desenho Universal para a Aprendizagem oferece um enquadramento sólido para conceber experiências educativas acessíveis, flexíveis e orientadas para a variabilidade dos estudantes.
Esta comunicação apresenta e analisa a implementação de um modelo pedagógico mediado por chatbots de IA generativa, alinhado com os princípios do Desenho Universal para a Aprendizagem, com o objetivo de apoiar a atenção, a compreensão conceptual e o raciocínio matemático de estudantes do ensino superior, com particular atenção à participação de estudantes neurodivergentes.
Foi desenvolvido um estudo de caso qualitativo e interpretativo com 18 estudantes do 1.º ano da licenciatura, no âmbito da unidade curricular Conexões e Aplicações da Matemática em Educação, incluindo dois estudantes neurodivergentes. A intervenção decorreu ao longo de um semestre letivo e foi organizada em cinco fases, envolver, explorar, explicar, elaborar e avaliar, recorrendo a chatbots de IA generativa como suporte complementar à mediação docente. Estes foram utilizados para fornecer feedback imediato, explicações passo a passo, clarificação de conceitos, apoio à autorregulação e organização do raciocínio matemático. A recolha de dados integrou notas de campo, produções dos estudantes, registos das interações com os chatbots e um grupo focal final, sendo a análise organizada segundo os três princípios do Desenho Universal para a Aprendizagem: envolvimento, representação e ação/expressão.
Os resultados evidenciam que a utilização pedagógica dos chatbots favoreceu um ambiente de aprendizagem mais estruturado, previsível e responsivo, promovendo confiança, autonomia e persistência na resolução de tarefas matemáticas. Os estudantes valorizaram a possibilidade de repetir explicações, progredir ao seu próprio ritmo, receber apoio imediato e expressar a aprendizagem através de diferentes formatos. Para os estudantes neurodivergentes, os chatbots funcionaram como uma interface de baixa pressão social, contribuindo para reduzir a ansiedade, apoiar a autorregulação e facilitar a participação em atividades matemáticas. Todos os estudantes concluíram a unidade curricular, embora os estudantes neurodivergentes tenham necessitado pontualmente de tempo adicional para finalizar algumas tarefas.
Conclui-se que a IA generativa, quando integrada de forma intencional, crítica e pedagogicamente supervisionada, pode constituir um recurso relevante para promover acessibilidade, equidade e participação no ensino superior. O principal contributo desta comunicação reside na apresentação de um modelo pedagógico replicável que articula IA generativa, Desenho Universal para a Aprendizagem e inclusão em Matemática. Mais do que introduzir uma ferramenta digital, a abordagem pedagógica apresentada demonstra como a tecnologia pode ampliar a mediação docente, diversificar percursos de aprendizagem e apoiar práticas educativas mais justas, acessíveis e responsivas à diversidade dos estudantes.
Palavras-chave
Inteligência artificial generativa, Desenho Universal para a Aprendizagem, inclusão; aprendizagem matemática, inovação pedagógica.
Resumo Biográfico
Sara Cruz é Professora Adjunta Convidada no Instituto Politécnico do Cávado e do Ave (IPCA), em Barcelos, Portugal. É investigadora no Centro de Investigação e Inovação em Educação (inED), colaboradora do Applied Artificial Intelligence Laboratory (2Ai) do IPCA e colaboradora do Centro de Investigação em Educação (CIEd), na linha temática Aprendizagem, Inovação e Desenvolvimento Educativo Sustentável. Os seus interesses de investigação abrangem ainda o desenho pedagógico com tecnologias emergentes, metodologias de aprendizagem activa, modelos de aprendizagem híbrida e ferramentas digitais.
1) Observatório do Sucesso Académico da Universidade do Porto, 2) Faculdade de Farmácia da Universidade do Porto
Introdução: A transição para o ensino superior é um processo exigente, frequentemente condicionado por dificuldades de adaptação ao novo contexto académico, heterogeneidade de conhecimentos prévios e risco de insucesso e abandono. O desempenho pré-universitário tem sido identificado como um preditor do sucesso académico. Neste contexto, a avaliação diagnóstica precoce de competências nucleares constitui uma estratégia para a identificação de estudantes em risco e para a implementação de intervenções pedagógicas direcionadas. Com este objetivo, foi desenvolvido um teste de diagnóstico de competências iniciais em biologia, química e matemática, visando identificar estudantes com lacunas significativas de conhecimento e analisar a sua capacidade preditiva relativamente ao desempenho académico e ao abandono escolar.
Metodologia: O estudo foi conduzido na Faculdade de Farmácia da Universidade do Porto, envolvendo estudantes do 1.º ano do Mestrado Integrado em Ciências Farmacêuticas. A construção do teste baseou-se na análise de exames nacionais do ensino secundário e na comparação com os conteúdos programáticos das unidades curriculares do 1.º ano. Foram identificados domínios e subdomínios de conhecimento essenciais, sustentando a construção de um banco de questões de escolha múltipla, com predominância de itens de baixa complexidade. O instrumento foi validado por docentes e implementado na plataforma Moodle, contemplando três testes formativos (remotos) e um teste sumativo (presencial). Os resultados foram analisados e correlacionados com classificações de exames nacionais, desempenho académico no 1.º semestre e dados de abandono.
Resultados: O teste evidenciou capacidade discriminativa na estratificação dos estudantes por níveis de desempenho. A média no teste sumativo foi de 16,35 valores. Verificaram-se correlações moderadas entre a classificação do teste e os exames nacionais de Biologia e Geologia (r = 0,494) e de Físico-Química A (r = 0,458), sugerindo validade convergente. A análise por componentes revelou a correlação mais elevada entre a componente de biologia e o respetivo exame nacional (r = 0,345). Relativamente ao desempenho no ensino superior, observaram-se correlações moderadas com as unidades curriculares de Química Inorgânica (r = 0,356) e Biologia Celular (r = 0,340), mas ausência de associação significativa com Matemática e Bioestatística, o que seria de esperar dado o teste incidir em temas básicos da matemática, não necessariamente abordados na unidade curricular. Adicionalmente, a não participação no teste emergiu como potencial indicador comportamental de risco de abandono, verificando-se maior incidência de não participação entre estudantes que abandonaram o curso.
Conclusão: O teste de diagnóstico constitui uma potencial ferramenta para identificação precoce de lacunas de conhecimento e apresenta validade moderada na previsão do desempenho académico inicial.
Resumo Biográfico
Lurdes Silva é Mestre em Ciências Farmacêuticas pela Faculdade de Farmácia da Universidade do Porto (FFUP). Presta apoio técnico ao Observatório do Sucesso Académico da Universidade do Porto (OSA-UP), pelo que tem desenvolvido trabalho no âmbito da promoção do sucesso académico e no combate ao abandono escolar.
Jorge Ascenção Oliveira é Presidente do Conselho Pedagógico FFUP e Coordenador do Observatório do Sucesso Académico U.Porto. Tem certificação Europeia como Farmacologista (EuCP), como Fisiologista (EURAP), e lidera um Laboratório de Neurociência na UCIBIO (mitoneuro.ff.up.pt). Tem mais de 20 anos de experiência no ensino e coordenação de unidades curriculares de Farmacologia, Fisiologia e Neurociência, com vários Prémios de Excelência e Inovação Pedagógica (U.Porto) e de Melhor Professor (AEFFUP).
1) Laboratório de Toxicologia, Faculdade de Farmácia, Universidade do Porto, Portugal
2) Centro de Investigação e Intervenção Educativas, Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação do Porto, Universidade do Porto, Portugal
INTRODUÇÃO
A Inteligência Artificial (IA) coloca novos desafios ao ensino superior [1], incluindo na área da Toxicologia [2,3], onde tem potencial para transformar os métodos de comunicação de risco relativos aos xenobióticos. Este estudo, que descreve uma intervenção pedagógica na unidade curricular "Toxicologia Farmacêutica", teve como objetivo central avaliar como o uso estratégico da IA e de ferramentas digitais pode melhorar os resultados de aprendizagem na comunicação de risco, garantindo o desenvolvimento de competências digitais e de pensamento crítico.
