5.1.2. A família beneficiária e o processo participativo
A definição do programa de necessidades decorre de um processo participativo, conduzido a partir da visita técnica e entrevista com a família beneficiária, realizadas no dia 19 de setembro de 2025, na ARIS Dorothy Stang, com acompanhamento da Professora Cristiane Guinâncio. O levantamento se referenciou no método para levantamento adotados pelo Projeto ATHOS.
A família contemplada é composta por Cléia (Ron Nicleia Guedes de Araújo), seu esposo (inserir nome) e três filhos – Marcos Daniel (20 anos), Paulo Vitor (17 anos) e Irapoã (15 anos) - além de cinco cães. Residem há aproximadamente dez anos na comunidade, desde o início da ocupação.
Com o logradouro atual na rua Filha de Jorge a casa 39 é autoconstruída majoritariamente com materiais provisórios (madeirite e tecido), o que resulta em baixa ventilação e pouca iluminação natural, o que gera desconforto térmico (principalmente pelo frio) e agravamento de problemas respiratórios relatados pela família.
A visita revelou aspectos simbólicos e afetivos fundamentais que orientam o processo projetual. Para Cléia, a cozinha é o coração da casa, espaço onde ela expressa cuidado e prazer, especialmente ao cozinhar. Ela expressou o desejo de que a cozinha seja separada da sala e com bancada ampla para preparo de alimentos. A família costuma realizar refeições reunida, e Cléia deseja que mesa de refeições esteja localizada na sala, ambiente no qual pretende ter dois sofás (um de três lugares e outro de dois) e rejeita o uso de poltronas.
Cléia também demonstrou grande apreço por plantas e pela natureza, e mencionou a importância da preservação das árvores frutíferas existentes no terreno, com um limoeiro e uma amoreira. O terreno tem cerca de 10 metros de largura por 15 metros de profundidade.
O sonho de Cléia é ter quatro quartos em sua casa – um para cada filho e um para o casal – e uma varanda no pavimento superior, onde possa observar a paisagem e desfrutar de momentos de descanso. A proposta arquitetônica, contudo, considera essa aspiração de forma que seja construída em etapas, que reconheça a importância de um crescimento progressivo conforme as possibilidades financeiras e construtivas da família. O projeto será estruturado de modo a permitir ampliações futuras, sem comprometer o desempenho estrutural ou o conforto ambiental.
Entre as atividades produtivas, destaca-se o trabalho de Cléia como trancista, que será incorporado ao programa como um espaço de trabalho doméstico autônomo, com iluminação adequada, ventilação e acesso independente pela área externa, sem isolar o ambiente da vida familiar. Já os filhos possuem interesses específicos que serão traduzidos espacialmente: Marcos trabalha com tecnologia e eletrônicos, e necessita de um espaço para seus equipamentos; Paulo se dedica ao conserto de bicicletas, o que demanda área de armazenagem e pequena oficina; e Irapoã expressou apenas o desejo por um quarto confortável.
Outro elemento surgiu como significativo durante a escuta, o reaproveitamento de materiais existentes como o portão, a caixa d’água, o chuveiro, louças sanitárias, tanquinho elétrico, máquina com centrífuga funcional etc. o que pode reduzir custos e reforça a abordagem sustentável do projeto.
O banheiro foi indicado como o primeiro cômodo a ser construído, tanto pela urgência sanitária quanto por exigir menor intervenção na estrutura atual. Prevê-se a setorização funcional – com o chuveiro e bacia em um compartimento e a pia em outro – para permitir o uso simultâneo e otimizar o espaço. Essa primeira obra consolida infraestrutura hidráulica e esgoto, organiza cotas e abre caminho para as fases seguintes.
O projeto também deverá garantir conforto ambiental e saúde, com ventilação cruzada, iluminação natural abundante, proteções solares adequadas e uso de materiais de baixo impacto compatíveis com o sistema em BTC. O aproveitamento de recursos naturais locais, como o sombreamento das árvores e a coleta de água da chuva, será avaliado como uma possibilidade estratégica complementar.
Por fim, aspectos simbólicos e afetivos emergiram fortemente ao longo da conversa. Cléia expressou o desejo de ter uma penteadeira em seu quarto, o que evidencia a importância de espaços que dialoguem com sua identidade e suas rotinas pessoais. Além disso, o desejo por um espaço de convivência acolhedor e por uma varanda com vista reflete não apenas necessidades práticas, mas também dimensões simbólicas do “habitar” relacionadas à memória, identidade, convivência e pertencimento.
A partir desses parâmetros, delineia-se um programa preliminar, passível de ajustes conforme o avanço do processo participativo e das condições construtivas:
Térreo
Sala de estar e refeições integradas;
Cozinha independente com bancada de preparo e abertura de integração com a sala de estar;
Banheiro (setorizado);
Quarto de casal com penteadeira;
Espaço de trabalho da Cléia como trancista com acesso duplo (interno e externo);
Lavanderia e área técnica (tanque e armário para limpeza);
Pátio e varanda sombreada voltada ao quintal produtivo.
