Sim, eu sou portuguesa, nunca fui ao Brasil e ninguém da minha família é brasileiro, mas de algum jeito eu falo perfeitamente português do brasil. Como e por quê?
Antes e durante a pandemia, eu passava muito tempo no Discord conversando com várias pessoas. A grande maioria era brasileira. E, infelizmente, muitos deles, assim que me ouviam, já começavam com piadas ou comentários desagradáveis. Coisas como “vai devolver o ouro quando?” ou até comparações estranhas sobre gemidos de portuguesas serem melhores. E isso numa época em que eu tinha 10 anos ou menos. Era bem desconfortável.
Com o tempo, criei um grupo de amigos e comecei a treinar com eles o jeito de falar brasileiro. Eles me ajudavam, eu praticava, e fui melhorando aos poucos. No início, eu só usava esse sotaque com eles, por serem meus amigos. Até que um dia criei coragem e entrei numa call com pessoas que não me conheciam, falando em português do Brasil para testar se alguém perceberia.
Eu conversava normalmente por alguns minutos e depois dizia: “sou portuguesa”. Muitas vezes a resposta era algo como “sabia que tinha algo estranho no teu sotaque”. Esse foi o começo.
No início, eles não sabiam exatamente de onde eu era, mas percebiam que tinha algo diferente. Com o tempo, alguns identificavam que eu era de Portugal, outros só achavam o sotaque esquisito. Eu comecei a treinar isso com uns 10, 11 anos. Aos 12, já estava bem melhor. Não era perfeito, mas bom o suficiente para ninguém questionar logo de cara.
E isso era o mais importante para mim. Eu não queria que todas as conversas girassem em torno da minha nacionalidade, do meu sotaque ou da forma como eu falava. Queria ter conversas normais. Porque quando você é diferente num ambiente muito padrão, as pessoas focam nisso. E se você não quer ser reduzida a essa diferença, às vezes acaba escondendo.
Foi o que eu fiz.
Com o tempo, fui melhorando cada vez mais, até chegar ao ponto de hoje, em que quase ninguém percebe. Talvez uma em mil pessoas pergunte de onde eu sou por causa do sotaque. A maioria só acha que é um jeito diferente de falar.
Ainda assim, existem detalhes que entregam. Um exemplo é o número 17. É um jeito específico que eu falo e que provavelmente não vou mudar. Já chegaram a zoar isso num vídeo meu, aquele dos milares de currículos em um ano, dizendo que eu não fui contratada por causa da forma como falo “17”. Esse vídeo está no meu Instagram, TikTok e YouTube. E não se preocupe, ele é fake kkkkkk
Mas isso eu não vou mudar. É só o meu jeito de falar.
Por que eu continuo falando em português do Brasil e não volto ao meu sotaque natural, que é o de Portugal?
Primeiro, tem todas aquelas inconveniências que já mencionei antes. Mas, além disso, a maioria do público é brasileiro. Claro que existem brasileiros que gostam do sotaque português, mas são minoria. No geral, o público prefere consumir conteúdo de pessoas que falam como eles. Um criador português, mesmo sendo grande, ainda costuma ser menor do que um brasileiro mediano em alcance.
Também tem um fator pessoal. Eu acho o português do Brasil mais expressivo. Gosto do jeito de falar, das gírias. Na verdade, eu gosto dos dois. Cada um tem as suas expressões, o seu jeito específico de falar, principalmente entre adolescentes. Mas, por algum motivo, acabo gostando um pouco mais do brasileiro. É uma preferência leve, mas suficiente para me fazer usar mais.
Outra coisa que influencia é o jeito de falar. Adolescentes portugueses às vezes passam uma sensação de superioridade. Não estou dizendo que são, mas parece. Já os brasileiros, na minha percepção, não passam tanto isso. Existem exceções, claro, mas a sensação é diferente. Parece mais leve, mais equilibrado.
Mas tem um ponto negativo. Falar em português do Brasil cansa mais. O português do Brasil afina a voz o tempo todo, como se tivesse que “encolher” a garganta. Já o português de Portugal é mais leve nesse sentido, a voz sai mais grave, mais solta. Então, fisicamente, o brasileiro é mais cansativo para mim.
Também tem o preconceito de outros portugueses. Já aconteceu comigo quando andava na escola. Algumas meninas vieram falar comigo e perguntaram se eu era brasileira. Eu perguntei se parecia, e elas disseram que sim. Eu respondi “obrigado”, e elas saíram rindo. Não foi elogio, foi deboche só por eu ser portuguesa e ainda assim, preferir falar com sotaque brasileiro. Nessa altura, eu já postava bastante na internet. Era meio inevitável