"Acredito em uma pedagogia mais humana, construída com presença, afeto e intencionalidade."
Sou professora há 14 anos, com experiência na Educação Infantil e nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental. Formada em Pedagogia, pós-graduada em Neurociências, Educação e Desenvolvimento Infantil e MBA em Transformação Pedagógica e Gestão Educacional.
Minha prática pedagógica nasce da escuta sensível da infância, das vivências do cotidiano e do olhar atento para cada criança em sua singularidade. Como pesquisadora e compartilhadora de experiências, busco desenvolver propostas fundamentadas, significativas e alinhadas à BNCC, valorizando aprendizagens construídas a partir das experiências reais vividas pelas crianças.
Acredito que, especialmente na Educação Infantil e nos Anos Iniciais, o vínculo é essencial para que a criança se sinta acolhida, segura, respeitada e reconhecida em sua individualidade. É a partir desse cuidado, da confiança e das relações construídas no cotidiano que a criança desenvolve autonomia, pertencimento e segurança emocional para aprender.
Nos Anos Iniciais, compreendo esse processo como um dos pilares da alfabetização, pois aprender também envolve sentir-se capaz, confiante e emocionalmente acolhido.
PEDAGOGIA DA PRESENÇA: QUANDO O OLHAR ACOLHE, A APRENDIZAGEM FLORESCE
Por Francieli Barbosa Velozo
18 de junho de 2026.
Sempre que penso na importância da acolhida, me faço uma pergunta: nós, adultos, conseguimos deixar nossos problemas do lado de fora quando chegamos ao trabalho?
Muitas vezes não. Mas aprendemos a disfarçar. Seguimos nossa rotina, cumprimos nossas tarefas e, por fora, parece que está tudo bem.
Com as crianças é diferente.
Elas chegam à escola carregando tudo o que viveram antes de entrar pelo portão. Trazem alegrias, medos, inseguranças, saudades, expectativas e até situações que nós nem imaginamos. Em meio a uma rotina tão corrida, com tantos compromissos e atividades para realizar, às vezes corremos o risco de olhar apenas para o planejamento e esquecer de olhar para a criança.
Por isso acredito tanto na acolhida.
Para mim, ela não é apenas um momento da rotina. É o momento em que a criança percebe que foi vista.
Quando olho para uma criança na chegada, não estou apenas dando oi. Estou dizendo: "Eu vi você. Você é importante. Estou feliz porque você chegou."
Cada criança é única. Algumas chegam falando sem parar. Outras entram em silêncio. Algumas procuram um abraço. Outras precisam primeiro observar o ambiente para depois se aproximar. E tudo bem. Nem todas demonstram afeto da mesma forma e nem no mesmo tempo.
Neste ano, com minha turma de Infantil 5, resolvi criar uma dinâmica simples. Todos os dias, as crianças escolhem como querem ser acolhidas: com abraço, beijo, aperto de mão ou batida de mão.
No começo do ano foi muito interessante observar as escolhas. Algumas queriam apenas um aperto de mão. Outras não escolhiam nenhuma forma de contato. Com o passar dos dias, à medida que os vínculos foram sendo construídos, as escolhas começaram a mudar.
O que antes era apenas um aperto de mão se transformou em abraço. Depois veio o beijo. Algumas passaram a escolher diferentes formas de cumprimento.
Não porque alguém obrigou.
Mas porque se sentiram seguras.
E talvez essa seja uma das maiores lições que as crianças nos ensinam: ninguém se abre onde não se sente acolhido.
Todos os dias, antes mesmo de iniciarmos a rotina, coloco uma música de fundo e faço questão de acolher cada criança individualmente. É um momento rápido, mas extremamente valioso. Muitas vezes consigo perceber no olhar aquilo que a criança ainda não consegue colocar em palavras.
E elas também dão importância a esse momento.
"Profe, cadê a acolhida?"
Isso me mostra que elas entendem que aquele instante pertence a elas.
Depois nos cumprimentamos, dançamos, conversamos e iniciamos nosso dia.
A acolhida possui uma intencionalidade pedagógica muito clara. Não se trata apenas de um gesto de carinho ou de um momento agradável da rotina. Quando acolhemos, estamos favorecendo a construção da identidade, da autonomia, da confiança, da convivência e das competências socioemocionais das crianças.
A própria BNCC nos lembra que as interações e as brincadeiras são os eixos estruturantes da Educação Infantil. Ao acolher, promovemos interações significativas, fortalecemos vínculos e criamos um ambiente seguro para que a criança possa se expressar, comunicar sentimentos, construir relações e participar ativamente da vida escolar.
Afinal, trabalhamos com vidas. Com pessoas em processo de formação. Com crianças que estão aprendendo a compreender suas emoções e a se relacionar consigo mesmas e com os outros.
Aprendemos melhor quando nos sentimos seguros.
Crescemos quando nos sentimos pertencentes.
E a aprendizagem acontece com mais significado quando existe vínculo.
Por isso acredito que a acolhida seja uma das partes mais importantes do dia. Porque antes de ensinar conteúdo, estamos ensinando uma criança a sentir que aquele espaço também é seu.
A acolhida pode acontecer de diferentes formas, desde que preserve aquilo que é mais importante: o olhar individual para cada criança.
Algumas possibilidades são:
Escolha da forma de cumprimento de acordo com o cartaz, exposto na sala (abraço, beijo, aperto de mão ou batida de mão);
Cartaz construído pela turma indicando as diferentes formas de acolhimento;
Cartões coloridos representando cada cumprimento, permitindo que a criança faça sua escolha;
Fantoches que realizam a acolhida de forma lúdica;
Músicas de boas-vindas para iniciar o dia;
Danças e movimentos corporais para iniciar a rotina.
Independentemente da estratégia utilizada, o mais importante é que a criança se sinta vista, respeitada e pertencente ao grupo.
E deixo uma reflexão para nós, educadores:
Quando a primeira atividade do dia termina, sabemos exatamenteas as crianças que realizaram com facilidade ou dificuldade. Mas será que sabemos como cada uma delas chegou à escola?
Talvez a qualidade da nossa acolhida revele muito mais sobre a nossa prática pedagógica do que imaginamos.