PREFÁCIO 


Em um mundo cada vez mais interconectado, onde as identidades e as lutas sociais se entrelaçam de maneira complexa e multifacetada, o presente documento "Neoliberalismo e Encantamento Amarelo: um Manifesto Antirracista" emerge como uma crítica necessária e urgente às dinâmicas internas do movimento amarelo no Brasil.

Idealizado por Andreone Teles Medrado, uma pessoa trans negra, e por Juily Manghirmalani, uma mulher marrom de ascendência indiana, este manifesto não apenas desafia certas narrativas estabelecidas, mas também tensiona e questiona a autenticidade e a eficácia de abordagens antirracistas que se tornaram hegemônicas no cenário atual. Esse Manifesto também conta com a participação de pessoas importantes tanto da atual mobilização amarela brasileira como de seus primórdios, datada da década de 2010, bem como de pessoas que possuem histórico de atuação na pesquisa acadêmica e pessoas que são e/ou foram participantes atives de coletivos asiáticos. Foi a partir de muitas conversas, debates, inúmeros apontamentos e questionamentos críticos entre as pessoas envolvidas nessa construção que este Manifesto pode ser gerado. Assim, na construção e revisão deste Manifesto estão os olhares, as críticas e o apoio de: Alex Tso, Ing Lee, Ivo Lopes Yonamine, Kemi Shimabuko, Lais Miwa Higa, Laura Satoe Ueno, Liana Nakamura, Tami Tahira e Rodrigo Ken Kawassaki.

A partir de uma perspectiva anticolonial, o presente texto aborda de maneira incisiva as discrepâncias observadas dentro da luta antirracista, revelando como a branquitude tem cooptado e distorcido os esforços de certos grupos racializados, especialmente os descendentes de japoneses em uma possível via de mão dupla. Este fenômeno não é novo, mas sua análise detalhada e crítica oferece uma nova perspectiva sobre a necessidade de um movimento verdadeiramente inclusivo e interseccional. Para isso, diferentes áreas do conhecimento são mobilizadas, como Antropologia, Psicologia, Educação, Artes, Letras e Ciências Sociais (entre outras), com o objetivo de tornar esse documento amplo em suas críticas. Assim, o presente manifesto expõe as contradições internas e as limitações das abordagens que muitas vezes se apresentam como progressistas, mas que, na prática, reproduzem - ou, no mínimo, reforçam - hierarquias e exclusões típicas de práticas das políticas da branquitude.

Uma das questões centrais levantadas por esse conjunto de autorias é a complexidade da identidade racial em contraste com a racialização política. O texto desmonta a corrente noção de que a identidade racial é sinônimo de conscientização política, argumentando que a luta deve ser coletiva, abrangendo, sempre que possível, o maior número de experiências e vivências que compõem a diversidade do ser uma pessoa asiática no Brasil. E não se pode questionar a racialização no Brasil sem entender a história do país, e sem compreender as raízes que constroem a racialização de países que ou invadiram esse território ou imigraram para cá. A raça é um fenômeno contextual e multicultural. Este ponto é crucial, pois desafia a tendência de alguns grupos de se apropriarem das lutas e experiências de outros para validar suas próprias agendas, sem um compromisso real com a inclusão e a solidariedade.

A crítica ao que chamamos de "encantamento amarelo" no contexto do neoliberalismo é outro aspecto fundamental deste Manifesto. Nesse sentido, o texto explora como a era da informação e da individualização tecnológica - sobretudo considerando o recente período pandêmico que enfrentamos desde 2020 até meados de 2023[1] - têm moldado a percepção e a mobilização dos movimentos asiáticos no Brasil, muitas vezes levando a uma separatividade racial. Este fenômeno é especialmente preocupante em tempos de crise, como a pandemia da COVID-19, que exacerbou estigmas e discriminações contra populações asiáticas, criando divisões internas, perpetuando estereótipos e florescendo - ainda que de modo não assumido e explícito - táticas e dinâmicas imperialistas e coloniais.

A proposição feita de que o Japão tem práticas coloniais históricas e que isso raramente é colocado na pauta dos questionamentos de muitos grupos que falam de racialização é elencada como uma das dinâmicas que conduzem os debates sobre identidade racial, mais do que sobre racialização e consciência política. É nessa linha de questionamento que este Manifesto também aborda a problemática da centralização das pautas e debates nas figuras nipodescendentes, questionando se isso não seria mais uma manobra discursiva e subjetiva para se distanciar dos estigmas associados, por exemplo, à identidade chinesa. A obra sugere que a homogeneização das pautas asiático-brasileiras em amarelas, ainda, em apenas demandas de uma hegemonia de descendentes de japoneses, pode estar enraizada em uma lógica de exclusivismo e segregação, que, embora disfarçada de luta antirracista, perpetua formas sutis de imperialismo e colonialismo dentro do próprio movimento amarelo.

A obra não se esquiva de temas espinhosos e complexos, como a apropriação histórica e cultural de traumas e experiências de outras etnias dentro do discurso amarelo. A utilização de terminologias e conceitos históricos, como "coolies", sem uma integração real e minimamente honesta das identidades sino-brasileiras ao debate racial amarelo, é apresentada como uma forma de tokenismo, que apenas superficialmente aborda questões profundas de injustiça e opressão. O mesmo se observa para as menções a grupos e autorias negras e indígenas, mas que não passa do limiar de uma “carteirinha de desconstrução”, como se fosse necessário apenas citar para validar o discurso, mas que não se observa uma construção política, tampouco teórica, que enfrente a branquitude como a produtora e mantenedora da hierarquia do discurso racial.

Além disso, o texto questiona a formação de grupos de acolhimento que, sob a aparência de espaços seguros e inclusivos, acabam reforçando exclusões e homogeneizações que contradizem os princípios de um movimento verdadeiramente antirracista e plural. Novamente, a crítica ao uso oportunista de experiências históricas de populações negras e indígenas dentro das discussões raciais amarelas, sem uma inclusão efetiva dessas vozes, destaca a necessidade de uma reflexão mais profunda e responsável sobre a construção de solidariedades interétnicas. A isso se soma a escassez do debate de pessoas miscigenadas, oriundas de relações interraciais no Brasil, que muitas vezes não são consideradas em suas identidades e complexidades raciais.

Em última análise, "Neoliberalismo e Encantamento Amarelo: um Manifesto Antirracista" é, mais que um convite à reflexão, uma convocatória à ação. É um chamado para que os movimentos antirracistas reavaliem suas práticas, reconheçam suas limitações e trabalhem de maneira mais consciente e inclusiva. É preciso se apropriar honestamente da História, esta que está sempre em disputa. É necessária uma radicalidade no fazer antirracista; não se pode ser antirracista apenas quando isso é leve, prazeroso e “descolado”. A luta antirracista exige movimentação, exige desafiar a fluidez social inquestionável de certos grupos que, embora sofram o racismo brasileiro, ainda não se veem ameaçados em sua transitoriedade social. Portanto, esta obra desafia us leitories a reconsiderarem o que significa ser parte de uma luta coletiva, a reconhecerem as intersecções de opressão e a lutarem por um futuro onde todas as identidades e experiências sejam verdadeiramente valorizadas e incluídas. Um povo que não [re]conhece sua história, continua oprimi[n]do.

 

 

Andreone T. Medrado e Juily Manghirmalani,

13 de agosto de 2024.


Notas:

[1] “O fim da pandemia?”; Disponível em: https://www.ufmg.br/espacodoconhecimento/o-fim-da-pandemia/