Dilema de Eutífron

Dilema de Eutífron. Dilema examinado no Eutífron, um dos diálogos de Platão. As coisas piedosas são piedosas porque os deuses as amam, ou os deuses as amam porque são piedosas? O dilema suscita a questão da possibilidade de conceber os valores como resultado da escolha de uma mente qualquer, mesmo que essa mente seja divina. Na primeira opção, aquilo que é bom e tem valor é criado pela escolha dos deuses. Mesmo que isso seja inteligível, parece tornar impossível o ato de louvar os deuses, já que assim é vagamente verdadeiro que eles escolhem o que é bom. A segunda opção nos obriga a supor uma fonte de valores situada aquém ou além da própria vontade dos deuses, pela qual estes possam ser avaliados. A elegante solução de Tomás de Aquino consiste em afirmar que o modelo do bem é a natureza de Deus, sendo por isso distinto de sua vontade, embora não distinto de si mesmo.

O dilema surge seja qual for a fonte de autoridade que se aceite. Preocupamo-nos com o que é bom porque é bom, ou nos limitamos a chamar de boas aquelas coisas com que nos preocupamos? O dilema também pode generalizar-se de forma a afetar nossa compreensão da autoridade de outras coisas, como a matemática, por exemplo, ou as verdades necessárias. Essas verdades são necessárias porque decidimos que elas o são, ou decidimos que elas o são porque são necessárias? (1)


(1) BLACKBURN, Simon. Dicionário Oxford de Filosofia. Consultoria da edição brasileira, Danilo Marcondes. Tradução de Desidério Murcho ... et al. Rio de Janeiro: Zahar, 1997.