Grupo B

 

Lembro-me de ser mesmo pequenininho. Devia ter um metro, se tanto! E de ouvir “vamos a casa do tio Pedro!”. Começava aos saltos como se fosse Natal! Porque para mim, ir a casa do tio era uma experiência. Era passear por corredores e prateleiras apinhados de trofeus. Tinham um efeito curioso. Sentia que me levavam do meu Porsche 930 Turbo (que agora cabe completamente na minha mão)[1] a cidades, carros e pistas inacreditáveis à volta do mundo.

Com a presente introdução espero apresentar o que foi o “Grupo B”, como começou, o seu impacto e porque terminou. Em seguida irei argumentar porque deveria voltar, seguido da contra-argumentação, refutação e conclusão. O excerto seguinte é parte de uma entrevista a Pedro Leite Faria[2] sobre o “Grupo B”:

“O Grupo B começou [Em 1982] porque havia um declínio de espectadores no mundo automóvel. A FIA[3] (Fédération Internationale de l'Automobile), resolveu fazer um regulamento extremamente aberto [à entrada de carros e equipas]. Praticamente tudo era livre, excetuando o peso mínimo dos carros. E isso atraiu muitas marcas de automóveis a entrarem. No meio disto tudo, apareceram inovações incríveis. Que logo ou poucos anos depois, são derivadas da evolução técnica que o “Grupo B” atingiu. O ABS [sistema de travagem assistida, em português], as suspensões ativas, o que hoje nos nossos carros a gente põe a posição de “conforto”, “sport” etc. Tudo isso nasceu no Grupo B”.

“Infelizmente, o regulamento era tão livre que as coisas saíram um bocado fora de controlo. Os carros chegavam a atingir 800 cavalos. Em carros de ralis que é uma coisa quase indomável. Só pilotos fabulosos, como surgiram na altura, o Walter Röhrl[4], o falecido Hannu Mikkola[5], a Michèle Mouton[6] [os conseguiam pilotar].”

“Isto culmina em 86, no rali de Portugal com um Ford RS200, conduzido por Joaquim dos Santos[7] e Miguel Oliveira[8], num acidente que matou 4 pessoas e feriu mais de 30[9]. E pouco depois o Henri Toivonen[10] e o seu navegador [Sergio Cresto][11] morrem[12], num Lancia Delta S4, que era um autêntico monstro, no tour de Corse (rali de Córsica). E isto é, em essência, o porquê de ter terminado o Grupo B [em 1986].”

Deveria voltar. Era das únicas categorias, dentro dos desportos automóveis, onde talento excecional podia alcançar a sua máxima expressão. Com o fim da categoria, muitos condutores exprimiram[13]: “it probably was the best time of my life, it was just so intense”, “it was the highlight in my career, it was fantastic”, “you were putting everything behind the sport to be successful, you will never forget what you have done, you enjoyed it so much”. Sendo que com o seu fim, houve condutores que se reformaram do rali quase imediatamente[14]. Ao voltar poderia por um lado, muito eficazmente revelar novo talento. E por outro ter um profundo impacto positivo nos pilotos, quer ao nível da carreira automóvel, quer ao nível do desenvolvimento pessoal.

Mas era a única categoria? O mundo automóvel dependia do “Grupo B”? Precisamente por não ser a única categoria automóvel onde grandes talentos se podem exprimir em toda a sua amplitude, vemos outros grandes nomes fora do rali, seja Lewis Hamilton[15] ou Niki Lauda[16]. Todas as décadas florescem novas categorias, como a Fórmula-e (similar a Fórmula 1, com carros completamente elétricos).  Sendo que o fim da categoria não implica diretamente uma diminuição de condutores talentosos, se estes decidem voluntariamente sair do desporto, saem. Muitos outros continuaram, como Hannu Mikkola[17], mesmo fora do “Grupo B”.    

Mesmo que este tenha contribuído para o desenvolvimento pessoal e da carreira dos condutores, provando que tinham as capacidades que a categoria requeria. Se realmente eram talentosos, vingariam em outras categorias.

Ainda assim, acredito que a versatilidade que o rali obriga a ter, reflete-se em outras disciplinas, como no ciclismo. Onde cada vez mais campeões do mundo são corredores com extensiva experiência em todo-o-terreno[18]. O mesmo se verifica do rali para outras categorias. Onde a diversidade de condições adversas é tal, que para ter sucesso, tem que se ser excecional. Especialmente os condutores do “Grupo B”, porque para além das condições fora dos carros, os carros em si eram uma variável quase indomável. Para sentir como seria, convido a imaginar. Estamos na Finlândia, o “Footloose” acabou de estriar nos cinemas e está a nevar. O nosso copiloto está a preparar as notas e como crianças ansiamos pela luz verde. Luz verde. Primeira. Segunda e já vamos em terceira. Curva após curva, a adrenalina flui. Sorrimos sem saber que estávamos a fazer memórias. Passam-se as horas, quilómetros e com eles vai o sol. Acabada uma ronda, não há que entristecer. Amanhã há mais.

Empurrou o rali para a conversa do dia-a-dia. Algo que se desvaneceu quando acabou. Expôs a cultura de rali a uma diversa plateia de pessoas e criou ídolos como Michèle Mouton[19], a primeira e única mulher a vencer uma ronda do Campeonato de Mundo de Rali. Ao regressar, poderia recapturar o holofote e com isso, inspirar uma nova geração de pilotos. Mais inclusiva e distinta.

