15 a 18 de fevereiro de 2022 - 100% online
A chegada da Psicologia no nosso território brasileiro, em conjunto com as ciências que pretendiam estudar elementos do campo psi, foi marcada por grandes contradições, sendo que muitas destas ainda se fazem presente na atualidade. Atravessado pelo racismo científico, pelo higienismo e pela dominação colonial, o nascimento da psicologia brasileira nos faz questionar que tipo de ciência é essa que hoje se proclama crítica. Uma ciência que não entende e que não conversa com o seu povo e com a sua história pode ser chamada de crítica? Acreditamos que, hoje, é necessário um trabalho árduo a fim de elaborarmos estes traumas que se repetem no nosso cotidiano e que sustentam a manutenção de opressões antigas. Um trabalho que precisa ser realizado em conjunto.
No ano de 2020 e no presente ano vimos a resposta em frente à repetição do genocídio contra os povos originários e contra os negros com a emergência de movimentos como o Black Lives Matter e com os protestos indígenas frente as medidas que dificultam a demarcação de terras. O que a psicologia fez em relação a isso? Estamos atravessando uma pandemia global cujas consequências são incalculáveis e enfrentamos um negacionismo científico fruto da falta de diálogo entre a academia e o nosso povo. Como a psicologia deve agir em frente a isso, sendo que a sua prática, no Brasil, é historicamente marcada pelo elitismo? O apagamento de estudiosos e trabalhos que criticaram as práticas dominantes, como os de Neusa Santos Souza, Virgínia Bicudo, Lélia Gonzalez, Abdias Nascimento ainda permanecem distantes da academia e, principalmente, da formação de psicólogos. O que a psicologia deve fazer diante disso? A psicologia está em silêncio há muito tempo.
A crise que vivemos hoje não é nova. Em vista da falta de diálogo entre a psicologia e o “povo brasileiro”, seu locus como ciência e como prática que promove o bem-estar é ameaçado e muitas vezes subestimado ante a tendências do “improvement individual” como coach e algumas terapias alternativas de cunho pseudocientífico. Dessa maneira, acreditamos que o atual negacionismo é uma parte dessa crise em que a Psicologia se situa desde a sua chegada no território brasileiro. Por isso, acreditamos ser necessário pensarmos em uma Psicologia que se debruça com os principais problemas da nossa sociedade, pensarmos naquelas pessoas que não são contempladas pela psicologia, “psicologia para que?/ para quem?”.
Em Pele Negra, máscaras brancas, obra publicada em 1952, Frantz Fanon fala sobre como a visão que a cultura produz acerca de si não é somente um espelho, não reflete somente aquilo que ela é. É um espelho retificador, capaz de produzir mudanças, de “corrigir os erros culturais”. Precisamos colocar a psicologia em frente a este espelho e fazê-la questionar o seu silêncio, para alcançarmos realmente uma prática que garante a autonomia. Desta maneira, anunciamos o XVI Congresso de Psicologia da Universidade Federal de Goiás com o tema "O silêncio em frente ao espelho: por uma psicologia para além da omissão", tendo em vista a atual conjuntura de crise que enfrentamos e toda a responsabilidade de luta que assumimos como psicólogos, psicólogas e estudantes de Psicologia.