O Livro dos Espíritos | Livro 2 “Mundo espírita ou dos espíritos” | Capítulo 4 “Pluralidade das existências”
Mudança gradual, questões 189 a 196
O Espírito, desde o início de sua existência, não nasce completo nem plenamente consciente. Assim como a criança que começa a vida terrena com suas faculdades em desenvolvimento, o Espírito, em sua origem, vive uma infância espiritual, guiada mais pelo instinto do que pela razão. Nessa fase, mal tem consciência de si mesmo e de seus atos. Sua inteligência, como uma semente que germina, desenvolve-se lentamente, passando de uma vida puramente instintiva para a vida racional e moral.
Nas primeiras encarnações, o Espírito experimenta o despertar gradual de suas capacidades. A alma, ao reencarnar pela primeira vez, encontra-se no estágio de infância, ensaiando para a vida e aprendendo a agir com discernimento. Os chamados “selvagens”, ainda que considerados espiritualmente infantis, já demonstram algum grau de progresso, pois sentem paixões e emoções. As paixões não indicam perfeição, mas marcam o início do exercício da liberdade e da individualidade, que mais tarde deverão ser disciplinadas pela razão e pelo senso moral.
A evolução espiritual segue uma marcha contínua e progressiva. O Espírito percorre as mesmas fases que se observam na vida humana: infância, juventude e maturidade, mas sem declínio ou velhice, pois a sua existência é imortal. O tempo necessário para que passe da infância à perfeição é imenso do ponto de vista humano, e seu progresso não se limita a um único mundo. Realiza-se através de muitas existências, em diferentes esferas. Cada vida corporal é uma etapa desse aprendizado, uma oportunidade de crescimento. Contudo, assim como há dias infrutíferos na vida material, há existências nas quais o Espírito pouco avança, desperdiçando as chances que lhe são oferecidas.
O progresso espiritual não ocorre de forma abrupta. Ninguém atinge a perfeição em uma só vida, por mais virtuosa que seja. O que o homem julga perfeito ainda está distante da perfeição real, pois há qualidades e graus de sabedoria que ultrapassam sua compreensão atual. Assim como uma criança precoce precisa atravessar a juventude antes de alcançar a maturidade, o Espírito deve percorrer as diversas etapas do conhecimento e da moralidade. O avanço em uma só direção — seja em inteligência ou moralmente — não é suficiente; é preciso crescer em ambas, de modo equilibrado, até atingir os graus superiores da escala espiritual.
Contudo, o esforço individual tem valor decisivo. Cada ação voltada ao bem, cada renúncia às más tendências e cada aprendizado verdadeiro reduzem as dificuldades das existências futuras. O Espírito que se dedica ao progresso acelera sua jornada; o que permanece indiferente ou preguiçoso, retarda-a e sofre mais. Apesar disso, jamais há retrocesso real: o Espírito pode nascer em posição social inferior, mas não perde as virtudes já conquistadas. Um homem de bem não pode reencarnar como um criminoso, pois não há degeneração moral, enquanto um Espírito perverso pode tornar-se bom, se arrepender e decidir mudar. A marcha é sempre ascendente.
O Espírito, liberto da matéria, isto é, estando no mundo espiritual, percebendo os erros que cometeu, poderá, em uma nova encarnação, desejar agir melhor para evoluir. Entretanto, outros querem permanecer estacionados, sem progredir. É esse processo de experiências, erros e aprendizados que explica por que os homens são desigualmente adiantados na Terra. Uns já possuem experiência adquirida em vidas anteriores, enquanto outros ainda iniciam sua caminhada, mas todos, sem exceção, alcançarão o progresso, mais cedo ou mais tarde, conforme seus esforços.
As tribulações da vida material são instrumentos de purificação e evolução. Elas funcionam como um crisol (recipiente para fundir e purificar metais) no qual o Espírito depura-se, libertando-se das impurezas morais. O corpo é apenas um instrumento, uma veste passageira que permite à alma aprender, corrigir-se e evoluir. Assim como alguns produtos precisam passar por vários processos para tornar-se puro, o Espírito necessita de múltiplas encarnações para alcançar a perfeição espiritual, desprendendo-se gradualmente das influências grosseiras e do mal.
Dessa forma, a lei do progresso espiritual é universal, justa e invariável. O Espírito nasce simples e ignorante, mas destinado à perfeição. O tempo, as provas e as experiências constituem os degraus de sua ascensão. A cada existência, colhe o resultado de seus esforços ou de sua negligência. O caminho é longo, mas inevitável: todos os Espíritos alcançarão, um dia, a pureza e a plenitude das faculdades divinas que lhes foram concedidas em germe desde a origem.
Equipe Vida e Espiritismo
Bibliografia: KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 1 ed. França.Esta é uma livre interpretação.