As discussões e a formulação de recomendações nas etapas preparatórias estão organizadas em oito eixos temáticos, estruturados a partir das diretrizes da Política Nacional para a População em Situação de Rua (Decreto nº 7.053/2009). Para que as recomendações reflitam as necessidades reais de cada território, a mediação dos grupos deve garantir escuta atenta e qualificada, valorizando a vivência em primeira pessoa de quem está ou esteve em situação de rua e incluindo desafios observados pela rede envolvida.
Moradia digna é um direito fundamental e ponto de partida essencial para a reconstrução da vida e a superação da situação de rua. A falta de um abrigo seguro aumenta os riscos cotidianos e dificulta o acesso a outras políticas públicas, exigindo soluções que vão além do acolhimento temporário e garantam acesso à habitação permanente. É preciso ter em mente que o acesso à moradia permanente não se resume a oferecer uma casa. É necessário garantir as condições para que cada pessoa possa se adaptar à nova moradia, reconstruir vínculos e seguir sua vida com autonomia e dignidade, contando com o acompanhamento das diferentes políticas públicas que possam apoiar e sustentar esse processo.
Pontos de atenção para discussão: Dificuldades e exigências burocráticas no cadastro em programas habitacionais; falta de mecanismos de acesso da população em situação de rua a programas habitacionais; e a necessidade de implementar metodologias que contemplem pessoas sem renda e com necessidade de acompanhamento psicossocial, como o Housing First (Moradia Primeiro).
Perguntas orentadoras:
1. Como melhorar o acesso aos programas de moradia no seu município? Quais são os principais problemas que impedem o acesso?
2. Quais públicos não estão sendo priorizados nas políticas de habitação do seu município?
3. Depois de receber a casa ou o aluguel social, quais são as principais dificuldades para a pessoa conseguir se manter na moradia com segurança e autonomia?
4. Quais são as boas ações na área de habitação que o município ou estado possui ou já possuiu?
A rede de assistência social e as ações de segurança alimentar funcionam como importantes portas de entrada para a proteção social e a garantia da sobrevivência diária. É fundamental assegurar que os serviços de abordagem, acolhimento e fornecimento de alimentação ofereçam atendimento humano, respeitoso e regular.
Pontos de atenção para discussão: Barreiras na inscrição e atualização do Cadastro Único (CadÚnico); disponibilidade de leitos em serviços de acolhimento institucional; serviços de acolhimento para públicos específicos, como mulheres, famílias, pessoas com deficiência, pessoas LGBTQIA+, formas de acesso a alimentação gratuita ou de baixo custo em restaurantes comunitários e cozinhas solidárias; serviço de abordagem social e Centros Pop.
Perguntas orientadoras:
1. Como o governo pode facilitar a inscrição no CadÚnico e seus benefícios?
2. De que maneira o poder público pode garantir vagas suficientes e adequadas nos serviços de acolhimento, considerando as necessidades específicas de mulheres, pessoas LGBTQIA+, famílias, pessoas idosas e pessoas com deficiência?
3. O que os governos podem fazer para que as pessoas em situação de rua tenham alimentação adequada todos os dias e em diferentes horários?
4. Como o trabalho das equipes de abordagem social e dos Centros Pop pode auxiliar no processo de saída das ruas?
5. Como a política de assistência social pode evitar de mais pessoas vão (ou venham) para a situação de rua? Exemplo: Trabalhando fluxos de atendimento para públicos como egressos do sistema prisional e socioeducativo e pessoas que sofrem despejos.
6. Como a articulação entre os serviços de assistência social e saúde pode ser fortalecida?
O cuidado com a saúde da população em situação de rua deve ser integral, humanizado e livre de barreiras burocráticas, considerando a alta vulnerabilidade física e mental vivenciada nas ruas, bem como as condições de vida e os determinantes sociais que impactam a saúde e o bem-estar das pessoas. Isso significa não olhar apenas para as doenças, mas também para os diferentes fatores que influenciam a saúde ao longo de uma vida.
