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Os alunos das oitava série do Ginásio Ipanema de 1° grau, e os estudantes do 1° Grau da Escola Odila Gay da Fonseca, no bairro Ipanema, paralisaram, ontem, após o recreio da manhã, todas suas atividades. A justificativa apresentada por eles para a paralisação das aulas foi a suspensão de um colega que, afirmaram, foi inclusive chamado de drogado pela vice-diretora da escola, Maria Rosa Radaelli. Ontem à tarde, as atividades da escola Odila Gay da Fonseca voltaram a normalidade. Os estudantes pretendem, entretanto, um contato com a diretora da escola na próxima terça-feira. Para isto, afirmam eles, neste dia, eles, aos invés de entrarem para a sala de aula às 8h, permanecerão no pátio aguardando que a diretora os atenda.
O motivo do desentendimento ocorrido, ontem, entre direção e estudantes do Odyla é, no mínimo, curioso. Em frente à escola, por volta das 11h, cerca de 100 estudantes gritavam ao mesmo tempo, todos eles querendo narrar os acontecimentos . Por fim, foram designados alguns representantes para contar a versão dos estudantes dos motivos que levaram à paralisação das aulas.
CONVITE
Esta versão, totalmente diversa da apresentada pela direção, posteriormente foi confirmada por muitos alunos. Afirmam eles que, na quinta-feira, a professora Ligia Corrêa, passou em todas as salas de aula entregando um convite para os pais participaram de uma reunião a ser realizada dia 18 (ontem), às 14h30min. O objetivo da reunião é tratar sobre um jantar de homenagem e um chá beneficente.
Até aí, nenhuma anormalidade. Ocorre, porém, que, segundo os alunos, a professora Ligia teria afirmado que quem não trouxesse o convite no dia seguinte (ontem, portanto) assinado pelos pais e ainda com seu endereço, não poderia entrar na escola. Ainda conforme os estudantes, a professora Ligia não só fez a ameaça, como determinou que ela fosse cumprida pela funcionária que atende no portão, dona Cezarina. Asseguram eles que os estudantes que não apresentaram o convite assinado, ontem às 7h30min, horário em que bate o sinal para a estrada, não puderam ingressar no colégio. "Muitos foram para suas casas buscar o convite, mas um grupo ficou no mesmo local, pois achava que não podia ser impedido de assistir aulas por este motivo". Os que ficaram não puderam entrar, os que foram em casa buscar o convite também não, porque chegaram atrasados".
INVASÃO
Contudo, continuam eles, a uma certa altura um grupo de alunos conseguiu entrar e, então, o estudante Brenoli Neto Soares, do 2° ano A, quis fazer o mesmo, sendo porém impedido pela dona Cezarina, que permitira a entrada dos primeiros. "Brenoli, então, empurrou o portão e entrou. Atrás dele entrou todo mundo que estava fora". O grupo, composto de alunos da oitava série e do 2° grau da escola, foi para a sala do 2° ano A, que estava vazia, contam eles.
"Aí, a dona Romilda, que cuida do corredor, mandou a gente falar com a vice-diretora e nós descemos". Renato Calcanhoto, aluno da oitava série, segundo os estudantes, foi à frente do grupo. Renato diz que, ao entrar na sala de vice-diretora, esta indagou o por quê dele haver entrado na escola. "Eu respondi que estava entrando porque todo mundo estava entrando também. Ela, então, disse que não ia falar comigo, porque eu estava drogado, era traficante e que ia ser automaticamente suspenso".
As afirmações do Renato são confirmadas por, pelo menos, mais dez estudantes que dizem ter chegado na sala da vice-diretora Maria Rosa, no momento em que ela chamava o aluno de drogado. A seguir, dizem eles, a vice-diretora chamou a professora Cloris, do Serviço de Orientação Educacional, e pediu que para que ela levasse Renato para sua sala, pois ele estava muito nervoso. Renato, então, respondeu: "Nervoso, não. A senhora me chamou de drogado". Aí, a vice-diretora tentou voltar atrás e disse: Eu? Mas todo mundo já tinha ouvido as acusações que ela havia feito a Rentato.
O incidente, continuam os estudantes, terminou com a suspensão do aluno. Renato assegura que lhe foi mostrado um papel determinando sua suspensão por dez dias. "Com isto, vou perder quatro provas na semana que vem: português, química e física, geografia e matemática". Em vista disto, os outros alunos passaram nas salas de aula para avisar o pessoal do que ocorrera e convocando todos os estudantes para uma assembléia geral após o recreio. A assembléia foi feita e determinou a paralisação das atividades da escola na segunda parte da manhã.
DIÁLOGO
Comentam os estudantes da escola Odyla Gay da Fonseca que os problemas com alunos na escola são freqüentes. Uma de suas reivindicações é conseguir conversar com a diretora, "o que sempre nos é impedido por seus assistentes". Por isto, eles pretendem se reunir no pátio do colégio na próxima terça-feira, até que a diretora os atenda.
Além do problema de ontem, eles asseguram que muitos estudantes não têm recebido seus boletins por não pagarem a contribuição do CPM (Círculo de Pais e Mestres): "No entanto, há quatro anos que ninguém sabe o que o CPM. Os pais não têm sido convocados para nenhuma reunião". Asseguram também os estudantes que um aluno, Hamilton, que cursava o 1° ano A do 2° grau em 1979, "não está mais estudando porque não tinha condições de pagar o carnê do CPM. Como ele não pagou não deixaram que fizesse a matrícula no início deste ano".
Antônio Mário Ferreira, ex-aluno do colégio, disse que "a repressão do Odyla é comum há muito tempo. Eu, por exemplo, fui demitido da diretoria do grêmio duas vezes. Do 2° para o 3° ano, para me punir, a direção me transferiu para o turno da noite sem que eu houvesse solicitado isto".
Antônio completou o 2° grau no Odyla em 79.
O tema de tensão na escola está preocupando, especialmente, quatro alunas. Maria Eclida Braga, Liana Loureiro, Mirella Glaliandi, do 2° ano A, e Maria Cláudia Tajes, do 3° ano A, já ouviram boatos de que foram entregues para a direção como responsáveis pelo movimento de ontem. Como as punições são comuns na escola, conforme opinião geral dos alunos, elas temem ser desligadas deste estabelecimento de ensino. "Isto seria muito prejudicial para nós, pois estamos fazendo profissionalizante em Turismo e será muito difícil encontrar o mesmo curso em outra escola pública". (Transcrição do texto conforme imagem acima. Fonte: página 27 de Zero Hora, 19 de abril de 1980. Autor não informado)