No domingo, dia 3 de Outubro, o Sumo Pontífice Paulo VI presidiu, na Basílica Vaticana, ao solene rito de canonização da Beata Beatriz da Silva. Depois do canto do Evangelho, o Santo Padre pronunciou — em italiano, em português e em castelhano — a seguinte homilia, na qual recordou a actualidade da mensagem da nova Santa*:
Da nova Santa não Nos é possível tecer o breve elogio que se costuma fazer no momento de uma canonização e que parece projectar perante os nossos olhos radiantes os traços de um rosto glorioso, porque, assim como o rosto extraordinariamente belo e puro de Beatriz da Silva permaneceu velado por longos anos da sua vida terrena, até à sua bem-aventurada morte, assim também muitos aspectos da sua biografia só chegaram até nós por reflexo, como per speculum in aenigmate — através de um espelho e de modo confuso — [1], na documentação histórica através da qual ela transparece como figura inocente, humilde e luminosa, apesar de não conceder à nossa humana mas legítima curiosidade sinal algum de expressão pessoal. Assomam aos lábios as palavras de Dante: Ov’è Beatrice — onde está Beatriz? [2]; ou as palavras bíblicas em que vibra o amor místico: Minha pomba,... mostra-me o teu rosto, faz-me ouvir a tua voz, porque a tua voz é suave e gracioso o teu rosto [3]. Porque, efectivamente, nenhuma palavra desta Santa chegou até nós nas suas sílabas textuais, e por conseguinte, nenhum eco da sua voz; nem escrito algum de sua mão, ou algum retrato do seu rosto demasiado belo, como se dizia, para que não fosse, na sua juventude, causa de turbação. E nem sequer os estatutos definitivos da Regra para a família religiosa que Ela fundou, inaugurando com a sua própria morte o nascimento da mesma família.
CIDADÃ DA TERRA A CAMINHO DA SANTIDADE
Mas, então, uma pergunta surge no espirito de quem dirige a atenção e a devoção para esta cidadã do céu: será uma lenda a sua vida? Será fruto de um mito? Não, não é! Beatriz da Silva, antes de entrar no reino eterno do céu, foi cidadã da terra: e o seu registo, e mais ainda a sua obra de Fundadora de uma nova e ainda hoje florescentíssima Família Religiosa, a das Monjas Franciscanas da Santíssima Conceição de Maria, não deixam dúvida alguma a propósito, antes conferem certeza particular e edificante exemplaridade à história hagiográfica desta esplêndida figura.
Santa Beatriz da Silva, portuguesa de nascimento, passou a maior parte da sua existência terrena em terras de Espanha. Seja-Nos, pois, permitido prestar homenagem a estas duas nobres Nações, servindo-Nos das suas respectivas línguas para traçar, com rápidas pinceladas, o perfil biográfico de uma Mulher que ao nosso coração de crentes fala, se não com os escritos, sim com a eloquência mais convincente da vida [4].
Paulo VI resume assim os momentos mais significativos da vida da nova Santa, em português.
Beatriz da Silva nasceu em Ceuta, cidade do Norte de África voltada para o Mediterrâneo, nessa época sob o domínio da Coroa de 'Portugal. O feliz evento verificou-se em 1426, muito provavelmente, embora alguns biógrafos falem do ano de 1424.
Nasceu portuguesa, portanto. Seu pai, Dom Ruy Gomes da Silva, quando jovem, havia combatido na conquista da referida cidade de Ceuta, em 1415; e com tanto denodo e valor se houve, que o Capitão da praça, o nobre Dom Pedro de Meneses o premiou, dando-lhe em Matrimónio a sua própria filha Isabel. Era esta, por diversas alianças, aparentada com as casas reais de Espanha e Portugal.
Deste matrimónio nasceram 11 filhos, criados e educados com amor e com a esclarecida prudência da alma profundamente cristã dos progenitores, sobretudo da mãe. Para além de Beatriz, destes há a salientar o Beato Amadeu da Silva, o qual abraçou em Itália a Ordem de São Francisco e deu origem a um ramo da Ordem dos Frades Menores reformados, conhecidos por Amadeus.