Pontos de atenção para discussão: Exigência indevida de documentos ou comprovante de endereço para atendimento nas Unidades Básicas de Saúde (UBS); quantidade de equipes do Consultório na Rua e formato das equipes; necessidade de atenção à saúde mental e cuidados contínuos em relação ao uso de álcool e outras drogas; estigmas e preconceitos relacionados a doenças como tuberculose, sífilis e outras condições de saúde, que podem dificultar o acesso, o acolhimento e a continuidade dos tratamentos; e a oferta de ações de redução de danos, saúde bucal e dignidade menstrual.
Perguntas orientadoras:
1. O que pode ser melhorado nas Unidades Básicas de Saúde ou hospitais no atendimento humanizado da população em situação de rua?
2. O que pode ser melhorado na ação do Consultório na Rua e dos serviços de saúde mental para melhor acompanhamento da população em situação de rua?
3. Quais ações práticas o poder público pode realizar para proteger a saúde no cotidiano (como vacinação prioritária, entrega de itens de higiene e saúde bucal)?
4. Quais são as dificuldades vivenciadas por mulheres grávidas e com crianças recém-nascidas nos serviços de saúde?
5. Quais são as dificuldades vivenciadas por pessoas transsexuais e travestis no atendimento em saúde?
Garantir os direitos humanos significa assegurar condições para que todas as pessoas possam viver com dignidade, segurança e respeito, o que inclui combater o preconceito, a discriminação e a violência institucional contra quem vive nas ruas. Essa garantia se concretiza também no cotidiano, nas condições e nos cuidados necessários para que as pessoas possam viver com saúde, segurança e dignidade, inclusive diante de situações de maior vulnerabilidade, sejam elas climáticas, econômicas, sociais ou de outras naturezas. As políticas públicas devem proteger a integridade física e jurídica dessa população, assegurando que as ações de segurança e zeladoria urbana respeitem seus pertences e sua dignidade.
Pontos de atenção para discussão: Violência e maus-tratos em serviços públicos; recolhimento indevido de pertences pessoais e presença de arquitetura hostil na cidade; falta de formação contínua em direitos humanos para guardas municipais e agentes públicos; oferta de serviços de registro e acompanhamento de violação de direitos contra a população em situação de rua.
Perguntas orientadoras:
1. Como o poder público pode evitar situações de violência, preconceito e recolhimento de pertences pessoais em ações de limpeza e fiscalização da cidade?
2. Como os guardas municipais e trabalhadores dos serviços públicos devem ser treinados e preparados para atender a população em situação de rua com respeito e proteção aos seus direitos?
3. Quais serviços e canais devem existir na cidade para orientar juridicamente e proteger quem sofreu violência ou teve seus direitos violados nas ruas?
4. Como as pessoas em situação de rua podem ter um melhor acesso à justiça?
5. O que o governo pode fazer para garantir, no dia a dia, condições de vida dignas e proteção aos direitos da população em situação de rua?
6. Como garantir que os serviços públicos respeitem todas as religiões e também as pessoas que não têm religião?
O acesso à educação, cultura, esporte e lazer é fundamental para o fortalecimento e resgate da autoestima, o desenvolvimento interpessoal e a promoção da cidadania das pessoas em situação de rua. As ações educacionais e culturais precisam adaptar suas metodologias para acolher o perfil e valorizar os saberes e trajetórias dessa população.
Pontos de atenção para discussão: Barreiras no acesso e na permanência de jovens e adultos em turmas de EJA (Educação de Jovens e Adultos); dificuldades de matricular e manter crianças e adolescentes de famílias em situação de rua na escola regular sem distorção idade série; escassez de programas de inclusão digital; e pouca oferta de atividades culturais e esportivas abertas a este público, e estímulo à cultura produzida na rua.
Perguntas orientadoras:
1. De que maneira as escolas e os programas de educação formal e não-formal de adultos podem incluir quem vive na rua?
2. Como o poder público pode incentivar o acesso à internet, computadores e programas de inclusão digital para a população em situação de rua?
3. O que a escola precisaria fazer para melhor receber uma pessoa em situação de rua?
4. Quais projetos de cultura, esporte e lazer podem ser realizados para e com a população em situação de rua, valorizando suas habilidades e seus saberes?
5. Como a arte e a cultura produzidas na rua podem ser potencializadas?
6. Como facilitar o acesso da população em situação de rua aos programas, editais e mecanismos de incentivo à cultura já existentes, bem como aos espaços e equipamentos culturais, esportivos e de lazer?
