Josué e a queda das muralhas de Jericó
Obediência, Leis Naturais e Ação Espiritual na História Humana
O estudo da queda das muralhas de Jericó, narrada em Josué capítulo 6, apresenta um dos episódios mais singulares do Antigo Testamento. À luz do Espiritismo, a passagem não é analisada como um acontecimento sobrenatural ou arbitrário, mas como um fato histórico cujo mecanismo pode ser compreendido à luz das leis naturais que regem o mundo material e espiritual, assim como das leis morais de causa e efeito que orientam a evolução humana.
O relato bíblico demonstra a disciplina e a obediência do povo de Israel, aspectos fundamentais para que a ação espiritual pudesse operar efeitos concretos sobre a matéria. Além disso, a tomada de Jericó insere-se no contexto das promessas divinas feitas a Abraão, relativas à posse da Terra Prometida, evidenciando que o cumprimento do plano divino combina providência, responsabilidade humana e coordenação moral coletiva.
Este estudo examina, primeiro, o relato bíblico em sua sequência literal, preservando o rigor histórico. Em seguida, apresenta a leitura espírita baseada nos princípios da Doutrina Espírita abrangendo desde a ação dos fluidos sobre a matéria até a cooperação humana e os efeitos morais da obediência, sem perder a distinção entre história e interpretação doutrinária racional.
Jericó era uma cidade fortificada situada na entrada da região de Canaã. Seus portões permaneciam rigorosamente fechados, impedindo qualquer entrada ou saída, por temor da aproximação dos israelitas após a travessia do Jordão.
Josué, líder do povo de Israel após a morte de Moisés, recebeu instruções diretas do Senhor sobre como proceder contra a cidade. Foi-lhe dito que Jericó, seu rei e seus guerreiros já estavam entregues em suas mãos.
As orientações foram precisas: durante seis dias, todos os homens de guerra deveriam rodear a cidade uma vez por dia. À frente do povo, sete sacerdotes carregariam sete cornetas de chifre de carneiro, caminhando diante da Arca da Aliança do Senhor. No sétimo dia, o povo deveria rodear a cidade sete vezes, enquanto os sacerdotes tocariam as cornetas.
Ao final da sétima volta, quando fosse dado um toque prolongado das cornetas, todo o povo deveria gritar em alta voz. Então, a muralha da cidade cairia, permitindo que cada homem avançasse diretamente para o interior da cidade.
Josué transmitiu fielmente as instruções ao povo e aos sacerdotes. Durante os dias do cerco, o povo marchou em silêncio, conforme ordenado, enquanto as cornetas eram tocadas continuamente. Os soldados armados iam à frente, e a retaguarda seguia atrás da Arca do Senhor.
No sétimo dia, ao romper da manhã, os israelitas rodearam a cidade sete vezes. Na sétima volta, ao som das cornetas, Josué ordenou que o povo gritasse, anunciando que o Senhor havia entregado a cidade em suas mãos.
As muralhas desabaram, e o povo entrou na cidade, tomando-a por completo. Jericó foi consagrada à destruição. Todos os seres vivos foram mortos, e a cidade foi incendiada. Apenas Raabe, que havia acolhido os espiões israelitas, e sua família foram poupados, conforme a promessa feita anteriormente.
Os objetos de ouro, prata, bronze e ferro foram separados para o tesouro da casa do Senhor. Josué pronunciou ainda um juramento, declarando maldito aquele que reconstruísse Jericó. Após esses acontecimentos, a fama de Josué espalhou-se por toda a região.
Josué era filho de Num, da tribo de Efraim. Segundo o relato bíblico, atuou como auxiliar direto de Moisés durante o período do deserto e foi designado como seu sucessor para conduzir o povo de Israel após sua morte. Sua função principal era liderar a entrada e a ocupação do território de Canaã.
Jericó era uma cidade fortificada localizada próxima ao vale do Jordão, com sistemas defensivos robustos e controle das rotas de acesso à região central de Canaã.
