4. “E agora?” - pensando perspectivas coletivas
Haja vista as críticas que levantamos até aqui, dizemos, acima de tudo, que este Manifesto não se pretende delimitador de nenhuma perspectiva crítica. Ou seja, o corpo teórico aqui produzido e as críticas e reflexões trazidas não pretendem construir um “jeito certo” de produzir ativismo, militãncia ou pensamento crítico antirracista. Em vez disso, o intuito é trazer o apontamento das incoerências internas do movimento asiático (sobretudo o protagonizado por nipodescendentes), expor com críticas e argumentos os temas silenciados historicamente, e fazer observações à forma como debates raciais são feitos no embalo do neoliberalismo, sendo assimilados/incorporados às práticas e discursos de branquitude. E isso fizemos.
Esse é portanto, um documento para repensarmos a discussão racial no Brasil em tempos contemporâneos, para além de “Negros” e “Brancos”. E, aqui, “para além” tem o sentido de ampliação da discussão. Um dos grandes mecanismos racistas à brasileira está posto: quanto menos se falar da pluralidade de atuações do racismo, menos ele tende a ser enfraquecido - portanto, se fortalece. É muito importante e necessário para o racismo civilizatório do ainda projeto de modernidade no Brasil que o par branco/preto, e somente ele, seja o alvo de discussão racial; assim, quem não está inseride nesse radar do racismo será cooptado, de uma forma ou de outra, a se identificar com a branquitude e trabalhar de graça pra ela. A supremacia branca no Brasil é tal qual a histórica do Brasil: o racismo é uma colônia de exploração que visa produzir recursos para a matriz colonial (a branquitude), e todos os corpos que puderem trabalhar nessa expedição será colocado em movimento. Apagar as identidades é o primeiro passo para que não se percebam racializadas e, com isso, não reivindiquem agentes de mudança para o fim do racismo.
Para finalizar esse documento mas para mantermos o debate sempre aberto, em vez de gerar um distanciamento ou uma intimidação, temos a expectativa de que esse Manifesto seja mais um fator de questionamentos e de efeito produtivo na luta antirracista, queremos apresentar pontos que podem ser pesandos e expandidos. Deixaremos, então, em tópicos, algumas possibilidades a serem ampliadas, cada uma dentro de suas especificidades e contextos podem ser pensadas por diferentes grupos. Nenhum aspecto aqui busca definir ou determinar ações, muito pelo contrário, queremos que sejam pontos de partida para uma virada antirracista, que mire a branquitude como o ponto que precisa ser questionado, efrentado e derrubado. Portanto, para promover mudanças pragmáticas e políticas que, se desejado, respondam às críticas levantadas neste Manifesto é essencial adotar uma abordagem inclusiva e interseccional, que reconheça e valorize a diversidade dentro dos movimentos antirracistas. Separamos algumas:
I. Inclusão Real e Constante Representação Diversa
Diversificação das Lideranças: Assegurar que as lideranças dos movimentos amarelos incluam representantes de todas as etnias e origens asiáticas, não apenas descendentes de japoneses. Isso pode ser feito através de políticas afirmativas dentro das organizações e coletivos.
Amplificação de Vozes Marginalizadas: Dar espaço e voz a indivíduos de outras etnias asiáticas, como chineses, coreanos, filipinos, vietnamitas, indianos, palestinos, sírio-libaneses, entre outros, em debates, eventos e publicações. Promover o envolvimento de pessoas asiático-brasileiras na defesa de direitos de populações negra e indígena em contextos institucionais e não institucionais diversos, tais como processos migratórios, políticas públicas no campo da infância, juventude, educação, gênero, diversidade sexual, ações afirmativas, entre outros (em contraponto a iniciativas apenas assistenciais e de doação de fundos financeiros pontuais).
II. Educação e Conscientização
História e Contexto: Promover a educação sobre a história das diferentes comunidades asiáticas, destacando suas contribuições e desafios, bem como a complexidade da identidade asiática em território brasileiro. É urgente que o letramento racial caminhe com o conhecimento da História e das transformações sociais. Ler autorias do “sul global”, não somente os decoloniais mas os pós-coloniais também; incentivar discussões a partir de pessoas negras e indígenas, de pessoas trans e de mulheres Cis, é fundamental para que o pensamento hegemônico produzido pea branquitude seja questionado e combatido. Conhecer a história e tomar para si os direitos roubados.
Formação Anticolonial: Implementar programas de formação anticolonial que explorem as raízes do imperialismo japonês e suas repercussões nas dinâmicas atuais do movimento amarelo. Promover eventos acadêmicos e também culturais não acadêmicos em centros populares, incitar a curiosidade, abordando histórias e culturas de grupos não hegemônicos para o público geral, em que as diferenças e convergências sejam politizadas, rompendo com o discurso apaziguante da diversidade harmônica.
III. Solidariedade Interseccional
Colaboração entre Movimentos: Estabelecer alianças e parcerias com outros movimentos antirracistas, como os movimentos negros, indígenas, migratórios e LGBTQIAP+, para promover uma luta conjunta contra todas as formas de opressão.
Eventos Inclusivos: Organizar eventos e encontros que incentivem a participação de pessoas de diversas etnias e origens, garantindo que suas experiências e perspectivas sejam ouvidas e respeitadas.
IV. Práticas de Acolhimento
Espaços Seguros: Criar e manter espaços seguros que realmente acolham pessoas de todas as etnias, oferecendo suporte psicológico e emocional adequado.
Políticas de Inclusão: Estabelecer políticas claras de inclusão e acolhimento dentro dos grupos, com mecanismos de feedback contínuo para garantir que todas as vozes sejam ouvidas e respeitadas.
Relações interraciais: estimular e fomentar a criação de espaços que possibilitem reflexões acolhedoras e críticas acerca das relações interraciais, interétnicas e da miscigenação nas comunidades asiático-brasileiras, considerando a pluralidade dessas relações, que não se restringem a pessoas nipodescendentes e brancas no contexto sudestino, bem como as dinâmicas de poder que incidem sobre as subjetividades.
V. Crítica e Autocrítica
Reflexão Contínua: Incentivar a prática contínua de crítica e autocrítica dentro dos movimentos, para identificar e corrigir práticas que possam ser exclusivistas ou que perpetuem hierarquias coloniais.
VI. Desconstrução de Estereótipos
Combate ao Orientalismo: Desconstruir estereótipos orientalistas e exotizantes, promovendo uma compreensão mais rica e complexa das culturas e identidades asiáticas, considerando o local da diáspora na compreensão cultural.
Narrativas Inclusivas: Produzir e disseminar narrativas que destacam a diversidade e a multiplicidade das experiências asiáticas, evitando generalizações e simplificações.
VII. Ação Política
Políticas Públicas: Engajar-se em mobilizações, ativismos e defesas de direitos humanos para influenciar políticas públicas que promovam a igualdade racial e a inclusão de todas as comunidades asiáticas no Brasil. É somente através das pesquisas e dados que ações estatais aprimoram dados como o Census.
Representação Política: Incentivar a participação política de indivíduos de diferentes etnias asiáticas, apoiando candidaturas e iniciativas que visem a representatividade.
Portanto, essas sugestões, que não se esgotam aqui, mas se estender a partir do que a leitura delas proporcionar, visam promover uma mudança significativa e duradoura, criando um movimento asiático antirracista mais inclusivo, justo e interseccional, capaz de enfrentar as complexidades da identidade racial e da luta antirracista no Brasil.