A luz do Anarquista
Medo, dor e luz. É o típico gancho ascendente, onde estradas que vão quase paralelas curvam e perdemos a luz quem vai até à nossa frente por segundos, até voltarmos a ser acalmados por duas luas vermelhas.
Há um rapaz que há tempo admiro. Estilhaçava velocímetros como o corpo dele voava e nós em pânico. Lutava freneticamente contra tudo o que não fosse vento a favor, fossem elas, fossem aqueles, o governo da altura ou a sua própria mente.
Na sua peculiaridade, liderava-nos carinhosamente ao limite, até à Torre. Há irmandade entre rodas, duas, quatro – o que nos levar à nossa zona vermelha. “Porque se é no limite que nos realizamos, quando é que vamos parar?”
“Camas de hospital não duram para sempre, nada dura, vamos?” A apaixonada problemática do seu anarquismo era lutar contra ele mesmo, o que era para “o bem dele”. Porque quando ninguém sabia e ninguém tinha que saber o seu passado, era na lou-cura que ele encontrava paz.
Motor quente, check. Cronómetros, check. Luzes, check. Na última chuvosa noite de novembro saímos para correr contra nós mesmos, contra o nosso tempo, contra o nosso passado e ultrapassá-lo.
Durante o dia, a serra é magnífica. Vêem-se os vales que rasgam os picos que por vez criam as melhores estradas para se aprender a saber conduzir. Durante a noite, vêem-se apenas o longínquo piscar das eólicas e o refletir das setas nos railes.
Assim no último gancho antes da Torre, deixei de ver as luzes e nunca mais as voltei a ver. Nos gritos e fúria externos no momento e ainda internos quando chego ao limite consolo-me sabendo que aquele idiota… sabendo que o meu amigo tendo derrotado toda a oposição e libertando-se de todos os limites terrestres voou daquela curva de braços abertos provavelmente gritando “agora vou tratar do Reino de Deus.”