Durante as décadas de 1980 e início dos anos 1990, a economia de Maria da Fé (MG) era fortemente baseada na produção de batata. Grande parte das famílias vivia da bataticultura, e homens, mulheres e filhos participavam do trabalho nas lavouras.
Com a queda da produção e da rentabilidade da batata na década de 1990, muitas famílias passaram por dificuldades financeiras. As mulheres, que em sua maioria eram esposas e filhas de bataticultores, buscaram alternativas para complementar a renda da casa. Foi nesse contexto de crise que surgiu uma oportunidade que mudaria a história do município.
Em 1998, o SEBRAE, em parceria com a Prefeitura de Maria da Fé, iniciou o Projeto de Desenvolvimento do Turismo Rural. O objetivo era valorizar os potenciais da cidade e criar atividades capazes de gerar emprego e renda, fortalecendo a identidade local. Uma das metas do projeto era justamente encontrar um produto que tivesse "a cara de Maria da Fé", algo que representasse sua cultura e pudesse ser oferecido aos visitantes.
Foi durante uma das reuniões desse projeto que o artista plástico Domingos Tótora apresentou uma proposta inovadora. Participavam desse encontro diversos artesãos do município, e Domingos sugeriu utilizar materiais abundantes na região — papelão reciclado e fibra de bananeira — para criar peças artesanais com identidade própria.
A proposta foi aceita e nasceram as primeiras oficinas, nas quais Domingos ensinou a produção da massa de papel machê e o aproveitamento da fibra da bananeira, desenvolvendo uma técnica que unia reciclagem, sustentabilidade e design. As primeiras peças eram moldadas utilizando discos de arado como formas, um detalhe que permanece como lembrança das origens rurais do projeto.
Outro elemento preservado até hoje são os sacos de batata, utilizados durante o processo produtivo. Mais do que um material de trabalho, eles representam uma memória viva da época em que a batata sustentava a economia local, simbolizando a transformação de um período de crise em uma nova oportunidade.
Em 1999, essa iniciativa deu origem oficialmente à Cooperativa Mariense de Artesanato – Gente de Fibra (COMARTE), criada paralelamente ao projeto de turismo rural. O grupo começou com Domingos Tótora e cinco mulheres da comunidade e, ao longo dos anos, ganhou autonomia, ampliou sua produção e passou a comercializar peças em todo o Brasil e também no exterior.
Mais do que produzir objetos decorativos, a cooperativa construiu um importante legado social. O trabalho valorizou a participação das famílias, aproximando gerações e fortalecendo vínculos. É comum encontrar mães e pais trabalhando juntos, assim como filhos que aprenderam o ofício com seus familiares. O conhecimento é transmitido entre gerações, tornando o artesanato um patrimônio cultural vivo de Maria da Fé.
Anos depois, outro importante capítulo da história do município foi escrito com a chegada da olivicultura. Em 2008, Maria da Fé realizou a primeira extração de azeite extravirgem do Brasil, marco impulsionado por famílias descendentes de imigrantes italianos que acreditaram no potencial das oliveiras cultivadas na região. Segundo a memória local, uma dessas famílias doou equipamentos importantes para o início da produção, após buscar municípios brasileiros onde já existiam oliveiras cultivadas. Hoje, o azeite tornou-se outro símbolo da cidade, complementando — e não substituindo — a identidade construída anteriormente pelo artesanato.
Assim, a história da Gente de Fibra mostra como uma comunidade conseguiu transformar uma crise econômica em oportunidade. A partir do reaproveitamento de materiais simples, da criatividade de seus artesãos e da união das famílias, Maria da Fé construiu um artesanato reconhecido nacional e internacionalmente, tornando-o um dos principais símbolos de sua identidade cultural.
Nosso Subtema
Como equipe, buscamos um subtema que valorizasse os artesãos e o artesanato da nossa região. O que mais nos chamou a atenção na Cooperativa foi a força do trabalho coletivo: eles nunca trabalham sozinhos, estão sempre unidos se ajudando — exatamente como queríamos fazer no nosso projeto.
Desde o início, organizamo-nos em duplas, trios e pequenos grupos. Na cooperativa, confeccionamos pratos utilizando papel machê e fibra de bananeira, praticamos a técnica da papietagem e, em breve, criaremos esculturas em papel machê.
Compreendemos que trabalhar em equipe traz desafios, mas é através da união que vamos concluir e realizar uma Feira do Conhecimento inesquecível.
Rafaela Medina Lamoglia