Florence in poetry, history and art (1913 - collection ticket 14783351983)
Florence in poetry, history and art (1913 - collection ticket 14783351983)
“Art & War: Conflict on Canvas Essay"
E Maria exclamou: “Olha, Pai, bois!”[1] – ao entrar na Cueva de Altamira, em 1879, e vendo as inúmeras pinturas rupestres que adornavam as paredesA1. Desde que a humanidade sobreviveu ao frio e no morno das cavernas fez arte, que se organizou em grupos, comunidades e, eventualmente, em Estados.
Através da arte sabemos o que era importante, pois foi o que se escolheu gravar na pedra e o que acabou por transcender os milénios. Esta relação entre escolha e importância na criação perdura até hoje na arte, sendo este papel de criar conferido ao artista.
Desde então, de uma forma quase institucional, o artista estaria ao serviço do Estado, da topografia e criação de mapasA2, à escultura de bustos de imperadoresA3, à pintura de retratos da realezaA4 e, sobretudo, ao registo das vitórias da naçãoA5, através da arte.
Em serviço desta glorificação e até fugindo ao ideal platónico, isto é, a ideia que a arte deve representar a realidade, o artista iria alterar a realidade que iria transpor de modo a deixar gravada a conceção desejada pelo Estado na história, porquê?
Perceção! O exemplo que materializa isto, nos termos da conferência e aqui reproduzido no anexo, é Napoleão a atravessar os alpes, porque andar de burro de carga e estar cheio de frio não enche ninguém de medo, mas um cavalo nobre e um líder determinado a atravessar os alpes, como Aníbal fez para aterrorizar Roma e como Carlos Magno fez para se tornar imperador, cujos nomes Jacque-Louis David ostenta nas pedras ao fundo do quadro, concretiza ideologicamente a revolução francesa e a sua vontade de se propagar por toda a EuropaA6.
Apenas quando o artista se torna independente do seu patrono é que vai ganhar reconhecimento quanto às suas criações individuais, as suas visões, interpretações e representações subjetivas da realidade. Ora, isto significou que o artista passou a poder criar arte antagónica aos desejos do Estado e, assim, o artista ganha soberania.
Assim, quando o Estado deixa de ter um monopólio sobre a definição da história, guerra e dos conflitos através da arteA7, começa também a perder controlo sobre o monopólio sobre o uso da força nas relações internacionais, pois, com o passar do tempo, passará a contender com atores antagónicos que não são Estados, mas são capazes de uso da força, de criar e destruir arte[2].
De tal forma que até através da arte exercem a guerra, este é o caso em Myanmar, onde devido à escassez de armas de fogo, através de equipamento de design e arte plástica, impressoras 3D, as forças que se opõem à ditadura militar, fabricam e desenham armas de fogo[3].
E mesmo que na guerra não se “dispare através de arte”, tão figurativamente, a forma e maneira como estes rebeldes se apresentam ao mundo e se fazem representar através de símbolos, bandeiras e hinos é arte na guerra. Ao aludirem a imagens reconhecíveis e revestirem-se de símbolos ideológicos permitem que o interprete consiga reconhecer, inferir e compreender a sua causaA8.
Concluindo, quando o artista se tornou independente ganhou liberdade de criação. Por sua vez, no vasto plano do que pode constituir essa liberdade de criação, o artista criou símbolos ideológicos com que se representar, desenhos e maquetes das armas a empenhar e inúmeras máquinas que elevaram cada arte ou manufatura artesanal à massificação industrial. Independentemente de estarmos a falar do artista que desenhou tanto o Porsche Tiger PanzerA9 e o Volkswagen BeetleA10, dos designs para armas de fogo feitas, quase totalmente, de plásticoA11, em Myanmar[4], ou de pequenos drones, que muito rapidamente passaram da cinematografia aérea ao papel de “porta-granadas”A12, na Ucrânia, apenas uma coisa é certa o papel do artista está sempre presente na guerra, seja a pintá-la, a desenhar as armas do futuro ou a empenhar as bandeiras de amanhã.
Anexo (correspondente aos A1-12 no texto 61): VER EM BAIXO! A VERSÃO EM PDF.
[1] GUINEA, Miguel Ángel García, “Altamira y otras cuevas de catanbria”, Madrid, 1989, SILEX Ediciones, ISBN: 9788485041343, página 15.
[2]https://www.nationalgeographic.com/history/article/150901-isis-destruction-looting-ancient-sites-iraq-syria-archaeology, “Here Are the Ancient Sites ISIS Has Damaged and Destroyed”, artigo que enumera mais de 14 localidades, na Síria e Iraque, onde vasta destruição de património cultural ocorreu.
[3] https://youtu.be/l0oXupwf2D4?si=bjCneSUfv8N7wG53&t=924, vídeo que retrata a utilização de uma arma de fogo feita quase inteiramente de plástico em Myanmar, cujo designer germano-curdo, Jacob Duygu, denominou de FGC-9 (Fuck Gun Control – 9 [9 milímetros, referente ao calibre de munição disparada]).
[4] https://twitter.com/jake_hanrahan/status/1468966318317531140, fotografia que retrata um soldado em Myanmar a segurar numa FGC-9 e https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/e/e6/FGC-9_Firing_Footage.webm, vídeo que retrata o modo de operação da arma de fogo.