Pavimento superior (etapa futura)
Três dormitórios (um para cada filho);
Varanda de contemplação;
Banheiro complementar.
Anexos e apoios
Pequena oficina para bicicletas (Paulo Vitor);
Espaço sombreado para os cães, integrado ao pátio posterior.
Esse programa será refinado nas próximas etapas a partir dos levantamentos técnicos e oficinas de validação com a família, reconhecendo que o ato de projetar é também um processo de escuta e construção conjunta.
A residência em BTC tem a capacidade de se tornar algo mais profundo do que um produto arquitetônico, mas um meio de experimentação sociotécnica, um lugar de aprendizado e de fortalecimento das práticas comunitárias no território Dorothy Stang.
5.1.3. Estratégias projetuais e diálogo técnico construtivo com o BTC
As estratégias projetuais adotadas buscam integrar as dimensões técnica, ambiental e simbólica da habitação, de modo que a solução arquitetônica se configure como um processo de adequação sociotécnica e não como um produto final fechado. A residência em Bloco de Terra Compactada (BTC) será concebida a partir de uma lógica evolutiva e participativa, incorporando as condicionantes físicas do lote, as dinâmicas familiares e as práticas construtivas locais.
5.1.3.1. Princípios orientadores do projeto
O projeto fundamenta-se em três eixos interdependentes:
Habitação como processo — a casa é pensada como organismo vivo, sujeito a transformações, ampliações e adaptações, acompanhando as mudanças da família ao longo do tempo (Guinâncio, 2017);
Tecnologia social e sustentabilidade — o uso do BTC é entendido não apenas como opção técnica, mas como estratégia de formação comunitária, redução de impacto ambiental e valorização do trabalho coletivo;
Conforto ambiental e qualidade espacial — o desempenho térmico, a ventilação cruzada, a iluminação natural e o sombreamento são critérios determinantes da implantação e do desenho arquitetônico.
Esses princípios se traduzem na busca por uma arquitetura de baixo impacto, que alie rigor técnico e sensibilidade territorial, e que reconheça o saber local como parte legítima do processo de projeto.
5.1.3.2. Estratégias espaciais e construtivas
A implantação no lote respeita a topografia natural e as preexistências vegetais, especialmente o limoeiro e a amoreira, integrando-as à composição paisagística e ao microclima da casa. A orientação solar define o posicionamento das aberturas e das áreas de permanência, priorizando a ventilação cruzada e o sombramento das fachadas mais expostas.
A sequência construtiva propõe iniciar pela unidade sanitária, etapa de menor custo e maior urgência sanitária, que servirá como núcleo técnico inicial para a expansão futura. As etapas seguintes contemplam os dormitórios, a cozinha e as áreas de convivência, de modo a garantir habitabilidade mínima desde os primeiros momentos da obra.
O sistema em Bloco de Terra Compactada (BTC) foi escolhido por sua versatilidade modular, baixo impacto ambiental e adequação ao trabalho comunitário. Produzidos localmente com o solo do próprio território, os blocos permitem reduzir o consumo energético e os custos de transporte, ao mesmo tempo em que promovem a apropriação tecnológica pelos moradores. A técnica reforça também o caráter pedagógico da obra, integrando os saberes populares com os conhecimentos técnicos adquiridos no Curso de Capacitação em BTC.
Do ponto de vista técnico, o projeto prevê o uso de cintas e vergas em BTC grauteadas para a estabilidade estrutural, além de impermeabilização das fundações e beirais generosos para proteção contra a chuva. A passagem de instalações elétricas e hidráulicas será planejada de forma a minimizar cortes e interferências, preservando a integridade dos blocos.
A adoção de lajes leves e modulares facilitará a ampliação futura para um segundo pavimento, caso as condições estruturais e financeiras da família permitam. Essa previsibilidade técnica reforça a ideia de crescimento assistido, permitindo que a moradia evolua sem perda de qualidade construtiva.
5.1.3.3. Estratégias ambientais e de conforto
A construção em BTC contribui naturalmente para o conforto térmico, devido à sua alta inércia térmica e baixa condutividade, mantendo temperaturas internas mais estáveis. As paredes terão espessura adequada ao desempenho climático do Cerrado, com atenção ao sombreamento e à ventilação dos ambientes.
A proposta busca também integrar estratégias passivas de sustentabilidade, como:
Captação e reuso de águas pluviais, em reservatórios de pequena escala;
Pavimentação permeável nas áreas externas;
Aproveitamento das árvores frutíferas existentes como sombreamento natural;
Aberturas zenitais ou basculantes em pontos estratégicos, para garantir iluminação difusa e renovação de ar.
Essas soluções visam reduzir o consumo energético e promover uma relação mais equilibrada entre a casa e o meio ambiente, contribuindo para a resiliência climática e para a saúde ambiental do território.