METODOLOGIA
A metodologia pedagógica adotou uma abordagem de resolução de problemas do mundo real. Sessenta e cinco grupos de estudantes foram desafiados a selecionar um risco toxicológico específico (ex: exposição a xenobióticos, reações adversas a medicamentos ou interações medicamentosas) e a desenvolver um objeto de comunicação digital para um público-alvo definido. Os estudantes foram incentivados a utilizar a IA como auxílio na investigação e na estruturação, mantendo uma abordagem "Human-in-the-Loop", na qual se garantem o rigor e a veracidade das informações. A avaliação incidiu na comunicação de risco do produto final, na utilização da IA e na validação das informações. Utilizou-se um inquérito aos estudantes para elaborar a análise SWOT desta abordagem pedagógica.
RESULTADOS
Comunicação de Risco e Produto Digital: Foram produzidos 72 produtos digitais, abrangendo um espetro transdisciplinar que variou desde a segurança clínica (riscos de AINEs na gravidez, polifarmácia em idosos) até comportamentos de risco (cocaína, “vaping”), toxicologia ocupacional (citotóxicos, pesticidas) e segurança alimentar. Os estudantes transcenderam os formatos académicos tradicionais, desenvolvendo ferramentas funcionais e tecnologias de multimédia avançadas. Os projetos incluíram aplicações móveis, calculadoras algorítmicas de risco clínico, “chatbots” personalizados, podcasts hiper-realistas e vídeos com avatares sintéticos.
Ferramentas e Validação: a maioria dos estudantes (80%) classificou o seu nível de utilização de IA como Nível 3 (Colaborador Crítico), o que evidencia uma supervisão ativa do processo. O estudo revelou a utilização de um ecossistema sofisticado de IA em quatro dimensões: investigação, criação, design e desenvolvimento. Embora os estudantes tenham geralmente utilizado o ChatGPT ou o Gemini para obter dados, para garantir o rigor, recorreram a motores de busca semânticos (Consensus, Scite.ai, Perplexity) para triangular a informação e mitigar potenciais alucinações. Para o desenvolvimento técnico, recorreram a assistentes de programação (DeepSeek) e plataformas de criação de apps (Glide). A validação científica foi assegurada pelo cruzamento sistemático dos dados gerados por IA com bases de dados de referência (Gold Standard), como LiverTox, CTD, SIDER e Tox21, bem como com a literatura primária (PubMed) e com as diretrizes regulamentares (EMA, IARC).
Análise SWOT: destacou como Pontos Fortes a eficácia da IA na aceleração da investigação e no desenvolvimento de competências digitais. As Fraquezas identificadas envolveram disparidades técnicas entre os alunos e a necessidade de verificação constante. As Oportunidades residem na integração curricular estruturada e na criação de ferramentas profissionais, enquanto as Ameaças, como a automação excessiva e as preocupações com a integridade académica, foram mitigadas pelos protocolos de verificação.
CONCLUSÃO
Do estudo conclui-se que a integração da IA nos modelos pedagógicos pode contribuir positivamente para a formação de estudantes como criadores críticos, com competências digitais nas áreas da comunicação de risco e da saúde digital.
Referências:
[1] Editorial, Nature 2025; 645: 821
[2] Kleinstreuer N and Hartung T, Arch Toxicol 2024; 98: 735-54
[3] Singh AV, et al. ACS Omega 2023; 8: 21377-90
Resumo Biográfico:
Fernando Remião é Professor Associado com agregação em Toxicologia da FFUP, Diretor do Mestrado Integrado em Ciências Farmacêuticas e Membro do Conselho Científico. É investigador sénior do Grupo de Toxicologia da Unidade UCIBIO. Foi Pró-Reitor da U.Porto para a Inovação Pedagógica entre 2014 e 2018.
Amélia Veiga é Professora Associada do departamento de Ciências de Educação da FPCEUP e subdiretora da faculdade. É membro da Comissão Científica do Mestrado em Ciências da Educação e investigadora sénior do Centro de Investigação e Intervenção Educativas. Os interesses de investigação incluem os processos de ensino e aprendizagem no ensino superior.
1) Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto
Student’s learning assessment remains one of the most challenging and discussed areas of higher education research. In its many formats (written exam, oral exam, report, field/laboratory/clinical exercise, presentation, group work, etc) student assessment fills the purpose of verifying whether a student or a group of students has acquired the competences and attained the expectable learning outcomes for a course unit. This is in itself a challenge, since measuring learning outcomes is not as straight forward as it seems for many fields of study. Assessment of a course unit results in a final grade which can be expressed by an approved/fail classification but that in most cases is expressed in a quantitative grade scale. The “quality” of a student’s academic performance is typically expressed by an average grade for the completed course units, which for many professional paths will play a relevant role, as is the case of academic/research and life sciences careers. Yet, for many students the average grade, though relevant for the recognition of the effort taken, will not play such a relevant role in the career path.
The present communication analyzes the evolution of the nine integrated master programs of Faculty of Engineering of University of Porto for a period of 10 years. At the same time, the results of students academic performance assessment, expressed by the cohort’s grades statistics (mean, mode, standard deviation, etc) will be analyzed. The assessment methods have evolved from very traditional (long answer written exams, assignment reports) to more student centered approaches with continuous assessment. Yet the statistics tell us that very little changes in terms of average grades along the years for many course units. This communication sheds some light on which course units, student cohorts, e.g. top 10%, or integrated master programmes are more invariant or not.
Resumo Biográfico
João Pedro Pêgo - Professor Auxiliar ; Ana Freitas - Técnica Superior
IPVC - Instituto Politecnico de Viana do Castelo
Introdução
A apresentação analisa a transformação da cultura pedagógica no ensino superior a partir de uma questão central: como construir uma cultura de confiança capaz de sustentar processos reais de mudança. O ponto de partida é a ideia de que a inovação pedagógica não depende apenas de políticas, conteúdos ou indicadores, mas sobretudo da forma como os processos são implementados, comunicados e apropriados pelas pessoas. Neste enquadramento, a confiança surge como condição crítica para a aceitação do risco, da vulnerabilidade, da incerteza e da liberdade necessárias à mudança educativa. Metodologia
A apresentação segue uma abordagem conceptual e aplicada, articulando referências teóricas sobre implementação organizacional, confiança, liderança e mobilização subjetiva com um estudo de caso institucional do Politécnico de Viana do Castelo. A análise privilegia a relação entre processos e resultados, destacando dimensões como ética, transparência, autonomia, pensamento crítico, grupos de trabalho autodeterminados e liderança pedagógica fiável. O estudo de caso é apresentado como exemplo prático de transformação cultural assente na construção progressiva de confiança entre docentes, estudantes, estruturas pedagógicas e órgãos institucionais.Resultados
O caso do IPVC evidencia uma intervenção com envolvimento significativo da comunidade académica: 63 docentes, 6 escolas/conselhos pedagógicos e cerca de 1200 estudantes. Entre os principais resultados apresentados destacam-se a criação de comunidades de aprendizagem, a implementação de um modelo pedagógico institucional aplicável a todas as escolas e cursos, com percursos diferenciados, a constituição de uma estrutura formal de apoio à inovação pedagógica e digitalização, a integração estratégica da inovação pedagógica nos documentos institucionais, a alteração de mecanismos de avaliação de desempenho e a criação de prémios pedagógicos. Estes resultados sugerem que a transformação não ocorre apenas por definição normativa, mas através da construção de condições relacionais, organizacionais e éticas que permitem aos docentes criar, experimentar, criticar e reconstruir práticas. Conclusão
A apresentação conclui que a confiança é a base estruturante de uma cultura de transformação docente. Políticas, indicadores e conteúdos são necessários, mas insuficientes quando não são acompanhados por processos consistentes, transparentes e participados. A inovação pedagógica exige tempo, aceitação da fragilidade, autonomia ética, comunicação clara e liderança capaz de gerar segurança para a experimentação. O caso do IPVC demonstra que a mudança sustentável no ensino superior depende da articulação entre estratégia institucional, comunidades de prática, envolvimento dos estudantes e valorização dos docentes como agentes críticos de transformação.
Resumo Biográfico
Ana Teresa is passionate for learning and people development. At the presidency at IPVC, she leads teaching and learning, pedagogical innovation processes, curricular innovation and flexibility. She has the honour of managing a strong team of professors, in an universe of 750 staff members and drive them to curiosity and innovation, along with their 6000 students.
