Nacional Dezasseis (A minha lacuna legal favorita)

 

           Noventa quilómetros por hora… é o limite de velocidade normal das estradas nacionais, para veículos ligeiros sem reboque, segundo o Artigo 27.º do Código da Estrada. Noventa quilómetros por hora, pode parecer pouco e é pouco no nosso quotidiano de VCI´s, A1´s e outras estradas que se podem fazer na sua totalidade com “Cruise Control[1]”, mas será que é assim na Serra?

           Não. E qualquer serrano o sabe. Noventa quilómetros por hora é demais na Serra da Estrela, é demais na Nacional Dezasseis e, assim, o legislador criou a minha lacuna legal favorita. As únicas estradas portuguesas onde o limite não é a Lei, mas antes o carro, o condutor e a estrada em si. Elas estão no Interior – e é legal conduzir bem nelas.

           Porquê? Porque aqui não nos bastamos com pés gordos, pesados e adormecidos no acelerador, não vivemos acomodados na sexta mudança, nem nos podemos dar ao luxo de ultrapassar os noventa porque se o fizermos, estamos a ultrapassar, não só o limite legal, mas o nosso próprio limite e a arriscar verdadeiramente a nossa vida.

           A nossa viagem começa depois de passar o IMT da Guarda e os Bombeiros e vai levar-nos pelas minhas memórias de piqueniques na serra, de ir ver a Bea ao Porto da Carne ou de atravessar toda a Serra de bicicleta com os meninos.

           De início a estrada serpenteia sobre as nossas pernas, com uma direita apertada seguida de uma longa esquerda e apercebemo-nos de que isto não ser Porto nem Lisboa – aqui vai haver curvas cegas que levam a curvas cegas, ganchos que se bebem primeira e, sobretudo, vai haver uma peculiar sonoridade composta pela serenidade da Natureza e pelo nosso coração, leia-se motor de combustão.

           É sempre a descer até à Aldeia Viçosa. Até lá a estrada já nos deixou desejosos… porque ou já conhecíamos a estrada e já a sabíamos amar – onde desengrenar para segunda, onde travar e em que ponto da curva voltar a acelerar – ou estaremos meramente a “turistar”.

           Sabendo amar a estrada, então sabemos o nosso limite e conseguimos deixar-nos ir. Conhecemos a amplitude das curvas e quanta tração temos de carregar para não cairmos precipício abaixo, também reconhecemos o sorriso no espelho porque a adrenalina é a diva pintora das nossas expressões.

           Porque é que o Legislador permitiu isto? Não sei, o dia que alguém com juízo se aperceber desta lacuna e criar limites adequados para estas estradas vai ser um dia triste porque sempre que estou mal e vou para casa – vou entregar-me a estas estradas.

           As estradas da serra são mágicas. São estradas onde podemos aprender a conduzir, legalmente. São estradas onde o carro deixa de pesar e o que acontece é que as nossas emoções são empurradas e espremidas de uma curvas para a outra – até deixarem de estar presentes. Porque a estrada precisa de toda a nossa atenção e assim tornamo-nos num mero corpo a flutuar no espaço, só nós e o presente.

           Assim vou à procura do meu limite e, fundamentalmente, de quem sou[2].

 

           Percurso (N16): Guarda – virar para o Aldeia Viçosa, passar a praia fluvial, ir até à Aldeia e depois atravessar a ponte em direção a Faia – conduzir pelas aldeias até chegar à EM556, entrar no cruzamento do gancho de Pêro Soares e seguir até à Barragem do Caldeirão – atravessar a ponte/barragem e seguir até à N338 – visitar o Cemitério nos Trinta – regressar à Guarda pela N338 ~ cerca de 35 Km.

           Deve haver um tempo médio para fazer este percurso, mas demorei 3 horas porque a meio, antes de chegar à praia fluvial de aldeia viçosa, virei à esquerda numa quinta, parei o carro, subi para cima do tejadilho e deitei-me a refletir na vida.



[1] https://www.acp.pt/veiculos/condutor-em-dia/conduzir-em-seguranca/cruise-control-controlo-na-ponta-dos-dedos.

[2] Há um filme que revisitei na Guarda e que faz justiça a estes sentimentos, chama-se “Ford v. Ferrari”, https://youtu.be/zyYgDtY2AMY?si=mRu-a099JsP7NNgO.