Pelo ano de 1433 foi o pai de Beatriz da Silva e Meneses nomeado Alcaide-mor da vila de Campo Maior, em Portugal, para onde se transferiu com toda a família. Em Portugal, portanto, transcorreu a nova Santa os tempos da sua meninice e juventude, cultivando as excelsas qualidades da sua alma privilegiada e preparando-se para futuras provações. A experiência de sofrimentos físicos e morais, como prova de amor, é frequente no caminho a percorrer por aqueles a quem o Senhor quer dar a coroa da vida, prometida aos que O amam [5].
Dirigindo-se aos peregrinos que vieram da Espanha e da América Latina, o Papa disse:
No ano de 1447, Isabel, filha de João Príncipe de Portugal, quando casou com João II Rei de Castela, levou consigo para terras de Castela, Beatriz, que havia completado vinte anos de idade.
Passado, porém, algum tempo, dado que a sua beleza provocava a admiração dos nobres, ou talvez porque a própria rainha temia ver nela uma perigosa rival, Beatriz abandonou a corte real e deu entrada no mosteiro de São Domingos, da Ordem de São Domingos, e ali, durante trinta anos, dedicou-se unicamente a Deus.
FUNDADORA DA ORDEM DAS CONCEPCIONISTAS
Depois destes quase trinta anos de consagração a Deus no mosteiro de São Domingos, decidiu fundar um novo mosteiro ou Ordem da Imaculada Conceição, em honra do mistério da Imaculada Conceição e para a propagação do seu culto. Assim, pois, no ano de 1484 deixou o mosteiro de São Domingos e passou, com algumas companheiras, para uma casa chamada Palacios de Galiana, que a Rainha Isabel a Católica lhe havia doado.
No dia trinta de Abril de 1489, a pedido de Beatriz e da própria Rainha Isabel, o Papa Inocêncio VIII autorizou a fundação do novo mosteiro e aprovou as principais regras que entretanto deveriam observar-se no mesmo.
Contudo, antes de, conforme a licença pontifícia, ser iniciada a vida regular no novo mosteiro, Beatriz subiu ao céu. Apesar disso, o seu Instituto não desapareceu, e, não obstante algumas dificuldades, transformou-se numa verdadeira Ordem religiosa e obteve a sua própria Regra no ano de 1511 [6].
O Santo Padre então retomou seu discurso em italiano.
É isto, em síntese, o que as fontes nos dizem sobre Santa Beatriz da Silva. E agora, a alma detém-se a pensar, perante esta frágil figura de mulher velada que um certo hálito de mistério torna ainda mais graciosa, e pergunta-se se Ela tem uma mensagem para o homem actual, psicologicamente tão distante daquele mundo povoado de cavaleiros, príncipes e damas, o mundo em que Ela nasceu.
Sim, sem dúvida!, devemos responder.
A MENSAGEM DA NOVA SANTA
Entretanto, aí está a mensagem representada pela própria obra de Santa Beatriz, a Ordem das Concepcionistas, nascida do seu coração inamorado de Deus. A nova Família religiosa, que se difunndiu rapidamente pelas diversas Nações europeias e depois também no Novo Mundo pouco antes descoberto (a primeira fundação Concepcionista no México remonta a 1540), ainda hoje está bem representada na Igreja: com cerca de 3.000 Monjas, que povoam os actuais 150 mosteiros distribuídos pelo mundo, a Ordem dá testemunho da sua presença vital na Igreja, uma presença que se qualifica pelo empenho da penitência e da contemplação. A estrita clausura, determinada pela Regra em todos os pormenores, com bastantes anos de antecipação sobre a reforma Tridentina, e ainda hoje observada pelas Concepcionistas, que preferiram estar fisicamente ausentes desta celebração para, em Deus, estarem espiritualmente mais junto de sua Mãe, propõe-se precisamente fomentar este recolhimento íntimo, necessário para um mais intenso e continuado colóquio com Deus. Como poderemos deixar de recordar, a este propósito, as palavras, de sabor nitidamente franciscano, com que o capítulo X da Regra insiste na dimensão orante e contemplativa da Ordem?: «Considerem as Irmãs atentamente que sobretudo devem desejar ter o Espirito do Senhor e a sua santa actuação, com pureza de coração e oração devota; purificar dos desejos terrenos e das vaidades do século a consciência; e tornar-se um só espirito com Cristo seu Esposo, pelo amor». Para o homem moderno, encadeado pelo turbilhão das impressões sensoriais multiplicadas pelos mass media até aos limites da obsessão, não é verdade que a presença destas almas silenciosas e vigilantes, entregues ao mundo das realidades não visíveis [7], representa uma chamada providencial a não desperdiçar uma dimensão essencial da sua natureza, a da vocação a caminhar pelos ilimitados horizontes do divino?