É um facto que o “Grupo B” popularizou o rali. No entanto, dizer que foi algo que se desvaneceu depois de ter acabado é um pouco incorreto. Apresento Collin Mcrae[20]. Escocês, com um sorriso bonito. E, verdadeiramente, o maior impacto que o rali já teve no dia-a-dia da pessoa comum. Ou melhor, da criança comum. Começando em 1998, com Collin nasce uma saga de jogos de rali[21] que disseminou muitíssimo mais o desporto que o “Grupo B”. Integrando o gosto pelo desporto numa nova geração. Estes jogos tornaram muito mais acessível a cultura de rali a uma fração do preço e garantindo a segurança. Algo que falhou no “Grupo B”, causando sofrimento entre famílias de condutores e espetadores, pela morte dos seus entes queridos.

É inegável que do “Grupo B” veio risco, acidentes e eventualmente mortes. E meramente dizer que “acidentes acontecem” não consola ninguém. Eu temo a morte. Mas temo ainda mais não viver o suficiente antes da morte. Não querendo com isto dizer que em prol de diversão, devemos ignorar a perda de vida humana, longe disso. O que quero dizer é mais próximo da ideia apresentada no filme “Mr. Nobody”[22]. Que apesar de o tempo se mover numa única direção e daí surgir a dificuldade de escolha (não podemos voltar atrás). Não o podemos parar. Para analisar todas as possibilidades e julgá-las de modo a escolher o “caminho certo”. Por isso, temos que aprender com os nossos erros, de modo a aproximar-nos da nossa ideia do “caminho certo”. Vejo o mesmo dilema refletido sobre o “Grupo B”, onde loucas possibilidades chocam com medo e insegurança. Se este retornasse, conseguindo aumentar a segurança de todos envolvidos. De forma a diminuir acidentes e evitar ao máximo a morte. Seria um dia feliz quer para quem correu, quem os viu correr e para todos aqueles que sonham um dia estar atrás de um volante.

Concluindo. Nostalgia é uma emoção forte. Mesmo se for sobre algo que aconteceu muito antes de nascermos. O sonho leva-nos lá. Mas o que é certo, é que há uma peculiar magia que liga os carrinhos de brincar na mão de uma criança à mão de um adulto num carro de corridas. Se o “Grupo B” regressasse iria, sem dúvida, ser diferente do que foi. O tempo vai passando. A tecnologia evolui. Mas acredito que, quando com medo sobre o que pode acontecer, devemos agir. Escolho arriscar para esclarecer ao medo. De que sim, como criança assumida irei além de ti. E realizarei todos os meus sonhos.



[1] https://imgur.com/a/YzRqlw0.

[2] Campeão Nacional de Rali 1984, Campeão Nacional, Ibérico e do Mundo de Fórmula Ford 1987, Vice-Campeão e Campeão de Velocidade em 1993 e 1994, respetivamente.

[3] https://www.fia.com/organisation, consultado em 13/março/2021.

[4] https://en.wikipedia.org/wiki/Walter_R%C3%B6hrl#WRC_victories.

[5] https://pt.wikipedia.org/wiki/Hannu_Mikkola, falecido a 26 de fevereiro do presente ano [2021].

[6] https://en.wikipedia.org/wiki/Mich%C3%A8le_Mouton.

[7] https://pt.wikipedia.org/wiki/Joaquim_Santos.

[8] https://www.ewrc-results.com/coprofile/27905-miguel-oliveira/.

[9] https://www.youtube.com/watch?v=xOOeaI3cMNQ, para ver o acidente, uma explicação técnica, entrevista da SIC ao copiloto e o documento elaborado pelos pilotos no hotel estoril-sol (3 minutos e 15 segundos).

[10] https://en.wikipedia.org/wiki/Henri_Toivonen.

[11] https://en.wikipedia.org/wiki/Sergio_Cresto.

[12] https://www.youtube.com/watch?v=kS0vSaet4dE, o carro sai da estrada e cai num precipício, onde começa a arder.

[13] https://www.youtube.com/watch?v=zpzOf4-6GoE, citações dos condutores entre os minutos 14:04 e 15:00.

[14] https://rallygroupbshrine.org/the-drivers/michele-mouton/, o seu último rali, viria a ser em Córsica, o último rali do Grupo B.

[15] https://en.wikipedia.org/wiki/Lewis_Hamilton.

[16] https://en.wikipedia.org/wiki/Niki_Lauda.

[17] https://en.wikipedia.org/wiki/Hannu_Mikkola#Complete_WRC_results, continuou a correr até 1993.

[18] https://youtu.be/Viszek1LlpA e https://en.wikipedia.org/wiki/Peter_Sagan sendo o melhor exemplo a apresentar, porque são pequenas aprendizagens e perspetivas de outras disciplinas que ganham segundos nas corridas… e são esses mesmos segundos que ganham os campeonatos.

[19] Atualmente Presidente da Comissão das Mulheres nos Deportos Motorizados, na FIA, http://www.fim-women.com/db-speakers/2019/5/27/michelle-mouton-president-of-fias-women-in-motorsport-commission.

[20] https://en.wikipedia.org/wiki/Colin_McRae.

[21] https://en.wikipedia.org/wiki/Colin_McRae_Rally e https://en.wikipedia.org/wiki/Dirt_(series)#Colin_McRae:_Dirt_(2007).

[22] https://www.imdb.com/title/tt0485947/, confesso que era um sonho conseguir cravar uma referência do meu filme favorito num trabalho académico.