O surgimento do design está formalmente relacionado com o histórico momento da Revolução Industrial (1760), que ocorreu na Inglaterra, estabelecendo o início do período industrial, marcado pela alta produção de artefatos e intensificação do consumo. Neste sentido, considerando o design como possibilitador da reprodução em massa dos artefatos, há de se analisar a possibilidade da prensa de Gutenberg, ou prensa de tipos móveis, (1450), ter sido uma das primeiras expressões de design no mundo, de forma que, esta invenção transformou a possibilidade de reprodução de textos , permitindo assim uma maior agilidade e escalabilidade ao produzir cópias de forma rápida, revolucionando desta forma, as impressões da época ao redor de todo o mundo. Não obstante, ao pensar em design como solução de problemas, o seu surgimento pode ser pensado desde o início da humanidade, considerando toda a produção humana e seus artefatos não-canônicos, hoje intitulados de “cultura material”, como design.
“Na sua acepção original, ‘cultura material’ se referia aos artefatos produzidos pelos ‘outros’, ou seja, por grupos excluídos da concepção moderna de uma ‘civilização ocidental’ [...] A expressão ‘cultura material’ era reservada para uma classe de objetos indignos mesmo de inserção no universo capitalista de compra e venda, cujo único valor para a sociedade moderna era o de curiosidade ou de objeto de estudo antropológico.” (Cardoso, Design, Cultura Material e Fetichismo dos Objetos, pg. 20)
Desta forma, exploraremos aqui o questionamento para estes três pontos: 1. Qual é o real surgimento do design, considerando artefatos não-canônicos, 2. Sendo assim, a elaboração de artefatos que surgem fora do processo formal, ainda pode ser considerado design, ou puramente “cultura material”? e 3. O papel do design no mundo. Seria puramente a reprodução? Ou o design ocupa o lugar de solucionador de problemas, moldando-se naturalmente às questões e necessidades conforme a evolução da sociedade?
Pois vejamos, as invenções humanas surgem de resolução de problemas desde o período paleolítico, ao conceder lascas nas pedras para aprimorar as caçadas. Ademais, a criação de abrigos, as vestimentas, diversos artefatos de cerâmica que aproximam-se de potes e reservatórios. E assim seguiram-se para as demais invenções que revolucionaram a história: a roda, a bússola, a própria prensa tipográfica anteriormente citada, todas essas datadas anteriormente ao design, cumpriram o grande papel de sanar uma dificuldade humana. O que as difere de uma xícara ou jogo de louças, uma chaleira elétrica ou o GPS em um dispositivo móvel? Afinal, "O verdadeiro papel do design é criar produtos e sistemas que melhorem a vida das pessoas [...]”. (Papanek, tradução livre, Design for the Real World: Human Ecology and Social Change).
Em consoante, as produções e artefatos de sociedades não eurocêntricas ocupam um lugar primitivo, não civilizado e desprovido de processo formal, sendo colocados exclusivamente como objetos de “cultura material”. Definido por Rafael Cardoso “[...] a ‘cultura material’ é um termo do século XIX e, conforme assinalado acima, surgiu no contexto do estudo etnológico das culturas taxadas ‘primitivas.” De modo que, a produção é considerada apenas um artefato simbólico, retirando-o do lugar de funcionalidade e utilidade, e ainda, despindo-o da possibilidade de ser caracterizado como arquitetura, arte, tecnologia, mercadoria ou propriamente, design.
Mas afinal, se considerarmos o design como solução de problemas, este sempre esteve presente através da história, em todas as civilizações ao redor do mundo, sendo derivado de processos bem definidos, a partir de um design canônico, formal, metodológico e europeu, ou de processos informais, de objetos não-canônicos e culturas “não centrais”, com soluções reduzidas a expressão de “cultura material. "[...] Os designers têm a responsabilidade de questionar as práticas existentes e buscar soluções que sejam verdadeiramente inovadoras [...]". (Papanek, tradução livre, Design for the Real World: Human Ecology and Social Change).
-Texto desenvolvido por Maira Giselle Cabral Souza para a disciplina Teoria do Design - Universidade Federal do Rio Grande do Norte - Departamento de Design - 2024. O texto colabora com o projeto de extensão “Blog Estudos sobre Design”, coordenado pelo Prof. Rodrigo Boufleur (http://estudossobredesign.blogspot.com).
Referências:
https://paranafazciencia.uvpr.pr.gov.br/o-homem-e-suas-invencoes-ganhos-e-perdas/
https://pt.wikipedia.org/wiki/Cronologia_das_inven%C3%A7%C3%B5es
https://museuweg.net/blog/a-prensa-de-gutenberg-como-essa-invencao-mudou-o-mundo/