Revolta contra o Carro Moderno[1]
Black Sabbath[2] e Britney Spears[3] foram o dueto perfeito nesse improvável dia. Unidos através de uma frequência insurgente, intermitente e problemática… a M80[4] versus uma rádio espanhola que nunca consigo apanhar tempo suficiente para perceber o que é. Bem! Vamos ao belo, imperfeito e talvez à verdade.
O sol já estava de saída e na minha companhia apenas tinha a Besta. Longe de Cinderela, esta criatura teria tração às quatro, mais atitude que muitas adolescências que viu passar e, certamente, uma carência absoluta de carinho. Land Cruiser[5] é o modelo da Toyota em questão. E o veredicto da juvenil impaciência é que é belo porque é imperfeito.
Os discos dos travões estão ligeiramente soltos e ainda mais degastados, é preciso carregar com força nos travões para obter qualquer resposta em tempo útil. O acelerador parece que está sempre três a cinco segundos atrasado. A transmissão ou caixa de velocidades está apegada à sonolência do armazém de décadas passadas e não aceita mudanças abaixo das duas/três mil rotações, sob pena de atitude e rosnares do motor. O volante podia estar alinhado, como podia estar ligeiramente mais leve e permitir uma resposta mais precisa. Uma suspensão incrédula para um jipe, parece que é um Ford Model T[6], com cada pedrinha e buraquinho. Desconheço o estado dos airbags. Tudo isto causaria pavor ao condutor médio, ao bom pai de família ou à “querida do Fiat 500” que provavelmente se apanha na VCI, porque além de imperfeito? É inconsciente e perigoso.
Como em tudo, também aqui a doutrina diverge e com isso se proclama a seguinte tese: Num mundo onde a condução se “aperfeiçoou”, tornou segura e fácil, (no sentido em que qualquer carro dito moderno [pós-2015] se conduz com assistência[7]) é preferível, para o condutor apaixonado[8], conduzir um carro imperfeito em que não basta saber conduzir (Código da Estrada), mas tenha que se saber conduzir (conhecer o veículo e as estradas em si, as suas características e o seu efeito na condução).
Porquê? Porque ao final de um dia complicado em que já não se quer ver ninguém à frente, em vez de presenteado com facilidades características do hoje (redes sociais, alusão à gratificação instantânea), ser confrontado com um conjunto de mecanismos velhos, imperfeitos e com ligeira fuga de óleo ao qual tenho que me adaptar para sequer andar… é gratificante. Faz apreciar o que há.
Sinto que se pegou na noção romana de que o instrumento é útil e nos esquecemos do belo. Sinto que se perdeu a atratividade do sujo, do radical e até do Rally. Adoro o carro que tenho na Guarda. Adoro que cada barulhento engrenar da primeira numa subida que parece que é desta! É aqui e agora. Trinta anos após a saída da linha de produção é que vai rebentar tudo. E não! E continua, dia após dia, mecanicamente falido, emocionalmente abusado e que acima de tudo, é uma memória daqueles que já o conduziram e hoje estão num lugar melhor.
Até nem mencionando a benesse da altura que um jipe tem. Uma torre que, numa grande cidade, instila medo em qualquer Classe-A[9] ou Série 3[10], numa rua onde afunila e apenas um pode passar de cada vez. Aqui, no interior, é diferente. Há mais motas, carinhas e pick-ups que jipes, mas há mais jipes que sedãs… no inverno quando as escolas fecham devido às condições intransitáveis para o transporte público (das aldeias e serra para a Guarda) com o gelo e nevões. Quem vai buscar os meninos? Os jipes. Quem leva os meninos a fazer um piquenique num “canto da serra mai linda”? Os jipes. Quem estaciona onde quer, como quiser? Um smart, é certo. Mas o jipe estaciona por cima dele! Pois, “c'est la vie” :)
Concluindo. Há muitas maneiras de tratar a raiva, frustração e outras complicações do foro psicológico. Mas poucas coisas consomem todo esse rancor e o transformam em adrenalina através da catarse como conduzir o “good ol´ jeep[11]” atrás de dois idiotas[12] de mota, enquanto perdemos tempo de estudo na Páscoa, tudo porque descobrimos um novo “spot” na nossa Serra da Estrela[13].
[1] Alusão ao livro de Julius Evola, “Revolt against the Modern World”, https://www.goodreads.com/book/show/179404.Revolt_Against_the_Modern_World, que ainda não li, mas que quando acabar de reler “Zen and the Art of Motorcycle Maintenance”, de Robert M. Pirsig, estou a ponderar ler!
Julius Evola, https://en.wikipedia.org/wiki/Julius_Evola, foi o “último Grande Filosofo-Fascista da Europa”. Tento não abanar bandeiras de ideologia nenhuma. Posto simplesmente? Gosto de os ler todos.
[2] Black Sabbath – “Paranoid”, do album do mesmo nome, https://www.youtube.com/watch?v=0qanF-91aJo&ab_channel=BlackSabbath.
[3] Britney Spears – “…Baby one more time”, do album do mesmo nome, https://www.youtube.com/watch?v=C-u5WLJ9Yk4&ab_channel=BritneySpearsVEVO.
[4] https://m80.pt/onde-posso-ouvir.
[5] https://www.auto-data.net/en/toyota-land-cruiser-j80-facelift-1995-4.2-td-170hp-4wd-3718.
[6] https://en.wikipedia.org/wiki/Ford_Model_T
[7] Do ABS (Assisted Braking System) a embraiagem assistida, há uma multitude de inovações derivadas do Rally e preocupações de segurança que tornaram a condução mais acessível e potencialmente cómoda. O fator diferenciador é que para apanhar um susto num carro moderno, quase que tenho de tentar obter, intencionalmente, esse comportamento do carro. Enquanto num carro pre-1990, um ligeiro esticar das pernas sobre o pedal, por mais que sem querer, me vá encostar ao assento. A mesma projeção acontece com uma mudança mal engrenada, há um feedback imediato. Sinto que os carros de hoje absorvem muito em nome de numa condução silenciosa, confortável e fácil. Em contraposição com o que Robert M. Pirsig diz, parece que já não estamos em contacto com o alcatrão “with the real thing, 5 inches below”, já não sentimos cada imperfeição e fomos condenados a conduzir através de retângulos, cada vez mais próximos de uma tv.
[8] Tenho como referência cinematográfica aceitável, Ken Miles em “Ford v Ferrari”, https://www.imdb.com/title/tt1950186/.
[9] https://www.mercedes-benz.pt/passengercars/models/hatchback/a-class/overview.html.
[10] https://www.bmw.pt/pt/all-models/3-series.html.
[11] Nota de curiosidade que tenho de encaixar em algum lado sob pena de sentir o texto incompleto. Na porta do condutor há um bastão de madeira com cerca de 70 cm que tem escrito, a preto na madeira, já escura, “educa suegras”. Nada mais a acrescentar.
[12] Com muito carinho, a Beatriz e o Gonçalo.
[13] Segunda nota de curiosidade! Assim que se entra na A25, passa-se por uma ponte grafitada que diz “There is a light that never goes out!” (no sentido Aveiro-Espanha) e “buongiorno principessa!” (no sentido Espanha-Aveiro), em referência à música de “The Smiths” e ao filme “La vita è bella”, respetivamente. Link para a música e descrição do filme, https://www.youtube.com/watch?v=siO6dkqidc4&ab_channel=TheSmiths e https://www.rtp.pt/programa/tv/p1307.