Eu fiz um poema
Nascido em Alegrete (RS), no ano de 1906, Mário Quintana veio para Porto Alegre, aos 13 anos de idade para estudar no Colégio Militar, em regime de internato. Em 1925, então com 19 anos, Quintana retorna a Alegrete, onde permanece curto período após a morte do pai ocorrida em meados de 1927. Porto Alegre passa a ser a cidade do poeta, que vive só, residindo em pensões e quartos de hotéis modestos. De 1968 a 1980, Mário mora no Hotel Majestic, na Rua Dos Andradas, tombado em 1982. No ano seguinte, o hotel torna-se Casa de Cultura Mário Quintana. Com o tombamento, o poeta percebe-se sem casa, ao que diz: “Não tem importância, moro dentro de mim mesmo...”.
Mário Quintana morre aos 88 anos, em 4 de maio de 1994. Durante sua trajetória, publicou inúmeras obras poéticas, tendo em vista leitores de todas as idades. Assim, alerta Érico Verissimo, em introdução do livro infantojuvenil Pé de feijão, “Descobri outro dia que o Quintana é na verdade um anjo disfarçado de homem. Às vezes, quando ele se descuida ao vestir o casaco, suas asas ficam de fora.” Além de poeta, Mario traduziu obras de autores que compõem o cânone da literatura ocidental, como: Giovanni Papini, Marcel Proust, Guy de Maupassant, Virgínia Woolf, Aldous Huxley, Somerset Maughat e Joseph Conrad.
Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam voo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto
Alimentam-se um instante em cada par de mãos
e partem.
E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhado espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti...
Se o poeta falar num gato, numa flor
num vento que anda por descampados e desvios
e nunca chegou à cidade...
se falar numa esquina mal iluminada...
numa antiga sacada... num jogo de dominó...
se falar naqueles obedientes soldadinhos de chumbo que [morriam de verdade...
se falar numa mão decepada no meio de uma escada
de caracol...
se não falar em nada
e disser simplesmente tralalá... Que importa?
Todos os poemas são de amor!
Escrever... Mas por quê? Por vaidade, está visto...
Pura vaidade, escrever!
Pegar da pena... Olhai que graça terá isto,
Se já se sabe tudo o que se vai dizer!...
Escrevo. E pronto.
Escrevo porque preciso
preciso porque estou tonto.
Ninguém tem nada com isso.
Escrevo porque amanhece.
E as estrelas lá no céu
lembram letras no papel,
quando o poema me anoitece.
A aranha tece teias.
O peixe beija e morde o que vê.
Eu escrevo apenas.
Tem que ter por quê?
A rua dos cataventos
Canções
Sapato florido
O aprendiz de feiticeiro
Espelho mágico
Caderno H
Apontamentos de história sobrenatural
A vaca e o hipogrifo
Esconderijos do tempo
Baú de espanto
Da preguiça como método de trabalho
Preparativos de viagem
Porta giratória
A cor do invisível
Velório sem defunto
Água