Ana Teresa has a Pos Doc in Management and Economics from School of Economics and Management of the University of Porto and a PhD in Work and Organizational Psychology by University of Minho.
She is a researcher and a professor in human development and human resource management. Her main research topics includes trust, risk, impact of trust, academia-business processes and impact, behavior and organizational change, social impact, creativity and critical thinking, pedagogical innovation at higher education.
Moderação:
Georgina Correia da Silva (Coordenadora do Núcleo de Apoio ao Estudante e Integração Profissional do Conselho Pedagógico da FFUP)
Rita Começanha (Coordenadora Científica do BAMBUP, Programa para a promoção da saúde mental no Ensino Superior - U.Porto)
Intervenientes:
Rita Começanha - Coordenadora Científica do BAMBUP, Psicóloga do Núcleo de Saúde e Bem-Estar dos SASUP; Membro da Direção da RESAPES – Rede de Serviços de Apoio Psicológico no Ensino Superior
Catarina Portela - Médica de Psiquiatria do Núcleo de Saúde e Bem-Estar dos SASUP
Alice Ribeiro, Membro do Núcleo de Apoio à Inclusão da U.Porto
Beatriz Bastos, estudante do Departamento de Relações Externas do Grupo Estudantes do Ensino Superior mais Inclusivo
1) Reitoria/Unidade de Inovação Educativa da Universidade do Porto, 2) Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto
INTRODUÇÃO
O abandono no ensino superior é um fenómeno complexo e multidimensional, frequentemente estimado através da variação entre estudantes que ingressam e aqueles que prosseguem para o segundo ano (Perchinunno et al., 2021). A literatura destaca a integração académica e social, as condições socioeconómicas, a preparação académica, a motivação e fatores institucionais como dimensões relevantes para a permanência dos estudantes (Araújo et al., 2016; Carneiro & Heckman, 2002; Ferreira & Almeida, 1997; Stinebrickner & Stinebrickner, 2012; Tayebi et al., 2021; Tinto, 1975, 1993). Outros fatores, como saúde mental e características demográficas, também influenciam os percursos académicos (Fragoso et al., 2016; Zając et al., 2023). Em Portugal, pelo menos um em cada dez estudantes não prossegue os estudos após o primeiro ano (DGEEC, 2017). Neste contexto, o inquérito "Vozes dos recém-chegados", desenvolvido no âmbito do projeto +SUCESSO, visa ajudar a compreender a experiência inicial dos estudantes da Universidade do Porto e apoiar a reflexão institucional sobre a sua integração, num período crítico e importante para o desenvolvimento do sentido de pertença e compromisso.
METODOLOGIA
O inquérito foi desenvolvido com base numa abordagem qualitativa exploratória. A recolha de dados, abrangendo seis cursos de diferentes áreas científicas e com distintos perfis de abandono e desempenho académico, incluiu quatro grupos focais com estudantes do 1.º ano, dezasseis entrevistas a docentes e diretores de curso, e três entrevistas a estudantes que abandonaram. A análise temática sustentou a construção de um questionário com 27 questões, organizado em seis dimensões: perfil sociodemográfico, adaptação e apoio, vida social e cultural, ambiente académico e pedagógico, suporte institucional e avaliação geral. O inquérito é aplicado via SIGARRA, a estudantes inscritos pela primeira vez no 1.º ano.
RESULTADOS
Em 2025/2026, responderam ao inquérito 422 estudantes, considerando 62,1% (n=262) estar no curso certo, 35,1% (n=148) manifestam indecisão e 2,8% (n=12) referiram não estar no curso adequado. Ao nível da adaptação, 66,6% (n=281) reconhecem diferenças significativas face ao ensino secundário, 50,0% (n=211) sentem-se sobrecarregados e 67,5% (n=285) referem precisar de mais apoio ou recursos para acompanhar a matéria. No domínio pedagógico, predominam metodologias expositivas (30,0% exposição oral com suporte audiovisual; 24,2% exposição com interação), embora os estudantes valorizem metodologias ativas (16,7% trabalho em laboratório ou campo; 16,5% discussões em grupo; 16,0% trabalho em equipa); e 69,4% (n=293) expressam desejo por práticas pedagógicas mais inovadoras. Os principais fatores condicionantes na assiduidade são: transportes (31,2%), falta de motivação (27,7%) e conflitos de horário (16,7%). Embora 84,1% (n=355) indiquem que o curso corresponde ou supera as expectativas, 40,8% (n=172) já ponderaram desistir em algum momento e 3,07% manifestou intenção efetiva.
CONCLUSÃO
Os resultados evidenciam a centralidade da adaptação académica e das práticas pedagógicas na experiência inicial dos estudantes. O inquérito revela potencial para apoiar a identificação precoce de desafios e intervenção informada das Faculdades, nomeadamente na necessidade de promoção de práticas pedagógicas mais ativas e no reforço de mecanismos de apoio no início do percurso académico. Persistem, contudo, desafios na recolha de dados, sendo importante consolidar uma cultura institucional baseada em evidência.
Resumo Biográfico
Catarina Sousa trabalha na Unidade de Inovação Educativa da Universidade do Porto desde 2020, desenvolvendo trabalho nas áreas do sucesso académico, inquéritos pedagógicos e formação de docentes.
É estudante do Programa Doutoral em Ciências da Educação (FCT funded 2024.13403.DAP), onde investiga estruturas e processos de inovação pedagógica no ensino superior português .
Os seus interesses centram-se na relação entre políticas institucionais, práticas pedagógicas e o papel dos docentes na promoção da inovação pedagógica.
1)Departamento de Psicologia e Educação, CINTESIS.UPT@RISE-HEALTH, Universidade Portucalense, Porto, Portugal.
2)Departamento de Psicología Evolutiva y de la Educación, Facultad de Psicología, Universidad de Málaga, Málaga, España
Introdução: A transição para o Ensino Superior (ES) constitui uma fase crítica de desenvolvimento, frequentemente associada ao aumento da autonomia e da pressão académica, o que pode resultar num declínio significativo da saúde mental dos estudantes. A prevalência de sintomas de ansiedade, stresse e depressão nesta população supera, por vezes, a da população geral. A literatura sugere que o desenvolvimento de competências de perceção, compreensão e regulação emocional atua como fator protetor da saúde mental. Tais competências são contempladas no Modelo de Quatro Ramos de Inteligência Emocional (IE) de Mayer e Salovey (1997), que orienta a presente intervenção. Objetivos: (1) Explorar a eficácia do programa de intervenção IESA no incremento das habilidades de IE; (2) Avaliar o seu impacto na redução da sintomatologia de depressão, ansiedade e stresse. Metodologia: Utilizou-se um design quase-experimental com grupo de intervenção (n = 78) e grupo de controlo (n = 78). A amostra final consistiu em 156 estudantes do 1.º ano (17–25 anos), provenientes de 11 cursos diferentes de licenciatura. O Programa IESA ("Inteligência Emocional e Sucesso Académico") é uma intervenção de grupo presencial de 10 semanas, com sessões de duas horas. O programa dedica duas sessões a cada uma das quatro capacidades do modelo de habilidade: perceção, facilitação, compreensão e gestão das emoções. Resultados: Os resultados revelaram um efeito de interação grupo-tempo (T1 e T2) estatisticamente significativo (p < .001). Os participantes do grupo de intervenção demonstraram um aumento significativo nas capacidades de inteligência emocional e uma redução significativa nos níveis de depressão, ansiedade e stresse comparativamente ao grupo de controlo, que não apresentou melhorias significativas. Conclusões: O programa IESA demonstra ser uma ferramenta eficaz na promoção do bem-estar psicológico durante a transição para o ES. Os resultados reforçam a importância de implementar intervenções baseadas no modelo de habilidade de IE para mitigar o desajustamento comportamental e promover a saúde mental em contexto académico.
Resumo Biográfico
Fátima Teixeira é Bolseira de doutoramento em regime de cotutela, financiada pela FCT, a desenvolver a investigação doutoral na Universidade Portucalense e na Universidade de Málaga.
A investigação de doutoramento, na área da Psicologia Clínica e do Aconselhamento, centra-se no tema “Treino de Inteligência Emocional como Suporte ao Sucesso de Estudantes do 1.º Ano do Ensino Superior”, da qual resultou o programa IESA: Inteligência Emocional e Sucesso Académico, implementado com a participação de cerca de 100 estudantes na sua primeira edição.
