Francisco Tárrega est. 1900.
Francisco Tárrega est. 1900.
Um breve conto de Música e Família à lareira
O tempo abranda. Na sua turva lentidão, o “tarantular dos dedos” tece lágrimas e melancolia ao ouvinte de Francisco Tárrega[1]. “Recuerdos de la Alhambra[2]” é flamenco. E ao estilo do animal está em ordem uma vénia para honrar uma memória, um sentir e um belo ouvir.
Tudo começa no tabuleiro. Enquanto a plateia se deslumbra com a valsa do Rei e da Rainha, o nosso olhar deve descolar-se a uma Torre do lado espanhol. Chama-se Antonio de Torres Jurado[3] e está prestes a presentear “un joven Tárrega” de 17 anos com uma guitarra. De ouvidos deliciados, Torres entrega-lhe a sua guitarra pessoal, a FE 17, em 1869[4].
É através de peças como “Gran Vals[5]” que estas palavras se traduzem num sorrir induzido pela eureka da nostalgia e mais praticamente percebemos a influência que o Francisco teve. Hoje o fantasma de Tárrega ocupa-se de assustar iniciantes de guitarra e de assombrar quem começa a aprender uma técnica chamada “tremolo”.
Chamei à lareira estes cavalheiros, porque enquanto existem outros contos de jovens, garagens e guitarras, o fio narrativo que estamos a tecer não lhes diz respeito, eles são senão uma flor de magnólia numa velha floresta de pinheiros, carvalhos e abetos. Estes castelhanos serão o pano de fundo, a fervente motivação e um sonho nos próximos parágrafos.
Enquanto o leitor mastiga o classismo convido-o ao abismo. A pensar na morte de um filho, numa guitarra e numa avó. O meu tio Pedro morreu com 17 anos, primeiro de quatro irmãos. Deixou à minha avó a guitarra que tocou até aos últimos momentos no hospital. Resguardada durante as décadas de noventa e de dois mil, no fim desta última, a minha avó decide dar-me a guitarra.
Resguardei-a durante mais uma década, sem saber o que tinha em mãos. Não era uma Torres e também não tocara nas mãos de Tárrega, mas tinha tocado em alguém que se inspirava neles para alegrar as longas noites à lareira.
Há três anos libertei-a do seu adormecido casulo e comecei a tocar. Terrivelmente confesso, mas com o sonho de consolar o passado, mesmo que entretanto tenha menos família que me conseguirá ouvir tocar. No entanto e de igual modo que esqueci a escrita, durante um ano, esqueci também a guitarra.
Y cuando todo parecía perdido, en el fondo del abismo que le devoraba el corazón, había empezado a encontrar, poco a poco, un texto aquí, un arpegio allí… Y así con el pasar del tiempo, lento y nubloso, nuestro pequeño héroe había reencontrado su fuerza. Cabalgando sobre el perfecto esoterismo dejado para atrás y soñando del futuro en paz. Hoy está en su cuartito, escribiendo, tocando… viviendo.
[1] Francisco de Asís Tárrega y Eixa, 21 de novembro 1852 a 15 de dezembro de 1909.
[2] Recomendo esta versão, de Brandon Acker, https://www.youtube.com/watch?v=R-5weyHVC2U&ab_channel=BrandonAcker, originalmente composta por Francisco Tárrega em 1899 e dedicada a Concepción Gómez de Jacoby em comemoração da sua visita à fortaleza e palácio de Alhambra, em Granada.
[3] Provavelmente o mais importante manufaturador de guitarras do século XIX. Os seus designs ainda hoje ecoam por ouvidos perto e longe, seja a guitarra acústica ou clássica, Torres moldou a guitarra moderna.
[4] https://bibliotecavirtualsenior.es/investigacion/francisco-de-asis-tarrega-eixea-1852-1909/, Masó et alia, pág. 7.
[5] Recomendo esta versão, de David Russell, https://www.youtube.com/watch?v=uSQzUx3QW2Y&ab_channel=Fledermaus1990, composta por Francisco Tárrega, em 1902.