“The Sands of Sound”[1]-[2]
Nas douradas traseiras da praia, costuma haver silêncio e passageiros. Passageiros, no sentido de mera passagem pelas areias. Não sabemos para onde vão… só que caminhamos juntos em silêncio. Devia ter uns onze anos e numa dessas caravanas que atravessam o calor até ao posto seis ou sete na praia adjacente à de Vilamoura (Falésia/Rocha Baixinha/Tomates). O meu pai apercebendo-se da minha irrequietude (a areia estava mesmo quente) entrega-me um retângulozinho prateado com uma maçã na parte de trás[3] e uns fones. Avisando-me “muito cuidado para não cair na areia, ok?”. Na altura não o sabia manusear, pelo que quando coloquei os fones, já estavam a dar “Mika” (Álbum “Life in Cartoon Motion[4]”) e animei. Sossegadinho e sorridente o resto da caminhada.
E é sobre isto que quero e tenho querido falar há muito tempo, este pequeno ato de colocar uns fones ou headphones e espairecer. O que induz esta calmaria na alma? E se essa pergunta não encontrar resposta, existem observações para nos consolar?
Respiro fundo… a introspetiva cafeinada conta-me coisas e empurra-me ao passado. Tropeçando em álbuns, CDs e posters enquanto caio. Surdo[5] da música e deitado sobre túmulos de “playlists” esquecidas[6]. Levanto-me do fundo da memória e apercebo-me de onde me meti. O Cemitério de Sons Esquecidos… aqueles sons ou músicas que ouvimos, paramos e depois de umas caretas damos numa de eureka à desenho animado. Pois, esses.
Porque apesar da música acalmar ou avivar, não é o único som que nos desperta atenção. Pode igualmente ser um barulho estranho a conduzir, um riso característico de alguém e também o maldito alarme do despertador. Portanto, talvez uma pergunta mais acertada seja, que som? Ainda mais acertada, se nos sentirmos especiais, será Quid Sonus?
O acelerar para fora de uma curva, esse som, esse crescendo. Atravessou-me de manhã e já o tinha esquecido. Enquanto ouvia “(Don´t Fear) The Reaper” dos Blue Öyster Cult[7], uma música que implora para não temermos a morte. Tudo nas nubladas estradas da Nacional 16 (Guarda-Lajeosa). Cada um destes sons que se entrelaça na mente como a estrada à montanha. E cada apertado sentir como as curvas… pelo medo de cair vale abaixo. Até se contorcer a estrada em reta e o susto em eufórico sorrir.
Indo ainda mais fundo. Não está em causa este ou aquele som, que raios, que sentir é este? E assim, como gota a gota que finalmente transborda furiosa, percebi. Não estará em questão cada música, lugar ou dor em si. Estará em questão como as mãos e pés dançam as colinas da Estrela, nesta pista de cinza-escuro como as paisagens ardidas. Essa sintonia dos sentidos. Do ouvido com a perceção das rotações, ao antecipar da curva que os olhos acautelam. Do leve degradé dos pés ao travar e assim que os outros sentidos confirmarem, a pintarem a icónica “racing line[8]” da estrada aos lábios do condutor.
Esta assombrosa totalidade é o que procuro reviver nestas “Sands of Sound”, desde pequeno, agarradinho aos Headphones. A avassaladora conformação de cada sentido à tarefa em questão, seja ela escrever este texto, seja ela conduzir através das memórias ou, simplesmente, amar.
Com um relance à ampulheta, vejo que está quase na hora. Revirado e abanado da queda pelas memórias fora, levanto-me do sonho. Abro os olhos. Ajusto o espelho e o assento. Rio-me. E preparo-me para sair da Serra da Estrela. Foi bom refletir em Paz. Giro a chave na ignição e desvaneço lentamente[9].
[1] Embora tenha começado este texto em março, ficou parado e estagnou. Só quando comecei a ouvir “Waterworks” de Bernth, do single do mesmo nome, repetidamente, é que consegui arrancar o resto do texto da imaginação, aqui está o link, https://youtu.be/V-uNAV7eFTA.
[2] No sentido da nota anterior, organizei as músicas que acompanharam este texto numa playlist do Spotify, aqui https://spotify.link/cZiWV4dLSyb.
[3] iPod Classic, 2007, https://imgur.com/a/btwl99T.
[4] “Relax, take it easy” do mesmo album, https://www.youtube.com/watch?v=RVmG_d3HKBA&ab_channel=MIKAVEVO.
[5] Avisos de volume em excesso tendo em consideração a saúde auditiva, https://imgur.com/a/pk3HiI8.
[6] 219 só no Spotify, por agora, https://imgur.com/a/o6mdiqC.
[7] Do álbum “Agents of Fortune, https://youtu.be/Dy4HA3vUv2c.
[8] https://drivingfast.net/racing-line/, “The racing line is the quickest route to drive any corner”.
[9] A ouvir “Mana” dos “Equilibrium, do álbum “Sagas”, https://www.youtube.com/watch?v=5DiJw9wIibw&ab_channel=BillMc7.