Os interesses de investigação incluem intervenções em inteligência emocional no ensino superior, bem como o seu papel na promoção do sucesso académico, adaptação e saúde mental dos estudantes.
(1) Instituto Universitário Ciências da Saúde - CESPU
O assédio em contexto universitário constitui um problema de saúde pública e de direitos humanos, com impacto significativo em toda a comunidade académica, nomeadamente no bem-estar psicológico, integração e sucesso escolar de estudantes. Neste contexto, o presente trabalho pretende refletir sobre a prevalência do assédio no ensino superior português, os seus impactos psicossociais e a importância de estratégias institucionais de prevenção.
Serão apresentados dados recentes de um estudo transversal realizado na Universidade do Porto, entre outubro e dezembro de 2024, com 600 estudantes universitários. Os resultados revelaram que 34,8% dos participantes relataram ter sido vítimas de assédio sexual, sendo a maioria mulheres (84,2%). Verificou-se uma associação estatisticamente significativa entre experiências de assédio e níveis superiores de sintomatologia psicopatológica, bem como maior consumo de psicofármacos, álcool e substâncias ilícitas.
Complementarmente, serão integrados dados do diagnóstico realizado no âmbito do Plano para a Igualdade e Não Discriminação do IUCS-CESPU 2023-2026, envolvendo docentes, não docentes e discentes da CESPU. Os resultados evidenciaram que 43,75% dos participantes reportaram ter vivenciado pelo menos uma situação de assédio ou discriminação, sendo o assédio moral a situação mais frequentemente identificada. Observou-se igualmente uma elevada subnotificação dos casos, quer entre vítimas quer entre testemunhas, associada ao receio de represálias.
Face estes resultados, discute-se a necessidade de desenvolvimento de políticas institucionais de prevenção e intervenção, incluindo mecanismos seguros de denúncia, apoio psicológico às vítimas, formação da comunidade académica e ações de sensibilização para a promoção da igualdade de género e de ambientes educativos seguros e inclusivos. Neste âmbito, será apresentada Universidade Sem Assédio: #AssedioNãoPassaAqui desenvolvida pelo SAIV – Serviço de Apoio e Informação à Vítima, no âmbito do Programa Colaborativo de Implementação de Serviços de Saúde Mental e Bem-Estar para Estudantes de Saúde, sob a alçada do consórcio ESEP, ESSNorteCVP e CESPUI, o abrigo do Programa para a Promoção da Saúde Mental no Ensino Superior da DGS. A promoção de contextos académicos seguros, respeitadores e livres de violência constitui uma condição essencial para o bem-estar e sucesso académico dos estudantes, reforçando o papel das instituições de ensino superior na construção de culturas organizacionais mais saudáveis e inclusivas.
Resumo Biográfico
Alexandra Serra: Doutoramento em Psicologia pela UP; Docente no IUCS-CESPU; Cocoordenadora SAIV-CESPU; Membro da TOXRUN Research Unit e a da iHealth4Well-being Research Unit da CESPU; Fundadora, cocoordenadora e investigadora do SINCLab, FPCE-UP; Membro da Comissão para a Igualdade e Não Discriminação da CESPU.
O abandono no Ensino Superior constitui uma preocupação crescente para estudantes, famílias, instituições e decisores políticos, justificando o desenvolvimento de estratégias institucionais de monitorização e intervenção. Neste contexto, os observatórios de permanência e abandono têm assumido um papel relevante na produção de indicadores sobre progressão académica, retenção e sucesso estudantil. Contudo, a compreensão destes fenómenos exige também abordagens qualitativas e interdisciplinares que permitam conhecer os processos, experiências e trajetórias subjacentes às decisões de permanência ou abandono.
No relatório Education at Glance da OCDE (2025) verifica-se apenas 41% dos estudantes concluem o Ensino Superior no tempo esperado, valor que sobe para 65% um ano após o tempo previsto de conclusão e para 74% três anos depois. Ainda assim, ao fim de três anos adicionais face ao tempo esperado, cerca de 18% dos estudantes abandonaram o percurso académico sem concluir o grau. Estes dados reforçam a necessidade de compreender os processos de adaptação, permanência e abandono de forma mais sistemática e contextualizada.
A investigação tem evidenciado a importância do 1.º ano enquanto período crítico de adaptação ao Ensino Superior, particularmente nos cursos STEM, onde se observam maiores riscos de insucesso e abandono.
A presente comunicação apresenta resultados de um estudo realizado com estudantes de cursos de engenharia de uma universidade pública portuguesa, centrado na permanência e abandono ao longo do 1.º ano no Ensino Superior. Assumindo uma abordagem metodológica mista, articulam-se dados quantitativos e qualitativos com o objetivo de compreender os estudantes em situação de abandono, assim como porquê e como ocorre esse processo. Apresentam-se: 1) um estudo da confluência de variáveis pessoais, académicas e contextuais associadas ao abandono numa amostra de 1.016 estudantes de engenharia; 2) dados de entrevistas telefónicas realizadas a 82 estudantes que abandonaram o curso, identificando motivos de abandono e situações académicas/profissionais subsequentes; e 3) entrevistas em profundidade a estudantes, permitindo compreender o caráter dinâmico e processual da decisão de abandonar.
Os resultados evidenciam a confluência de fatores vocacionais, dificuldades de aprendizagem e rendimento académico, bem como desafios de adaptação ao contexto universitário e de conciliação de papéis. As entrevistas permitem ainda identificar diferentes trajetórias após o abandono e sublinhar o potencial das metodologias qualitativas para complementar os dados produzidos pelos observatórios institucionais.
Defende-se, assim, a importância de integrar entrevistas a estudantes que abandonaram, análises de trajetórias e estudos longitudinais nos observatórios de permanência e abandono, contribuindo para uma melhor compreensão das experiências estudantis e para o desenvolvimento de políticas institucionais mais ajustadas à diversidade dos percursos académicos.
Palavras-chave: Ensino superior; adaptação académica; permanência; abandono; estudantes de engenharia; observatórios institucionais
Nota biográfica
Doutorada em Ciências da Educação, especialidade de Psicologia da Educação, pela Universidade do Minho. Professora Convidada no Instituto de Ciências Sociais da Universidade do Minho. Investigadora integrada no Centro de Investigação em Educação (CIEd), da Universidade do Minho. Psicóloga, membro efetivo e especialista em Psicologia Clínica e da Saúde, da Ordem dos Psicólogos Portugueses (n.º 14720), membro da Equipa de Saúde Mental e Apoio Psicossocial Cruz Vermelha Portuguesa. Autora e coautora de várias comunicações e artigos nacionais e internacionais. Integra projetos e redes de investigação na área da permanência e abandono do Ensino Superior. Colaborou como investigadora com o Observatório dos Percursos Académicos dos Estudantes da Universidade do Minho (ObservatoriUM), e como facilitadora em iniciativas de inovação pedagógica no âmbito do Consórcio EPIC – Excelência Pedagógica e Inovação em Cocriação, da Universidade do Minho.
Os interesses de investigação incidem na diversidade, equidade e inclusão social na Educação, especialmente nas condições para o sucesso, permanência dos estudantes do Ensino Superior.
Universidade Lusíada - 1, 2,3,4; COMEGI - 1; CIPD - 3, 4
O abandono no ensino superior constitui um fenómeno complexo e multifatorial, amplamente estudado ao longo das últimas décadas. Os modelos clássicos de retenção, nomeadamente o modelo de integração académica e social de Tinto, sublinham a importância da ligação do estudante à instituição como fator central para a persistência académica (Tinto, 1975). Desenvolvimentos mais recentes deste enquadramento têm reforçado a centralidade das interações sociais e das experiências institucionais na decisão de persistir ou abandonar (Bento Júnior et al., 2025). Paralelamente, revisões académicas contemporâneas evidenciam que o abandono resulta da interação entre fatores académicos, institucionais, económicos e psicossociais, reforçando a sua natureza multidimensional (Aljohani, 2016; Ibsen & Rosholm, 2024).
