Entre o filme e o arquivo: A realização de 24 memórias por segundo no ANIM
Entre o filme e o arquivo: A realização de 24 memórias por segundo no ANIM
Carlos Miranda
Partindo da experiência na realização do filme 24 Memórias por Segundo, documentário de curta-metragem rodado no Arquivo Nacional das Imagens em Movimento (ANIM), propõe-se refletir sobre o universo da preservação cinematográfica. Mais do que analisar o filme enquanto obra, procura-se o debate em torno do que a sua realização tornou visível: o trabalho humano, técnico e institucional que garante a continuidade das imagens; a diversidade do património que os arquivos salvaguardam; e o papel do documentário na valorização e transmissão dessa memória.
Revisita-se a génese do projeto e a experiência de terreno resultante do contacto com profissionais, espaços, equipamentos e procedimentos do arquivo. O filme emerge da tensão entre a relevância social e cultural do trabalho desenvolvido no ANIM e a sua relativa invisibilidade no espaço público, agravada pela natureza pouco conhecida das suas operações quotidianas. Neste sentido, o principal desafio consistiu em traduzir processos técnicos altamente especializados e pouco acessíveis sem os reduzir a uma lógica meramente descritiva ou didática, procurando antes uma abordagem que articulasse observação, testemunho e atenção à materialidade dos dispositivos e dos suportes fílmicos.
A filmagem de profissionais da preservação cinematográfica introduz uma dimensão reflexiva sobre o próprio objeto cinematográfico, na medida em que o cinema se torna simultaneamente meio de registo e objeto de análise. Esta condição metacinematográfica permite problematizar o arquivo não como um espaço neutro de conservação, mas como uma instituição socialmente situada, estruturada por práticas de trabalho, saberes especializados e decisões técnicas que condicionam a continuidade da memória fílmica. Neste enquadramento, a conservação do cinema revela uma singularidade face a outras formas de património: não apenas pela fragilidade dos seus suportes materiais, mas também pela sua natureza intrinsecamente visual e temporal, que exige formas específicas de cuidado, leitura e reativação.
O património cinematográfico, porém, não se esgota nas obras de reconhecido valor artístico. Os arquivos desempenham também um papel fundamental na salvaguarda de filmes amadores, familiares ou de produção não profissional, que constituem testemunhos essenciais do seu tempo. Estas imagens, muitas vezes produzidas fora dos circuitos industriais ou artísticos, registam práticas sociais, quotidianos e formas de vida que dificilmente encontram outra via de inscrição histórica.
O projeto sublinha a importância do trabalho de preservação enquanto prática frequentemente invisível, mas essencial à existência continuada do próprio cinema. Ao dar a ver estas rotinas, gestos e infraestruturas, o filme constitui também uma forma de homenagem a esse trabalho discreto, mas estruturante, que sustenta a possibilidade de acesso futuro às imagens.
Carlos Miranda
Carlos Miranda é realizador e produtor de cinema documental e fundador da produtora Eighty Forward. Formado em realização de documentário, com passagem pela National Film and Television School, em Londres, é também mestre em Sociologia pelo ISCTE-IUL, com uma dissertação sobre diversidade cultural na atividade cinematográfica.
O seu primeiro filme, 24 Memórias por Segundo, rodado no Arquivo Nacional das Imagens em Movimento, teve estreia internacional no MoMA Doc Fortnight e foi posteriormente projetado pela Cinemateca Portuguesa na cerimónia comemorativa dos seus 70 anos. Produziu ainda a longa-metragem ARY e mais recentemente realizou Ricardo Martins: Ressoar, apresentado no IndieLisboa em 2024. Os seus filmes foram exibidos em festivais de vários pontos do mundo: de Nova Iorque a Düsseldorf, de Lisboa a Macau.
O seu trabalho cruza a criação documental com um olhar sociológico sobre a memória, a representação e as dimensões sociais e institucionais do cinema.