Sofia Neuparth é diretora do c.e.m – centro em movimento.
É também investigadora, bailarina, criadora e professora.
1-Quando e por que razão começou a dançar?
Sempre dancei, desde que apareci deste lado do mundo, sempre dancei e danço. comecei a fazer aulas de dança quando tinha 14 anos...normalmente as pessoas que escolhem a dança para a sua vida começam mais cedo mas, lá está, sempre dancei, de outras maneiras.
Nessa altura foi a minha mãe que me pôs numa classe de ginástica rítmica para ver se eu deixava de disparatar tanto, estava sempre aos pulos e dançava em qualquer lugar. Quem não gostava muito disso eram os patinhos de barro e outras coisas que a minha mãe tinha por cima das mesas e que passavam a vida a voar para o chão. A classe de ginástica é que não foi um sucesso, passada fui expulsa, posta na rua mesmo, porque de facto não me apetecia nada atirar bolas e fitas e depois apanhar...ainda atirar...era engraçado, mas estava tudo tão codificado (olha, fiz um verso). E ali perto havia uma aula de dança moderna...e isso sim, pareceu-me mais misterioso, mais parecido com as danças que eu dançava...depois fui para o ballet...e fui sempre acompanhando mais as pessoas que traziam a dança, os professores, do que as técnicas, e agradeço muito esses encontros.
Para além das aulas sempre gostei muito de estudar coisas do corpo (e outras coisas) e de levar horas a experimentar cada dia.
2-O que é a Dança para si e porque é importante?
Costumo dizer que a Dança é a poesia do gesto. Para mim o gesto é o que se faz presente em corpês a partir desta experiência corpo-mundo.
Muitas dessas gestualidades que aparecem são “úteis” ou, a meu ver, postas ao “serviço” de funcionalidades, coisas que servem para alguma coisa. Dizer adeus, esticar o braço para apanhar uma maçã, aninhar-me para caber debaixo da cama e apanhar um livro, sentar, andar, pausar...
A Dança é, para mim claro está, a poesia desse aparecer do gesto. Aquilo que não se prende numa função, eu até diria que é um gesto que “não serve para nada” mas isso só quem me conhece sabe a alegria que tenho em fazer coisas que normalmente se chama de “inúteis”. Claro que esses gestos que não servem para nada alimentam o mundo, e de que maneira!!! São muito importantes mesmo, são fonte de vida...só que não nascem para “servir para alguma coisa” nascem livres, e é nessa liberdade que aparecem e atravessam corpos.
Sem poesia, sem criação, sem essa gestualidade “para nada” que nasce na escuta desse contínuo aparecer corpo-mundo, não me parece que possa haver humanidade... a arte é uma forma de conhecimento, a dança é... o que a dança for sendo!
3-Pode falar-nos do c.e.m -centro em movimento?
Falar do cem é uma coisa infinita...por isso digo só alguns bocadinhos. O cem é um organismo (algo cheio de vida) de investigação artística nos estudos do corpo, do movimento e do comum (daquele entre-corpos que o encontro entre humanos e toda a natureza que nós também somos vai gerando).
O cem é o olho do furacão, é o lugar sempre em movimento, que habita o interior de um furacão, o lugar de silêncio e de grande rigor, escuta e amor (lá fiz outro verso...) que cada umaum pode ajardinar gerando possibilidades de mundo onde se possa existir.
centro em movimento.
O cem foi nascendo no final dos anos 80, nunca quis ser muito grande ou muito importante, sempre foi sendo o que vai sendo cada dia, com toda a dedicação de cada umaum que o atravessa e habita, como a Maria. Sempre a começar, a continuar.
4-O que é que torna o cem único e particular?
O que torna o cem único e particular é estar vivo! Estar sempre em transformação, estar sempre em estado de escuta, não se vender a ideias do que devia ser. Cada corpo que atravessa ou integra o cem deforma, transforma tudo o que acontece, aparecem outros livros, outras com-versas, outras danças, outras escritas...
A boca sofia costuma dizer: não há encontro sem deformação... lá está... o encontro implica a deslocação de todas as partículas envolvidas, humanos, pedras, atmosferas, cães, plantas, muros, ideias... nada se imobiliza... tudo está em movimento... e o cem é encontro a cada momento.
5-Pode falar-nos da sua peça o "SOPRO"? Como surgiu e como cresceu?
O Sopro nasceu do desejo de partilhar com quem quisesse vir ao encontro, o movimento que se faz dança. Que se faz música. Que se faz atmosfera.
Não se é corpo sozinho.
Acompanhei lado a lado a doença da minha mãe e nos últimos anos ela não podia mais nem mexer nada, estava completamente imobilizada, nem os gestos “úteis” como comer ou tomar banho, nem aqueles gestos poéticos como abraçar e beijar... não mexia nada. E eu, que já sabia a importância que para mim tinha poder levantar um braço ou abanar a cabeça, ou mexer a perna... coisas simples… senti que tinha mesmo que trazer ao mundo esse amor por deixar passar movimento.
É para mim impressionante a capacidade que os humanos têm de não se mexer nem um bocadinho, de ficarem infelizes e cinzentos e cheios de dores... quando podem rodopiar ou enrolar ou estender ou abanar ao ritmo do dia ou de uma música... o corpo que vamos sendo, não só o corpo físico, mas o corpo dos sonhos e dos pensamentos e das relações, existe em movimento. Sem movimento não há vida, parece-me.
Como o sopro cresceu? No encontro com cada paisagem geográfica e humana que foi encontrando, claro, e continua caminhando... cada dia.
6-Pode dar-nos uma ideia para ser dançada por nós enquanto estamos em casa?
Uma ideia para ser dançada...eu sinto que a Dança dança o que ela quer, mesmo sem ideias, mas trazer à Dança o vento, as ondas, o tigre, a minhoca, o tubarão...trazer à dança coisas simples por onde passeia a atenção (acho que este é o último verso hihihi).
Olha lá, sente, toca, escuta o momento que está a acontecer agora, em qualquer lugar. Se puderes não banalizes a coisa com aquela expressão que os adultos importantes muitas vezes trazem: “não se passa nada”. E ficam todos chateados à espera que se passe alguma coisa...
e aquela dobra da manta? E o gato que se escondeu só com o rabo de fora? E as moscas a rodopiar? E o desenho da sombra da janela no chão? e o pardal a apanhar migalhas? E o som que está perto ou que está longe?
Vamos lá fazer acontecer um dia bom e um mundo onde possamos existir!
sofia