"Selvportrett med sigarett" - Edvard Munch, 1895.
"Selvportrett med sigarett" - Edvard Munch, 1895.
“Cala-te e escreve”
Escrita é antes de mais, uma forma de expressão. Através desta atiramos pensamentos, empurramos para fora emoções e ainda disparamos absurdas quantidades de matéria aos exames – simples, parece-nos. E pode continuar a ser simples, no sentido em que meramente transmite o que pensamos, sentimos e o que nos valha. Mas pode ser tão mais do que isso, começando pelas palavras introdutórias, colocar-lhes-emos uns porquês e um único para quê.
Porque escrever não só transmite, elucida. Uma escrita clara e coerente, quer nuns apontamentos, quer num manual ou poema leva-nos além do escrito, elucida-nos quanto ao autor, porque até o maior dos fingimentos poéticos tem dificuldade em imitar compreensão… Porque quando compreendemos algo é sem esforço que o explicamos a uma criança, nem que seja por gestos e desenhos. Isto é surpreendentemente evidente quando pedimos a alguém, “posso-te ligar?” ou “prefiro falar em pessoa”, por que raios?! É claro como um relâmpago na noite escura.
A escrita manda ponderar. Se estamos emocionalmente dispersos e longe da paz, nem queremos escrever sobre isso. Se fôssemos escrever nesse momento, ia ser angustiante, impreciso e pior de tudo, ia doer… mas far-nos-ia pensar bem sobre o assunto, de modo a descrevê-lo – há aqui no meio uma belíssima tangente sobre o perfecionismo, se a nossa fidelidade (ao ideal) for alta demais é árduo trocar o que fazemos na realidade pelo quão belo era na nossa imaginação, será desistir de um final feliz?
Ah! Finais, colocar termos às coisas. Acredito profundamente escriturar funerais, nada além, nada menos. Este ano morreu família, ardeu onde vivi na Serra da Estrela e mil outras facadas que não tiveram, nem devem ter tempo de antena. Porquê? Porque o X marca o lugar. Tinta no papel e tudo deixo, enterrado e em paz… morreu ponto
Porquê? Por mais miserável que estejas, escreve. O teu cansaço e memória cicatrizada são pesos encadeados. Escreve, afunda esse caixão, e não te tentes a nele adormecer. Se não consegues escrever, sabes o que tormenta? Tens de descobrir. Amputar pela raiz e despejar um bom lote de lixívia onde estava o teu aparente tumor.
E a partir do momento que podes escrever e realmente agarras o que te agarra, consegues sentir e lentamente escrever em detalhe, o porquê de algo te tocar de tal maneira – isto é voltar ao escrever-compreender para rasgares a complexidade daquilo que morde, espero que sorrias na luz do teu túnel.
Lavra terreno, semeia escrita e espero que consigas resolver o teu problema, caso contrário podes precisar mais do que café e autoanálise. Isto não é terminal – falo por mim à procura de ajuda. Pode ser um caso onde sabes exatamente aquilo que te tormenta, mas não o podes alterar ou sentes-te longe da força para decidir sobre isso. E mesmo aqui vem a escrita como cavaleira da salvação. Quer te ice velas para navegares a risco próprio e encarnares as tuas próprias consequências ou te alivie, ilumine e te convide surfar em calmas praias … escreve!
Porquê? Porque a escrita torna-nos mais precisos, não só na maneira como escrevemos, mas no pensamento, fala e o que daí deriva, ação. Uma pessoa assevera e melhor executa uma carta de amor ou sentença judicial. Todos pensamos, todos rebolamos na cascata de pensamentos inacabados, malformados e nem sequer convidados para os nossos dias e a escrita vai polindo-nos. Vai polindo até ir atenuando os brutos cortes que nos moldaram até aqui! Vai polindo e polindo e polindo até restares tu.
Porque paras para escrever, para ver se viste e para ires ver como vais viver.
Para quê viver se não escreves?