ACTUALIDADE DO TESTEMUNHO DE BEATRIZ DA SILVA
Mas há, ainda, uma segunda mensagem que aproxima Santa Beatriz da nossa experiência e nos permite apreciar toda a atualidade do testemunho que Ela nos propõe.
Nós vivemos numa sociedade permissiva, que parece não conhecer já fronteiras. O resultado está debaixo dos olhos de todos: a expansão do vício em nome de uma mal-entendida liberdade, que, ignorando o grito indignado das consciências retas, despreza e conculca os valores da honestidade, do pudor, da dignidade, do direito alheio, numa palavra, daqueles valores em que se funda toda a convivência civil bem ordenada. Pois bem a sociedade nobre do período do renascimento, o ambiente cortesão, tal como no-lo descrevem as crónicas da época, apresenta, com muita frequência, embora com nobres exceções, um panorama em que se refletem bem certas experiências tristes de hoje.
Foi naquele ambiente que Santa Beatriz maturou a sua opção: cedo caindo na conta das paixões que a sua excecional beleza suscitava em torno a si, como a flor que germina em terreno malsão eleva para o alto a sua corola intacta para absorver os primeiros raios do sol, assim a nobre donzela, «sem se demorar a decidir — é o seu primeiro biógrafo quem narra o episódio — pôs-se a caminho e abandonou a inquietação da corte, fugindo dela para ir receber a lei da conversação salutar com cujo cumprimento esperava entrar na terra prometida aos Santos». Nem se limitou a isso a generosidade da sua determinação virginal. «Recordando-se — é ainda o seu antigo biógrafo quem fala —da beleza que recebera de Deus, determinou que, enquanto vivesse, nenhum homem nem mulher alguma haveriam de ver o seu rosto». Exagero? Os Santos representam sempre uma provocação para o conformismo dos nossos costumes frequentemente tidos por sábios só porque são cómodos. O radicalismo do testemunho dos Santos sacode a nossa preguiça e é um convite à redescoberta de algum valor esquecido: o valor, por exemplo, da castidade como corajoso autodomínio dos intintos e como jubilosa experiência de Deus na transparência límpida do espírito. Não será, esta, uma lição actualíssima para os homens de hoje?
UMA ÚLTIMA PALAVRA: A SANTÍSSIMA CONCEIÇÃO DA GLORIOSA VIRGEM MARIA
Mas, esta manhã, Santa Beatriz da Silva quer ainda dizer-nos uma última palavra. E talvez seja a palavra mais importante, porque nela está encerrado o segredo da sua experiência espiritual e da sua santidade. Essa palavra é o nome de Maria, e precisamente de Maria Imaculada. O cândido alvor da Santíssima Virgem foi o ideal da sua vida, como sublinha o seu primeiro biógrafo: «foi-lhe aumentada a graça de uma particular devoção à Conceição sem mancha da Rainha do Céu, da qual, desde que começou a conhecer alguma coisa, foi profundamente devota». Esta devoção, legou-a Ela, em significativa herança, às suas filhas espirituais, dispondo que fosse a característica distintiva da nova Ordem «uma Ordem — para usar as palavras de um outro antigo biógrafo seu— em que, por dever, do mesmo modo que pelo significado do hábito e da Regra aprovada pela Santa Igreja de Roma, esta Santíssima Conceição da gloriosa Virgem fosse honrada, afirmada e exaltada com contínuos louvores». Deste modo, não poucos séculos antes da proclamação do dogma, e enquanto ainda ferviam as discussões teológicas, a Imaculada Conceição manifestava-se como força viva na história da salvação e na vida da Igreja, suscitando uma nova Ordem contemplativa que se inspirava no níveo fulgor da «Toda pura» e dela recebia energias para uma consagração mais generosa a Cristo, no quotidiano esforço de nada subtrair à suave soberania do seu amor.