O presente estudo tem como objetivo identificar os principais fatores associados ao risco de abandono no ensino superior, com particular ênfase nas dimensões pedagógicas e institucionais. Para tal, foi aplicado um inquérito a estudantes universitários (N = 2093), sendo os dados analisados através de uma combinação de análise de variância (ANOVA), regressão logística e análise fatorial exploratória.
Os resultados evidenciam que o risco de abandono apresenta uma natureza gradual e processual, sendo significativamente diferenciado quando os estudantes são segmentados em três níveis de risco (baixo, médio e alto). Observa-se uma deterioração progressiva da integração académica, da motivação e do sentimento de pertença à medida que o risco aumenta (p < 0,001), o que é consistente com a literatura que destaca a importância da integração institucional na retenção dos estudantes (Tinto, 1975).
A análise multivariada permitiu identificar quatro dimensões estruturais com impacto significativo no risco de abandono: (i) pressão institucional e organizacional, (ii) regulação pedagógica, (iii) vulnerabilidade pessoal e económica e (iv) apoio académico e psicossocial. Em particular, a pressão institucional, que integra fatores como burocracia, comunicação e regimes de avaliação e assiduidade, emerge como o principal fator de risco, enquanto o apoio académico e psicossocial se destaca como fator protetor. Estes resultados estão alinhados com evidência académica recente que demonstra que intervenções institucionais, especialmente ao nível do apoio ao estudante e da organização académica, têm efeitos positivos na redução do abandono (Ibsen & Rosholm, 2024).
Adicionalmente, estudos recentes têm sublinhado que o peso relativo dos fatores explicativos do abandono varia ao longo do percurso académico, sendo progressivamente substituídos fatores de entrada por fatores relacionados com a experiência académica e institucional (Glandorf et al., 2024). Este resultado reforça a importância de uma abordagem dinâmica e longitudinal ao fenómeno.
Em termos interpretativos, os resultados sugerem que o abandono não deve ser entendido como uma falha individual, mas como resultado de um desajuste entre o modelo pedagógico e a diversidade de perfis estudantis. Em particular, a organização pedagógica, os sistemas de avaliação e as condições institucionais assumem um papel central na experiência académica, influenciando diretamente a persistência dos estudantes.
Em síntese, este estudo contribui para o debate contemporâneo sobre abandono no ensino superior ao evidenciar o peso das dimensões pedagógicas e institucionais. Os resultados apontam para a necessidade de estratégias integradas de intervenção, centradas na flexibilização pedagógica, no reforço dos mecanismos de apoio ao estudante e na identificação precoce de situações de risco, em linha com a evidência mais recente sobre políticas eficazes de retenção.
Resumo Biográfico
Paula Rodrigues é Doutora em Ciências Empresariais pela Universidade do Porto, onde também concluiu o Mestrado em Economia. Atualmente é Professora Associada na Universidade Lusíada Porto e Investigadora no COMEGI — Centro de Investigação em Organizações, Mercados e Gestão Industrial.
Introdução
A entrada no ensino superior constitui um período de elevada exigência académica e emocional, frequentemente associado a dificuldades de integração, stress e risco de abandono. Neste contexto, a Faculdade de Farmácia da Universidade do Porto (FFUP) implementou, desde o ano letivo 2019/2020, o Programa de Mentoria Interpares FFUP (M-FFUP), integrado no programa transversal da Universidade do Porto. Esta comunicação tem como objetivo avaliar o impacto da M-FFUP na integração académica, no bem-estar psicológico e na intenção de abandono dos estudantes do Mestrado Integrado em Ciências Farmacêuticas (MICF). Pretende-se avaliar se a mentoria interpares pode atuar como um mecanismo de suporte à adaptação ao ensino superior e à retenção académica.
Metodologia
Foram analisados dados provenientes de inquéritos institucionais de acompanhamento aplicados a estudantes inscritos pela primeira vez na FFUP ao longo de quatro anos letivos (2020/21 a 2024/25) e que participaram no Programa de Mentoria da U.Porto. As dimensões avaliadas incluíram integração académica, satisfação com o MICF, satisfação com a M-FFUP e intenção de abandono. A análise estatística permitiu explorar associações entre estas variáveis, com particular enfoque no papel mediador da integração académica.
Resultados
Os resultados evidenciam que a participação na mentoria está associada a uma melhoria significativa da integração académica (p<0,001). Por sua vez, níveis mais elevados de integração académica correlacionam-se significativamente com uma menor intenção de abandono (p<0,001). No entanto, não foi observada uma associação direta entre a satisfação com a M-FFUP e a intenção de abandono (p=0,808). Estes dados sugerem que o impacto da mentoria não ocorre de forma direta na decisão de abandono, mas antes através do fortalecimento da integração do estudante no contexto académico.
Conclusão
A mentoria interpares revela-se um instrumento relevante de suporte à adaptação ao ensino superior, atuando como um mecanismo indireto de promoção da retenção académica. Ao potenciar a integração dos estudantes, contribui para a diminuição do risco de abandono, mesmo na ausência de uma relação direta com a satisfação percebida do programa. Estes resultados preliminares reforçam a importância de estratégias institucionais centradas no apoio entre pares para promover o bem-estar e o sucesso académico. A continuidade da recolha e análise de dados permitirá consolidar estas evidências e apoiar a melhoria e eventual expansão do programa M-FFUP.
Resumo Biográfico
Célia Gomes Amorim é Professora na FFUP e uma das Coordenadoras do Programa de Mentoria Interpares da FFUP. Tenho interesse nas estratégias pedagógicas que promovam um maior envolvimento dos estudantes no processo de aprendizagem e aprendizagem colaborativa no ensino superior.
No Ensino Superior (ES) os vídeos educativos têm vindo a assumir um papel cada vez mais relevante na transformação das práticas pedagógicas, acompanhando a evolução tecnológica e a crescente valorização de modelos de ensino-aprendizagem flexíveis. Antes da pandemia, a utilização do vídeo cresceu de forma sustentada, impulsionada pelo advento e consolidação de plataformas como o YouTube e pelo crescimento dos massive open online courses (MOOC). O contexto pandémico acelerou esse crescimento, consolidando os sistemas de gravação de aulas e gestão de vídeo, como o Panopto, enquanto estruturas centrais nas Instituições de ES, permitindo a produção autónoma e a capacidade de disseminação de conteúdos, bem como a possibilidade de analisar dados concretos sobre como os materiais são utilizados.
Estudos anteriores realizados na Universidade do Porto demonstraram que a adoção do vídeo pelos docentes é fortemente influenciada pela perceção de utilidade pedagógica, pela facilidade de utilização das ferramentas e pela sua adequação às necessidades reais do ensino e da aprendizagem (Regadas, 2019). Apesar do reconhecimento generalizado do potencial do vídeo, os docentes tendem a manter o uso do vídeo quando sentem que o tempo investido se traduz em benefícios concretos para os estudantes - e quando a instituição cria condições para que tal aconteça.
Com base neste enquadramento, apresenta-se uma análise evolutiva da implementação do Panopto na Universidade do Porto, desde a fase inicial de adoção tecnológica até à atual fase de maturidade organizacional. Esta análise assenta numa leitura quantitativa e qualitativa dos relatórios de utilização, procurando identificar padrões, tendências e indícios de impacto. Observa-se uma adoção progressiva e fenómenos de estabilização e crescimento sustentado ao longo dos anos, excluindo o pico excecional registado em 2020 durante a pandemia COVID-19.
Indo além do volume de produção, encontramos padrões relacionados com a utilização dos vídeos pelos estudantes, recorrendo ao indicador de visualizações por hora produzida. Este indicador permite identificar padrões nas unidades orgânicas (UO) da U.Porto e compreender onde o vídeo está a ser bem aproveitado e onde poderá haver margem para crescimento. Os dados iniciais posicionam a Faculdade de Farmácia da Universidade do Porto (FFUP) como a UO com melhor rácio, podendo sugerir uma elevada adesão dos estudantes e uma aposta em vídeos que respondem diretamente a necessidades destes.
Os resultados obtidos podem ser interpretados à luz de fatores já identificados na literatura, nomeadamente a relevância dos conteúdos, a intenção pedagógica do vídeo e a perceção clara da sua utilidade por parte de docentes e estudantes. Ao cruzar a evolução histórica do Panopto com a análise interpretativa de dados institucionais, pretende-se estimular a reflexão crítica sobre boas práticas na utilização do vídeo no ensino superior, percebendo o que funciona, porquê e em que condições, usando os dados para orientar decisões sobre a integração pedagógica do vídeo.
