IMAGENS DO 1º MUTIRÃO (24/01/2026) EM CONSERVAÇÃO PREVENTIVA NO ECOMUSEU DE MARANGUAPE - PARTICIPANTES: MEMBROS DA COMUNIDADE DE CACHOEIRA INTEGRANTES DO COMITÊ AGRÍCOLA DE CACHOEIRA, CENTRO COMUNITÁRIO DE CACHOEIRA E FUNDAÇÃO TERRA.
Projeto de Conservação Preventiva do Ecomuseu de Marangaupe.
Autoria: Nádia Almeida
Museóloga e Pequisadora
TECNOLOGIAS SOCIAIS PARA O TRATAMENTO DO MADEIRAMENTO
(CONTRA CUPINS E OUTROS TIPOS DE INFESTAÇÕES BIOLÓGICAS)
Preservar o patrimônio cultural material em terrenos da museologia comunitária exige soluções que sejam eficientes, mas que também respeitem a saúde dos moradores, a integridade dos materiais e a realidade financeira da comunidade. Quando falamos de edificações históricas, o controle de pragas (como cupins e brocas) não pode ser apenas "veneno"; precisa ser gestão de preservação, para uma uma maior durabilidade dos resultos, conservação preventiva.
Edificações antigas contam histórias através de suas vigas, pilares e assoalhos. Para a museologia comunitária, cuidar desse patrimônio é um ato de resistência e afeto. No entanto, pragas xilófagas (que se alimentam de madeira) representam um risco constante à segurança estrutural e à memória local. Portanto, métodos e técnicas de baixo custo e baixo impacto ambiental para prevenir e tratar infestações, priorizando a saúde da comunidade e a conservação do imóvel, são conhecimentos indispensáveis e diretrizes que devem ser contempladas nos planos museológicos de ecomuseus, museus comunitários e iniciativas similares.
Assim, a Fundação TERRA/Ecomuseu de Maranguape produziu uma tecnologia social de excelentes resultados e com custos altemente acessíveis.
Antes de agir, é indispensável identificar qual a fonte do ataque a madeira:
Cupins de Madeira Seca: Deixam pequenos grânulos (semelhantes a areia ou sementes) acumulados abaixo dos furos.
Brocas de Madeira: Produzem um pó muito fino, parecido com talco, indicando que a larva está ativa no interior.
Cupins Subterrâneos: Criam túneis de terra nas paredes ou fundações. Estes exigem barreira física no solo.
Tecnologia Social (TS) para Conservação Preventiva, com base em Óleos Essenciais e Extratos Botânicos.
O Ecomuseu de Maranguape testou com sucesso a "TS D-Limoneno Caseiro para Conservação Preventiva de madeiras" no serviço de madeiramento do telhado da sua sede, o Casarão Histórico de Cachoeira. A seguir detalhamento da nova TS da Fundação TERRA:
Para ecomuseus, museus comunitários, iniciativas similares em edificaçãoes históricas, recomendamos soluções que evitam o uso de agrotóxicos pesados.
APRESENTAÇÃO DA TECNOLOGIA SOCIAL:
O óleo de linhaça possue propriedades repelentes naturais. É extraído da semente do linho (Linum usitatissimum) é um dos selantes naturais mais antigos e eficazes da história da marcenaria e da conservação de patrimônio. Na museologia comunitária, pode ser mais valorizado por ser uma alternativa não tóxica, renovável e de baixo custo em comparação aos vernizes sintéticos.
Propriedades do Óleo de Linhaça na Madeira
Diferente dos óleos minerais, o óleo de linhaça é um óleo secativo. Ele reage com o oxigênio do ar (oxidação) e passa por um processo de polimerização, transformando-se em uma resina sólida e elástica dentro das fibras da madeira. Isso cria uma barreira que repele a umidade, evitando o apodrecimento.
Ao contrário dos vernizes à base de poliuretano, que criam uma película plástica rígida, o óleo de linhaça permite que a madeira "respire". Em edificações históricas, isso é essencial: se a umidade interna da madeira ficar presa sob uma camada de plástico, ela acaba apodrecendo de dentro para fora.
O óleo de linhaça endurece a camada superficial da madeira e reduz drasticamente a absorção de umidade. Como muitos fungos e brocas dependem de madeira úmida ou macia para prosperar, o óleo torna o material um ambiente muito menos hospitaleiro para essas pragas.
Na conservação de patrimônio, a reversibilidade é um princípio ético. O óleo de linhaça penetra nas fibras sem descascar. Para renovar a proteção, basta aplicar uma nova demão, sem a necessidade de lixamentos agressivos que desgastam a madeira histórica.
MÉTODO E TÉCNICA DE PRODUÇÃO DA TS EM CONSERVAÇÃO PREVENTIVA PRODUZIDA PELA FUNDAÇÃO TERRA. MAIOR RENDIMENTO DO ÓLEO DE LINHAÇA.