A importância estratégica da cidade estava em sua posição geográfica. O domínio de Jericó permitia o avanço para o interior do território cananeu e o estabelecimento inicial da ocupação israelita.
A Arca da Aliança era o objeto sagrado que simbolizava, no relato bíblico, a presença de Deus junto ao povo de Israel. Conforme a tradição, nela estavam guardados elementos associados à Lei recebida por Moisés, e sua presença acompanhava momentos decisivos da história israelita.
O conflito envolvia os israelitas, recém-chegados à região após a travessia do Jordão, e os habitantes cananeus de Jericó, que mantinham a cidade fechada por temor do avanço israelita.
Segundo o próprio texto bíblico, a intenção de Deus era entregar a cidade aos israelitas como parte do cumprimento das promessas feitas anteriormente aos patriarcas. A tomada de Jericó marca o início do processo de ocupação territorial em Canaã.
Após a conquista, Jericó não foi imediatamente habitada pelos israelitas, permanecendo destruída conforme o juramento pronunciado por Josué. O texto bíblico indica que sua reconstrução só ocorreu séculos mais tarde.
À luz do Espiritismo, o relato da queda das muralhas de Jericó deve ser analisado sem a noção de milagre como suspensão das leis naturais. Allan Kardec estabelece que todo fenômeno, por extraordinário que pareça, decorre da ação de leis divinas ainda não plenamente conhecidas pelo ser humano.
1. Inexistência de milagre como suspensão da lei natural
O Espiritismo não admite o sobrenatural. Kardec ensina que, se um fato ocorreu, ele se deu conforme uma lei, ainda que desconhecida à época:
“O Espiritismo explica a possibilidade de certos fenômenos que, embora pareçam milagrosos, nada têm de sobrenaturais.” (A Gênese, cap. XIII, item 1). Reforça-se ainda que Deus não derroga Suas próprias leis para produzir efeitos especiais (O Livro dos Espíritos, q. 530). Assim, a queda das muralhas não representa uma exceção às leis divinas, mas um fenômeno cujas causas não foram compreendidas pelos observadores antigos.
2. Ação dos Espíritos sobre a matéria
Allan Kardec demonstra que os Espíritos podem atuar sobre a matéria por meio da combinação do fluido espiritual com o fluido vital dos encarnados, produzindo efeitos físicos (O Livro dos Médiuns, cap. V, item 74, subitens 10 e 11). Esses princípios explicam como objetos podem ser deslocados, rompidos ou modificados sem contato físico humano direto, sem que isso implique violação das leis naturais.
3. Ação dos fluidos, disciplina e vontade coletiva
Kardec ensina que o pensamento e a vontade exercem ação direta sobre os fluidos, influenciando seus efeitos sobre a matéria (A Gênese, cap. XIV, itens 14 e 20). No cerco de Jericó, a disciplina imposta ao povo — silêncio, marcha ordenada e repetição do ritual — favoreceu a concentração mental e moral coletiva, condição necessária para a atuação espiritual, sem constituir causa física do fenômeno.
A Arca da Aliança e os rituais funcionaram como pontos de apoio para a fixação do pensamento e para o direcionamento da ação fluídica, conforme o princípio apresentado por Allan Kardec de que a ação espiritual requer um foco definido (O Livro dos Médiuns, cap. XXV).
A obediência rigorosa às instruções recebidas manteve a coesão mental do grupo e contribuiu para a qualidade dos fluidos disponibilizados, sem que a disciplina, por si mesma, explique a queda das muralhas (A Gênese, cap. XIV, itens 14 e 18).
4. Fenômenos de ruptura da matéria
Kardec analisa fenômenos nos quais estruturas materiais são rompidas ou deslocadas sem causa mecânica visível. (O Livro dos Médiuns, cap. V, itens 96 e 98). Esses estudos demonstram que a matéria pode ser afetada por agentes invisíveis quando há condições fluídicas adequadas, sem contrariar as leis naturais.