O acesso ao trabalho digno e às oportunidades de geração de renda é o principal caminho para a reconstrução da autonomia e a superação permanente da situação de rua. É necessário investir em qualificação profissional adaptada, economia solidária e vagas formais.
Pontos de atenção para discussão: Número elevado de "bicos" e trabalhos informais; falta de espaços públicos estruturados para apoio ao trabalhador em situação de rua; ofertas reduzidas de cursos profissionalizantes adequados à rotina das ruas; e barreiras para inserção em vagas formais de emprego.
Perguntas orientadoras:
1. Como o governo pode ajudar as pessoas a encontrar trabalho e conquistar mais autonomia em suas vidas?
2. Quais cursos de formação profissional ou oficinas práticas o governo pode oferecer levando em conta a realidade e os horários de quem está na rua?
3. De que maneira o governo pode estimular a contratação formal (com carteira assinada) ou apoiar cooperativas e trabalhos comunitários
promovidos por pessoas em situação de rua?
4. Quais pontos devem ser regulamentados pela Lei Nº 14.821, de 16 de janeiro de 2024, que institui a Política Nacional de Trabalho Digno e Cidadania para a População em Situação de Rua (PNTC PopRua).
5. Como os catadores de materiais recicláveis e reutilizáveis que estão em situação de rua podem ser apoiados?
O planejamento de políticas públicas eficazes depende da produção contínua de dados confiáveis e da formação das equipes de atendimento para garantir o registro adequado e qualificado das informações. Conhecer a quantidade, a localização e as necessidades reais da população em situação de rua permite direcionar os recursos públicos com precisão e avaliar os resultados alcançados.
Um exemplo de iniciativa relevante nesse sentido é a previsão de realização, em 2028, do primeiro Censo Nacional da População em Situação de Rua, pelo IBGE. A iniciativa representará um importante avanço na produção de conhecimento sobre essa população, gerando informações fundamentais para subsidiar o planejamento, a implementação e o aprimoramento das políticas públicas.
Pontos de atenção para discussão: Ausência de censos, pesquisas demográficas ou contagens oficiais periódicas no município; falta de integração e compartilhamento de dados entre os sistemas da assistência, saúde e segurança; e falta de programas permanentes de formação para os trabalhadores da ponta.
Perguntas orientadoras:
1. Quais dados são importantes para se coletar no Censo Nacional da População em Situação de Rua que está sendo feito pelo IBGE?
2. De que forma os diferentes setores (como Assistência Social, Saúde e Habitação) podem compartilhar informações para acompanhar o atendimento das pessoas em situação de rua?
3. O que deve fazer parte da formação dos servidores e trabalhadores municipais para que atendam bem à população em situação de rua?
A participação social garante que as pessoas com trajetória de rua deixem de ser apenas usuárias passivas de serviços e atuem como cidadãs ativas, ajudando a elaborar, fiscalizar e avaliar as decisões do poder público. É essencial garantir o funcionamento regular de comitês locais e conselhos com espaço efetivo de escuta e deliberação.
Pontos de atenção para discussão: Dificuldades no funcionamento regular ou ausência do Comitê Intersetorial (CIAMP-Rua) local; dificuldade na articulação e comunicação dos comitês municipais, estaduais e nacional; falta de apoio prático (como transporte e alimentação) para viabilizar a presença das pessoas em situação de rua nas reuniões; e prestação de contas governamentais com linguagem burocrática e pouco acessível.
Perguntas orientadoras:
1. Como o poder público pode garantir a participação ativa e permanente de pessoas com experiência de rua no comitê local (CIAMP-Rua) e nos demais conselhos de direitos?
2. Que tipo de apoio prático (como alimentação e vale-transporte) o poder público pode oferecer para que as pessoas em situação de rua consigam comparecer e participar dos encontros?
3. Como as informações e prestações de contas das políticas públicas podem ser apresentadas de maneira simples e clara para toda a
população?
4. Como os governos podem garantir que as participações dos comitês tenham impacto nas políticas públicas para a população em situação de rua? Cite boas práticas de participação social que podem se tornar referência para o CIAMP-Rua.