Resumo Biográfico
Na unidade de Inovação Educativa (U.Porto), Nuno Regadas apoia docentes na implementação de estratégias de utilização pedagógica de ferramentas digitais, na promoção da inclusão de estudantes com necessidades educativas especiais e na promoção da utilização de vídeo educativo.
1) Faculdade de Farmácia da Universidade do Porto
Introduction: Pharmaceutical students often perceive course units as isolated topics, even when different subjects cover the same therapeutic classes with different perspectives. To address this challenge and taking advantage of the Trilogy Challenge proposed by the INOVSHARE@FFUP programme, we developed a cross-curricular pedagogical strategy involving three teachers from different course units of the Integrated Master in Pharmaceutical Sciences (MICF): Pharmaceutical Chemistry II, Pharmacology II, and Pharmaceutical Technology II. The purpose of this communication is to describe this interdisciplinary intervention and highlight its contribution to promoting integrated learning.
Methods: In this intervention, the same drugs, angiotensin converting enzyme (ACE) inhibitors, were covered in each class, but from the relevant curricular perspective. Each teacher attended the respective lessons of their colleagues (one teach, one observe model), enabling real-time alignment of the interdisciplinary teaching practices, to encourage knowledge integration and deeper learning. The teachers also shared scientific and pedagogical tips aiming to improve the learning process. The Pharmaceutical Chemistry II class focused on design, mechanism of action at the molecular level, structure–activity relationships, and molecular features that influence palatability (e.g. the thiol group in captopril), as well as the determinants of oral bioavailability (e.g. ester-based prodrug design). The Pharmacology II class addressed the mechanisms of action, therapeutic indications, and safety profiles of these drugs, explicitly revisiting the previously discussed chemical elements to demonstrate how structural modifications affect their bioavailability in healthy individuals versus patients with hepatic impairment. The Pharmaceutical Technology II class explored patient-centric design strategies, particularly the development and improvement of the palatability of oral liquid dosage forms for patient populations requiring flexible dose adjustment and addressed formulation case studies revisiting the chemical and pharmacological aspects of ACE inhibitors. The intervention concluded with a multidisciplinary case study requiring students to integrate chemical, pharmacological, and formulation design considerations when selecting and adapting drug therapy. Data collection on student engagement and perceptions of learning was conducted to evaluate the impact of the approach.
Results: Data collection demonstrated that most students positively evaluated the integration of ACE inhibitors-related content across the three course units and viewed the interdisciplinary approach as promoting an interconnected understanding of the subjects rather than isolated ones. Moreover, they considered the case study enabled the cross-curricular application of knowledge acquired across the three course units. The teachers’ joint reflection also contributed to improved teaching practices and an update to the courses’ content.
Conclusion: This cross curricular approach strengthened conceptual connections across course units and supported the development of transferable knowledge. The intentional alignment of content and collaborative teaching practices can effectively reduce curricular fragmentation and enrich students’ learning experiences.
Resumo Biográfico
Carla Fernandes, Clara Quintas e Isabel Almeida são docentes do Mestrado Integrado em Ciências Farmacêuticas da FFUP e integram o Núcleo de Inovação Pedagógica. Têm participado ativamente em diversas iniciativas de inovação educativa, contribuindo para o desenvolvimento de práticas de ensino centradas no estudante, com promoção da integração de conhecimentos e uma aprendizagem mais significativa.
1) Faculdade de Farmácia da Universidade do Porto, Departamento de Ciências Químicas, Laboratório de Química Orgânica e Farmacêutica 2) Faculdade de Farmácia da Universidade do Porto, Departamento de Ciências Biológicas, Laboratório de Bioquímica 3) Faculdade de Farmácia da Universidade do Porto, Departamento de Ciências Biológicas, Laboratório de Microbiologia 4) Faculdade de Farmácia da Universidade do Porto, Departamento de Ciências Químicas, Laboratório de Química Aplicada
Introdução. A UC de Bioensaios na Descoberta de Fármacos é uma UC optativa do primeiro ano do Mestrado em Química Farmacêutica (MQF) da FFUP, com 3 ECTS. Tem como objetivo a aquisição de conhecimentos, teóricos e práticos, desde a correta preparação das soluções de compostos submetidos a um bioensaio até à interpretação dos resultados, passando pela execução de bioensaios com enzimas, microrganismos, linhas celulares e outros modelos. A natureza multidisciplinar e profissionalizante desta UC implica uma equipa docente alargada e altamente especializada. Por outro lado, todos os estudantes são oriundos de diferentes UO da Universidade do Porto, ou de outras instituições do Ensino Superior, constituindo um público-alvo desafiante, proveniente de várias áreas do saber, desde a química até à biologia. Somado a isto, esta UC insere-se num segundo ciclo da FFUP, que abre inscrições apenas de 2 em 2 anos, o que, por isso, acarreta grandes dificuldades na implementação de programas formais de mentoria interpares. Proporcionar ao estudante uma experiência formativa mais integrada assegurando uma maior articulação entre a equipa docente (pertencente a 4 laboratórios distintos), assegurar uma educação equitativa diminuindo a pressão nos estudantes oriundos de diferentes linguagens científicas e culturais, promover uma educação de qualidade (ODS4) aproximando a teoria à realidade, e garantir segurança, integração (não só académica, mas também social e cultural) e o sentimento de pertença académica dos novos estudantes na FFUP (cientes da teoria experiencial de Kolb em que as emoções influenciam o processo de aprendizagem) foram os objetivos que mobilizaram a equipa docente a alterar a dinâmica pedagógica desta UC.
Metodologia. A equipa docente aplicou várias metodologias que se integram na Teoria Socio-Interacionista de Vygotsky. Os docentes assumiram não apenas o papel clássico de transmissores de conteúdos, mas também o de mediadores do conhecimento, criando ambientes de aprendizagem que favoreceram a interação e a construção coletiva do saber, proporcionando: i) interação entre pares, provenientes de diferentes primeiros ciclos, em sala de aula, ii) ensino intergeracional e Mentoria, convidando Mestres-Alumni do MQF a colaborarem com a equipa docente, e iii) uma aprendizagem situada realizando aulas “teóricas” em contexto real. A avaliação passou a ser distribuída sem exame final, passando a incluir pequenos questionários no final das aulas teóricas, duas frequências e avaliação contínua do trabalho laboratorial colaborativo.
Resultados. Em resposta a um inquérito colocado no Moodle, foi possível verificar que 75% dos estudantes consideraram que a apresentação de estudos de caso sobre bioensaios usados em dissertações anteriores do MQF, pela voz dos Alumni do MQF, foi inspiradora e consolidadora dos conteúdos pela linguagem mais acessível e todos consideraram que a presença de Mentores-Mestres nas aulas laboratoriais a tornou mais apelativa. Todos admitiram que a formação e avaliação em grupos heterogéneos em cada aula laboratorial lhes permitiu aprender com colegas, bem como ensinar colegas. Relativamente à aula teórica realizada “fora de portas”, todos a consideraram enriquecedora por terem tido a oportunidade de ver cientistas a realizar bioensaios em tempo real, permitindo-lhes perceber que o que lhes era ensinado tinha lugar no mundo real. As classificações dos estudantes melhoraram, tendo reconhecido que o modelo de avaliação incentivou o trabalho regular e aumentou a atenção e participação em aula, bem como melhorou a avaliação dos docentes e da UC nos inquéritos pedagógicos.
Conclusão. As alterações na prática pedagógica desta UC tornaram-na mais articulada, dialogante e proporcionaram uma aprendizagem situada e significativa. A melhoria dos indicadores qualitativos e quantitativos de sucesso académico confirma o impacto positivo das alterações da dinâmica pedagógica desta UC e reforça a pertinência de modelos pedagógicos centrados na mediação, na participação ativa e na comunicação pedagógica humanizada.