5. Leitura espírita dos relatos bíblicos
Kardec orienta que os textos bíblicos devem ser analisados retirando-se o caráter maravilhoso aparente, a fim de se alcançar a realidade do fenômeno descrito (A Gênese, cap. XV, item 1). Esse princípio permite compreender Jericó como um fato histórico narrado segundo a linguagem religiosa e simbólica de seu tempo.
6. O papel do fluido vital e a cooperação da multidão
Allan Kardec explica que, para a produção de efeitos físicos, os Espíritos não atuam de forma independente, mas utilizam o fluido vital fornecido por encarnados, consciente ou inconscientemente, como elemento intermediário de sua ação sobre a matéria (O Livro dos Médiuns, cap. V, itens 74 e 75).
Nesse sentido, a presença numerosa e disciplinada do povo ao redor de Jericó pode ser compreendida como uma condição favorável à disponibilização coletiva de fluidos, sem que isso implique ação consciente, mediúnica ou causal direta por parte da multidão.
A disciplina, o silêncio e a repetição do ritual por seis dias contribuíram para a concentração mental e moral do grupo, o que, segundo Kardec, influencia a qualidade e a direção dos fluidos colocados à disposição da ação espiritual, sem constituir, por si mesmos, a causa do fenômeno (A Gênese, cap. XIV, itens 18 e 19).
O grito final e o toque das cornetas marcaram o momento culminante do ritual, sem constituírem causa física direta, inserindo-se no contexto de uma ação espiritual progressivamente preparada, conforme o princípio de que os Espíritos influenciam os acontecimentos humanos sem derrogação das leis naturais (O Livro dos Espíritos, q. 529).
7. Promessa a Abraão e progresso coletivo
A entrega de Jericó aos israelitas está em consonância com a promessa feita a Abraão, como instrumento da lei de progresso dos povos. Deus conduz os grupos humanos conforme suas condições morais e intelectuais, usando-os para fins educativos, segundo a lei de causa e efeito (O Livro dos Espíritos, q. 776 e 781).
8. Morte dos habitantes de Jericó
A morte dos habitantes de Jericó reflete a lei de causa e efeito sobre responsabilidades coletivas. A desencarnação não é punição arbitrária, mas resultado das condições morais do povo, dentro do processo educativo da Providência (O Livro dos Espíritos, q. 737, 744 e 746).
A queda das muralhas de Jericó não representa um ato sobrenatural ou arbitrário, mas a ação coordenada de leis naturais, morais e espirituais sobre a matéria e os homens. A disciplina de Josué e do povo, o silêncio, a marcha ordenada e o toque das cornetas funcionaram como meios de concentração de fluidos e de energia moral coletiva, favorecendo a intervenção dos Espíritos (A Gênese, cap. XIV, itens 14, 18 e 20; O Livro dos Médiuns, cap. V, itens 74, 75 e 96).
O episódio também evidencia a fidelidade às promessas divinas a Abraão, mostrando que a posse da Terra Prometida segue princípios de causa e efeito e responsabilidade moral, e que os acontecimentos históricos refletem a interação entre ação humana consciente e providência divina (O Livro dos Espíritos, q. 529).
A destruição dos habitantes de Jericó, registrada no texto bíblico, revela que o desequilíbrio espiritual e a injustiça geram consequências inevitáveis, respeitando-se as leis naturais, sem suspensão do princípio da causa e efeito.
Para o espírita, Jericó torna-se um exemplo histórico do poder da cooperação, da disciplina e da concentração de vontades alinhadas à direção espiritual, demonstrando que progresso, obediência e consciência moral podem transformar realidades concretas, em perfeita harmonia com as leis divinas.
Equipe Jesus em Nossa Vida
Bibliografia
KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 2 ed. França.
KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. 1. ed. França.
KARDEC, Allan. A Gênese. 1. ed. França.
Bíblia Sagrada. Josué 6. Nova Versão Internacional (NVI).
Material de apoio
BÍBLIA VIDA FÉ. Eles venceram SEM lutar. YouTube, canal @bibliavidafe-shorts, 20 dez. 2025. Disponível em: <www.youtube.com/shorts/3YCw3og6RM8?feature=share >. Acesso em: 11 jan. 2026.