Esta mensagem é válida também para nós, artífices de um progresso que ao mesmo tempo nos exalta e nos assusta pela sua ambiguidade intrínseca, portadores de aspirações nobilíssimas e apesar disso submetidos a humilhantes fraquezas; é válido para nós, homens modernos, «agitados entre a espe rança e o temor» [8]. Como poderemos deixar de sentir o fascínio de Maria, que, «com o seu amor de Mãe, cuida dos irmãos de Seu Filho que ainda peregrinam e se debatem entre perigos e angústias» [9]; como poderemos deixar de sentir a necessidade de erguer para Ela as nossas mãos, tantas vezes incertas e titubeantes, para sermos por Ela amparados e guiados pelos caminhos seguros que levam ao Seu Filho?
Este é o convite que como síntese de toda a sua experiência espiritual hoje nos dirige Santa Beatriz da Silva: olhar para Maria Imaculada, seguir o seu exemplo, invocar a sua proteção, porque no providente desígnio da salvação, «a Mãe de Jesus... já agora, na terra, enquanto não chega o dia do Senhor» [10], brilha, como sinal de esperança segura e de consolação, aos olhos do Povo de Deus peregrino» [11].
FIDELIDADE DE PORTUGAL E DA ESPANHA A CRISTO E À IGREJA
Honra e glória a Portugal, nobre País de fidalga tradição de fidelidade eclesial, hoje em festa com a festa da Igreja, ao ser canonizada uma sua filha: apelo e estímulo em particular para os portugueses. Para vós amados filhos presentes, com realce para os parentes da nova Santa, o Nosso cordial saudar e votos de todo o bem, com o celeste valimento de Santa Beatriz da Silva, para o «querido Portugal» [12].
Honra e louvor à Espanha, que soube cultivar e conservar com tanto esmero esta nova flor de santidade! Ela vem aumentar o rico património espiritual desta Nação abençoada que ao mundo deu tão exímios exemplos, no caminho da virtude, do seguimento de Cristo e de fidelidade à Igreja.
Oxalá que o exemplo da nova Santa suscite, sobretudo nas gerações jovens, um abundante florescimento de espiritualidade. Assim o pedimos a Santa Beatriz da Silva, e ao mesmo tempo suplicamos-lhe que proteja constantemente a Espanha e a Igreja.
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* Cf. L'Osservatore Romano (ed. semanal em português), ano VII, n. 41, de 10-7-1976, PP. 1. 6-7.
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[1] Cfr. I Cor. 13, 12
[2] A Divina Comédia, Paraíso, canto 32. verso 85.
[3] Cant. 2, 14.
[4] Até este ponto, o Santo Padre exprimiu-Se em italiano. Começou aqui a falar em português (N.d.R.).
[5] Tg. 1. 12. — A parte do discurso que se segue foi dita em lingua castelhana (N.d.R.).
[6] De novo em italiano, daqui em diante (N.d.R.).
[7] Cfr. 2 Cor. 4, 18; Rom. 8, 24 ss.
[8] Gaudium et Spes, 4.
[9] Lumen Gentium, 62.
[10] 2 Ped. 3, 10.
[11] Lumen Gentium, 68.— O Santo Padre concluiu o Seu discurso, saudando de novo, nas respectlvas línguas, os peregrinos de Portugal e da Espanha. A passagem imediata foi lida em português (N.d.R).
[12] A última passagem em Castelhano (N.d.R.).
Original: https://www.vatican.va/content/paul-vi/it/homilies/1976/documents/hf_p-vi_hom_19761003.html
Versão em Português de Portugal: https://revistas.ucp.pt/index.php/theologica/article/view/13243