Resumo Biográfico
Marta Correia da Silva é professora auxiliar da Faculdade de Farmácia da Universidade do Porto (FFUP) no Laboratório de Química Orgânica e Farmacêutica. É Membro do Núcleo de Apoio ao Estudante e Integração Profissional do Conselho Pedagógico da FFUP desde 2021. Foi corresponsável pela implementação do programa de Mentoria Interpares na FFUP em 2019 e, em 2023, foi convidada a integrar a Comissão Científico-Pedagógica da Mentoria U.Porto., É docente coordenadora e co-responsável pela criação, na FFUP, do primeiro programa nacional de Mentoria Profissional em Ciências Farmacêuticas, Mentor.Pro.FFUP. A prática pedagógica que nos vem divulgar hoje foi apresentada no Workshop Anual de Inovação Pedagógica da Universidade do Porto deste ano.
1) Faculdade de Farmácia da Universidade do Porto
Introdução
A adoção generalizada de ferramentas de inteligência artificial generativa (IAG) no ensino superior tem transformado profundamente as condições em que o trabalho académico é produzido, colocando em causa pressupostos consolidados sobre autoria, responsabilidade e aprendizagem. Apesar da crescente atenção às implicações éticas e pedagógicas da IAG, os aspectos jurídicos e normativos da autoria em trabalhos académicos assistidos por IA permanecem pouco explorados. Esta comunicação propõe-se endereçar esta questão, com relevância directa para as práticas de avaliação no ensino superior.
Metodologia
Recorrendo a uma abordagem de análise legal e jurisprudencial, examinámos o conceito de autoria à luz do direito nacional e europeu, com ênfase nos requisitos de criação intelectual humana consagrados no direito de autor, articulando-o com os princípios emergentes do Regulamento da IA (AI Act), da legislação de protecção de dados e das práticas institucionais de governação académica.
Resultados
A análise evidencia que a autoria funciona como um limiar qualitativo, e não como um atributo binário. Quando a IAG opera como suporte cognitivo sob controlo intelectual humano, a autoria permanece atribuível ao estudante. Pelo contrário, quando o output gerado pela IA substitui a autonomia criativa do autor, a atribuição de autoria torna-se juridicamente e normativamente contestável. Com base neste enquadramento, propõe-se um framework de limiar qualitativo que disponibiliza critérios para distinguir a produção académica legitimamente assistida por IA de práticas que comprometem a autoria, a responsabilidade individual e a integridade académica.
Conclusão
As instituições de ensino superior, maxime os seus docentes, necessitam de ferramentas conceptuais claras para avaliar o grau de envolvimento intelectual humano nos trabalhos académicos produzidos com recurso a IAG. O framework proposto oferece um contributo operacional nesse sentido, com implicações directas para a concepção de instrumentos de avaliação e para as políticas institucionais sobre uso de IA.
Resumo Biográfico:
David Pereira, Prof. Auxiliar da FFUP. Regente da UC Inovação e Propriedade Intelectual. Ao nível pedagógico, interessado na proteção jurídica da autoria e o impacto da Inteligência Artificial na propriedade intelectual, incluindo direitos de autor.
1Laboratório de Farmacologia, Departamento de Ciências do Medicamento, Faculdade de Farmácia, Universidade do Porto.
A Unidade Curricular (UC) de Anatomia e Histologia desempenha um papel central na formação dos estudantes do curso de Ciências Farmacêuticas, constituindo uma base indispensável para a compreensão da estrutura e do funcionamento do corpo humano e servindo de suporte a outras UCs, como Fisiologia e Farmacologia. O principal objetivo deste estudo consistiu em analisar a perceção dos estudantes relativamente à UC de Anatomia e Histologia, com vista a monitorizar o seu funcionamento ao longo de três anos letivos consecutivos e a recolher dados que sustentem estratégias de melhoria pedagógica e organizacional. Dada a sua relevância, a análise da perceção dos estudantes sobre esta unidade curricular revela-se fundamental para compreender a eficácia das metodologias de ensino, a adequação da sua estrutura e o impacto no desenvolvimento de competências. Essa avaliação possibilita identificar pontos fortes e áreas de melhoria, contribuindo para o aperfeiçoamento contínuo da qualidade do ensino e da aprendizagem.
Para tal, foi realizado um estudo longitudinal, baseado na aplicação de um inquérito por questionário aos estudantes que frequentaram a UC nos três últimos anos letivos. A participação foi voluntária e anónima, garantindo a integridade ética do processo e possibilitando uma análise descritiva abrangente das perceções discente.
O questionário foi estruturado em várias secções que contemplaram diferentes dimensões:
• Perfil académico e experiência prévia, incluindo frequência anterior da UC, motivação inicial, assiduidade e preparação prévia;
• Estrutura e funcionamento da UC, avaliando clareza dos objetivos e normas de avaliação, grau de dificuldade percebido, relevância dos conteúdos, organização pedagógica, clareza expositiva, adequação dos materiais, articulação entre teoria e prática, pertinência da metodologia de casos de estudo e disponibilidade dos docentes;
• Desenvolvimento de competências, abrangendo competências específicas (identificação e interpretação de imagens anatómicas e histológicas) e competências transversais (recolha e interpretação de informação, aplicação de conhecimento, resolução de problemas, argumentação científica, comunicação, liderança e trabalho em equipa).
Os resultados revelaram uma perceção globalmente positiva por parte dos estudantes. Observou-se uma elevada capacidade de recolha, seleção e interpretação de informação, associada a uma avaliação favorável da clareza das aulas, da organização pedagógica e do apoio docente. Contudo, foram identificadas limitações na aplicação prática dos conhecimentos, sobretudo na resolução de problemas e na integração entre os conteúdos teóricos e laboratoriais. Estes resultados evidenciam a necessidade de reforçar as metodologias de ensino que estimulem o raciocínio crítico, a aprendizagem ativa e a contextualização prática dos conteúdos.
Em síntese, o estudo proporcionou uma visão ampla e fundamentada sobre o funcionamento da UC de Anatomia e Histologia e sobre as perceções dos estudantes. Foram identificados pontos fortes, como a clareza pedagógica e o envolvimento docente, e áreas de melhoria, relacionadas com a aplicação prática do conhecimento e a resolução de problemas em contextos novos. Assim, reforça-se a importância de implementar estratégias pedagógicas inovadoras e centradas no estudante, que promovam uma aprendizagem mais significativa, autónoma e integrada.
Este levantamento constitui uma ferramenta de apoio essencial ao planeamento de melhorias pedagógicas e organizacionais, contribuindo para o fortalecimento da qualidade e excelência do ensino na UC de Anatomia e Histologia.
Resumo Biográfico
Martin Vojtek é doutorado em Farmacologia e docente convidado no Laboratório de Farmacologia do Departamento de Ciências do Medicamento da Faculdade de Farmácia da Universidade do Porto. Colabora no ensino de unidades curriculares como Anatomia e Histologia, Fisiologia e Farmacologia. Colabora no ensino de unidades curriculares como Anatomia e Histologia, Fisiologia e Farmacologia, desenvolvendo a sua atividade nestas áreas de ensino, com particular interesse na inovação pedagógica, na avaliação no ensino superior e na promoção de competências nos estudantes.
1) Faculdade de Farmácia da Universidade do Porto
A pesquisa bibliográfica enfrenta dois desafios crescentes. O primeiro é o volume de publicações científicas disponíveis, que dificulta a identificação dos artigos mais relevantes. O segundo, mais recente, é o uso indiscriminado de modelos de linguagem de grande dimensão (*large language models*, LLMs) pelos estudantes que resulta frequentemente na produção de textos de qualidade mediana e com ausência de referências bibliográficas adequadas.
O objetivo desta comunicação é apresentar um enquadramento prático que integre os LLMs de forma deliberada na pesquisa bibliográfica, posicionando-os como complemento, e não substituto, do trabalho do estudante.
O enquadramento organiza-se em quatro etapas. A primeira consiste em encontrar artigos-semente (*seed papers*) com recurso a ferramentas de pesquisa baseadas em redes de citações e pesquisa semântica por IA, como o Litmaps ou o ResearchRabbit. A segunda etapa é a organização das referências selecionadas num gestor bibliográfico. A terceira etapa é a leitura ativa dos artigos, com anotação das passagens mais relevantes. Aqui, os LLMs auxiliam na sumarização das anotações e na síntese de notas estruturadas. A quarta etapa divide-se em dois casos de uso distintos consoante o nível de familiaridade do estudante com o tema: quando o objetivo é aprofundar a compreensão, o corpus construído serve de base para identificar novos artigos relevantes; quando o estudante já detém uma compreensão geral e pretende localizar informação específica na literatura, recorre a uma abordagem de perguntas e respostas com citações, com ferramentas como o NotebookLM.
