Gaivota da Liberdade
Sobrevoaste,
noutros tempos,
gaivota do céu do meu rio,
o Rio Tejo sem brilho,
almejando afogar as almas
daqueles cujos gritos não se ouviam,
cujas vozes tremiam,
cujas paredes nuas abriram fissuras
e, na escuridão,
estremeciam.
O povo,
aprisionado a um regime ditatorial,
não tinha liberdade de expressão,
não tinha liberdade de opinião.
E cada ser sentia que vivia numa prisão,
zelando pelo silêncio,
recendo a censura,
e a palavra ‘‘liberdade’’
bombeava avidamente
cada batimento do seu coração.
Passaram-se cinquenta anos,
cinquenta cravos vermelhos.
Poderiam ser cravos brancos,
colocados não só na ponta das espingardas,
mas em todos os recantos.
A Liberdade voa em pensamento,
porém não a leva o próprio vento,
pois ser livre
é como a gaivota que sobrevoa o céu,
sente a sua liberdade num espaço que não só lhe pertence.
A liberdade a que cada um pertence
é de um só céu.
O céu é de todos nós:
o meu e o teu.
Liberdade: conceito que o povo abraçou e não temeu.
Cristina Pinto [poetisa lixense convidada]