Conhecer para preservar os filmes da industrialização: mobilizações inter- e extra-disciplinares
Conhecer para preservar os filmes da industrialização: mobilizações inter- e extra-disciplinares
Emília Margarida Marques – CRIA-ISCTE/ IN2PAST-NOVA FCSH
A comunicação proposta apoia-se em pesquisa sobre os filmes da industrialização portuguesa do segundo pós-guerra para suportar uma reflexão sobre inter- e extra-disciplinariedade na sua conservação, preservação e restauro.
Tenho presente a importância do conhecimento de contexto na gestão arquivística dos objetos fílmicos, tal como estabelecido pela FIAF (2009) e praticado, em Portugal, pela Cinemateca / ANIM.
Designo por ‘filmes da industrialização’ as curtas-metragens não ficcionais produzidas no contexto do surto industrializante do segundo pós-guerra, durante a ditadura, sob encomenda ou produção própria de empresas ou outros organismos, públicos ou privados, e envolvendo uma finalidade promocional – das empresas ou setores, da indústria e da economia portuguesa no exterior, e/ou das políticas industriais e laborais do regime.
A superabundância destes filmes e a sua importância no cinema produzido em Portugal (Cunha 2014; Martins 2010; Vidal & Veloso, eds, 2016) contrastam com a dificuldade em encontrar, hoje, informação sistematizada sobre os contextos próximos e processos precisos por trás de cada um. Contudo, a dispersão das fontes é informativa da diversidade de atores e processos envolvidos e da imbricação constitutiva destes filmes na dinâmica industrializante.
Percorrendo brevemente algumas pesquisas sobre os filmes da industrialização (Veloso & Marques, 2016; Marques, 2026) e a sua receção atual (Marques, 2019), a comunicação exemplifica: (a) a dispersão e riqueza das fontes; (b) o ganho heurístico da sua conjugação crítica com a análise dos filmes propriamente dita; (c) a multiplicidade disciplinar envolvida, da história contemporânea (da indústria, das políticas económicas e industriais, do cinema) ou da abordagem antropológica do trabalho e da técnica aos estudos de receção fílmica e de memória social; e (d) a presença e potencial de conhecimento e interesse existentes extra-academia em torno destes filmes.
Argumento, então, a favor de uma abordagem inter- e extra-disciplinar aos filmes da industrialização, deixando para debate uma sugestão dirigida à mobilização daquele conhecimento e interesse – uma vez que decidir para e como conservar, preservar e restaurar envolve não apenas conhecimento mas, também, dinâmicas de significado, reconhecimento, apreço e uso.
Referências:
Cunha P. 2014. “Um cinema invisível: a produção de curtas documentais e o novo cinema português.” Vieira P e P Serra, eds, Imagens achadas: documentário, política e processos sociais em Portugal. Lisboa, Colibri: 137-152.
felix.cinemateca.pt
FIAF Technical Commission. 2019. Preservation best practice. https://www.fiafnet.org/images/tinyUpload/E-Resources/Commission-And-PIP-Resources/TC_resources/Preservation_Best_Practice_v4_1_1.pdf
Marques EM. 2019. Old Corporate Films and Former Factory Workers: Film Reception as Social Memory. Film History 31 (1): 102-126. DOI: 10.2979/filmhistory.31.1.0102.
Marques EM. 2026. Filmes do Fundo de Fomento de Exportação. Connecting Portuguese History: Digital Dictionary of the Modern World. IHC / IN2PAST. https://connectingportuguesehistory.org/items/show/145
Martins P. 2010. O cinema em Portugal: os documentários industriais de 1933 a 1985. Lisboa, ISCTE-IUL, dissertação de Doutoramento
Veloso L. & Marques EM. 2016. Gestos de trabalho e dispositivos técnicos em filmes sobre as indústrias do vidro e siderúrgica. L. Veloso & F. Vidal, eds., O trabalho no ecrã: memórias e identidades sociais através do cinema. Lisboa, Ed 70: 135-162.
Vidal F. & L. Veloso, eds., O trabalho no ecrã: memórias e identidades sociais através do cinema. Lisboa, Edições 70.
Emília Marques
Emília Margarida Marques. Doutora em Antropologia pela Universidade Nova de Lisboa. Investigadora no Centro em Rede de Investigação em Antropologia (CRIA-Iscte / IN2PAST). Integra a Comissão Editorial e é a editora de dossiers na Etnográfica. Principais interesses de pesquisa: trabalho e técnica na indústria transformadora; classe, desigualdade e produção de consentimento; desindustrialização; memórias do trabalho; história da indústria vidreira e dos vidreiros; usos do filme documental na industrialização portuguesa.
Ciência-Vitae: 7A11-345D-7342.