A conclusão principal é que este enquadramento permite aos estudantes tirar partido das capacidades dos LLMs sem comprometer o rigor académico. O estudante mantém-se no centro da análise e da síntese crítica, enquanto delega nas ferramentas de IA as tarefas de pesquisa, triagem e organização. O enquadramento pode ser expandido com abordagens mais avançadas, como fluxos de trabalho automatizados e agentes.
Resumo Biográfico
José Soares é docente do Laboratório de Química Orgânica e Farmacêutica da Faculdade de Farmácia da Universidade do Porto, com interesse pela interação de modelos de linguagem com os processos de ensino e aprendizagem.
Introdução
Nas aulas laboratoriais de Bromatologia e Análises Bromatológicas, temos vindo a observar que o foco dos estudantes se encontra cada vez mais orientado para o cumprimento dos parâmetros de avaliação (exame laboratorial), em detrimento da compreensão da relevância e aplicabilidade dos conceitos abordados, o que acaba por comprometer o verdadeiro potencial formativo das aulas. Acresce ainda a dificuldade em transporem os fundamentos do rigor analítico adquirido para situações reais de contexto profissional, bem como em comunicar, adaptar e interpretar os resultados para diferentes públicos. Esta apresentação tem como objetivo dar a conhecer uma abordagem alternativa nas aulas laboratoriais, baseada em problemas reais propostos por cada turma. Esta estratégia permite aos estudantes acompanharem e serem corresponsáveis por todo o processo, desde os conceitos fundamentais de amostragem, análise nutricional e análise estatística, passando pela rotulagem, pela adaptação às necessidades nutricionais individuais, até à comunicação eficaz da informação a públicos diversos. Desta forma, reforçam se competências essenciais como trabalho em equipa, pensamento critico, rigor analítico e a literacia alimentar e em saúde. Esta abordagem está alinhada com a Diretiva de 2024, ao integrar uma perspetiva centrada na saúde pública, na colaboração interprofissional e no desenvolvimento de competências digitais.
Metodologia
A estratégia pedagógica desenrolou-se em várias etapas integradas:
• Experiência Laboratorial: Cada turma laboratorial selecionou refeições/alimentos reais para realizar a análise nutricional. Cada alimento foi adquirido em 3 locais diferentes, e para cada amostra foi feita a análise nutricional completa por 3 grupos, para permitir um tratamento estatístico fiável.
• Análise de Dados e Integração Digital: Procedeu-se à análise estatística dos resultados e definição da rotulagem (nutricional, ingredientes, aditivos e alergénios) e à sua integração nas necessidades diárias individuais, recorrendo a aplicações digitais e bases de dados internacionais (UE, FDA, OMS).
• Produção Multimodal e Avaliação: Cada grupo (2 estudantes) apresentou os resultados à turma utilizando um de três modelos de apresentação: Relatório Científico (focado no rigor e na comparabilidade de dados), Aconselhamento Individualizado (empatia e aplicação prática) e Notícia Informativa (síntese e divulgação). A avaliação da prestação dos estudantes incluiu uma componente de Avaliação por Pares e de Autoavaliação via QR Code, promovendo a reflexão crítica.
Resultados
Embora os dados quantitativos de satisfação dos estudantes estejam em fase de recolha, observou-se um desenvolvimento expressivo da autonomia, responsabilidade e do pensamento crítico. É fundamental destacar que estas melhorias foram alcançadas sem perda do rigor formativo, uma vez que, apesar da remoção do exame laboratorial tradicional, manteve-se a exigência na compressão dos métodos analíticos, no tratamento estatístico e na validação científica. A apresentação oral por cada grupo (7 minutos) num dos diferentes contextos de comunicação serviu como suporte de avaliação, permitindo aos alunos transitar da análise laboratorial para a comunicação de ciência, sustentada em evidência quantitativa e em impacto na saúde.
Conclusão
A metodologia revela-se eficaz na preparação dos alunos para desafios reais, conciliando rigor científico com comunicação acessível. Ao aplicar a análise técnica a contextos de literacia e saúde pública, reforça as competências exigidas pela Diretiva de 2024. Assim, promove uma formação mais completa, que combina domínio analítico com a capacidade de comunicar e aplicar o conhecimento em contextos clínicos, científico e outros.
Resumo Biográfico
Isabel Ferreira e Susana Casal são docentes do laboratório de Bromatologia e Hidrologia da FFUP; Isabel Mafra e Miguel Faria são investigadores do LAQV/REQUIMTE que no ano letivo de 20.25/2026 tiveram serviço atribuído na UC de Bromatologia e Análises Bromatológicas
1) Faculdade de Farmácia da Universidade do Porto, Departamento de Ciências Biológicas, Laboratório de Bioquímica, 2) Faculdade de Farmácia da Universidade do Porto, Departamento de Ciências Químicas, Laboratório de Química Aplicada, 3) Faculdade de Farmácia da Universidade do Porto, Departamento de Ciências Químicas, Laboratório de Bromatologia e Hidrologia, 4) Faculdade de Farmácia da Universidade do Porto, Departamento de Ciências Químicas, Laboratório de Química Orgânica e Farmacêutica
Introdução. Criado em 2022, o MENTOR.PRO.FFUP visa facilitar a transição dos estudantes da Faculdade de Farmácia da Universidade do Porto (FFUP) para o mercado de trabalho. Os Mentores são Alumni da FFUP, voluntários, profissionais das diversas áreas farmacêuticas. Podem ser Mentorados os estudantes do 4º e 5º anos do Mestrado Integrado em Ciências Farmacêuticas (MICF), do 1º e 2º anos dos Mestrados da FFUP e do 3º e 4º anos do Doutoramento em Ciências Farmacêuticas. O objetivo é promover a partilha de experiências e um esclarecimento sobre as especificidades de cada área das Ciências Farmacêuticas.
Metodologia. O programa assenta em quatro metodologias principais: i) Sessões de abertura e encerramento com a presença do Diretor da FFUP, para o reencontro com os Alumni e promoção do convívio entre Mentores e Mentorados; ii) Mentoria 1:1, durante seis meses, com Mentores das áreas selecionadas pelos Mentorados; iii) Workshop “Percursos Profissionais Farmacêuticos” com partilha de experiencias pelos Mentores e Debate “Prós e Contras das Diversas Áreas Farmacêuticas” com discussão entre Mentores e os estudantes, nomeadamente com a participação ativa dos estudantes do 1º ano, permitindo o contacto com as múltiplas saídas profissionais desde o início do curso; iv) Sessões virtuais “Hora dos Mentores”, organizadas entre Mentores da mesma área, para proporcionar networking entre Mentores e um maior conhecimento sobre as diferentes possibilidades de carreiras a todos os Mentorados.
Resultados. Em resposta aos inquéritos realizados aos 147 Mentorados e 94 Mentores ao longo das cinco edições, os Mentorados referiram que o programa reduziu a sua insegurança face à transição para o mundo profissional e ajudou na escolha do setor de atuação. Os Mentores destacaram a oportunidade de contribuir para a formação das novas gerações e de “retribuir” à instituição que os formou.
Conclusão. O contacto com a realidade do mundo profissional, pela voz de Alumni motiva os estudantes a continuar o seu percurso e é uma estratégia facilitadora da transição para o mercado de trabalho e de redução do abandono académico. O programa aproxima a academia da profissão, reduz a insegurança nos estudantes e traz de volta “a casa” antigos estudantes com enorme sentido de missão, promovendo simultaneamente o network entre profissionais.
Resumo Biográfico
Georgina Correia da Silva é professora associada da Faculdade de Farmácia da Universidade do Porto (FFUP) no Laboratório de Bioquímica. É membro do Conselho de Representantes e do Conselho Científico. É coordenadora do Núcleo de Apoio ao Estudante e Integração Profissional do Conselho Pedagógico. É docente coordenadora e foi corresponsável pela criação do programa de Mentoria Profissional, Mentor.Pro.FFUP. Foi ainda corresponsável pela implementação do programa de Mentoria Interpares na FFUP.