O diferencial do método proposto na presente TS da Fundação TERRA ,está centrado no uso do D-Limoneno (um solvente extraído da casca de frutas cítricas) como substituto dos solventes derivados de petróleo (como a aguarrás ou o querosene). É uma técnica e uma estratégia altamente recomendável para as iniciativas museologicas de base comunitária. Ele alia eficiência técnica com segurança ocupacional e ambiental. Quando misturamos o D-Limoneno ao óleo de linhaça, criamos um "impregnante caseiro" de alta performance e alto rendimento.
O óleo de linhaça puro é muito denso e viscoso e o seu valor de mercado gira em média entre R$ 29,00 a R$ 39,00. Em madeiras antigas, que muitas vezes estão ressecadas ou com os poros obstruídos, o óleo demora a penetrar, ficando boa parte do produto muito na superfície.
Ação do D-Limoneno: Ele reduz a viscosidade do óleo, agindo como um "veículo". Isso permite que o óleo penetre profundamente nas fibras da madeira, protegendo o núcleo e não apenas a face externa.
Uma mistura de 1:1 (uma parte de óleo para uma de solvente) pode dobrar a área de cobertura do produto, ou seja, aumenta em dobro o seu rendimento.
Economia para a Comunidade: O D-Limoneno permite que uma lata de óleo de linhaça trate uma área muito maior, mantendo a eficácia da proteção, o que é fundamental em projetos com orçamento limitado.
Diferente da aguarrás, que é apenas um solvente, o D-Limoneno tem propriedades biológicas:
Toxicidade para Insetos: O limoneno é um inseticida natural que dissolve a camada cerosa do exoesqueleto de diversos insetos e ataca seu sistema respiratório. É particularmente eficaz contra larvas de brocas em estágios iniciais.
Limpeza Profunda: Ele ajuda a remover gorduras e ceras velhas da madeira antiga, preparando a superfície para receber o tratamento de forma mais uniforme.
Solventes comuns liberam Compostos Orgânicos Voláteis (VOCs) que podem causar tonturas e problemas respiratórios em espaços fechados de museus e casas históricas.
Aroma e Segurança: O D-Limoneno tem um aroma cítrico agradável e baixa toxicidade. É muito mais seguro para ser manuseado por voluntários da comunidade, desde que observadas as precauções básicas (como uso de luvas, pois ele é um desengordurante forte e pode ressecar a pele).
TS E ECONOMIA CRIATIVA: PRODUZINDO D-LIMONENO CASEIRO
Embora o D-Limoneno puro seja destilado industrialmente, em contextos comunitários de baixo custo, pode-se criar um solvente terpênico por infusão:
Coleta: Utilize cascas de laranja ou limão (apenas a parte colorida, evite a parte branca).
Infusão: Coloque as cascas em um pote de vidro e cubra com o próprio óleo de linhaça (ou álcool de cereais, se o objetivo for apenas o solvente).
Tempo: Deixe descansar por pelo menos 15 dias em local escuro, agitando ocasionalmente.
Uso: Coe e misture ao óleo de linhaça principal.
Observação: Para restauração profissional de patrimônio, o ideal é adquirir o D-Limoneno de grau técnico, que é transparente e possui concentração máxima do princípio ativo, garantindo que não fiquem resíduos de açúcares da fruta na madeira.
Primeira demão (Penetração): 50% Óleo de Linhaça / 50% D-Limoneno.
Opcional - Segunda demão (Acabamento): 70% Óleo de Linhaça / 30% D-Limoneno.
Em museus comunitários, muitas vezes as pessoas vivem e trabalham no mesmo espaço. Inseticidas convencionais liberam gases tóxicos (VOCs) por meses, podem manchar madeiras centenárias e contaminar o solo ao redor do patrimônio.
Importante: Nunca aplique óleo queimado em madeiras históricas. Além de ser altamente inflamável e tóxico, ele altera permanentemente a estética e a respirabilidade da peça.
IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional): Em seus manuais de conservação preventiva, o IPHAN frequentemente cita o uso de ceras naturais e óleos secativos para a manutenção de peças de madeira e mobiliário de igrejas e museus.
CPCHC (Center for Preservation of Cultural Heritage): Estudos sobre solventes e aglutinantes naturais indicam o óleo de linhaça como padrão para tratamentos que exigem baixa toxicidade em ambientes comunitários.
Hoadley, R. Bruce (Understanding Wood): A "bíblia" da tecnologia da madeira explica a química da polimerização dos óleos secativos e como eles interagem com a estrutura celular da madeira.
Casas de Patrimônio e Museologia Social: Diversas cartilhas de "Conservação Caseira" produzidas por museus comunitários (como os da rede do IBRAM) sugerem misturas de óleo de linhaça com cera de abelha como a forma mais segura de tratar acervos sem acesso a laboratórios químicos complexos.