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psicologiarogeriogoncalves - 17 de abr. de 2023 - 6 min de leitura
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“As pessoas têm complexos da mesma forma que os
complexos podem nos ter.”
Jung
Há momentos em nossas vidas em que, empolgados, podemos comprar uma roupa na loja e depois em casa perceber que não era essa roupa que queríamos. Em outra ocasião, podemos comer uma comida que sabíamos que faria mal e ela realmente causar mal-estar. Há outros momentos, no convívio social, sem saber o porquê, não vamos com a cara de fulano ou sicrano, sem, ao menos, termos conversarmos com eles! Outras vezes, acordamos várias vezes na noite com preocupações nos martelando, palavras que “zunem” em nossos ouvidos e não conseguimos nos livrar. Nos piores momentos, palavrões explodem de nossa boca na direção das pessoas que amamos e até nos vemos a brigar fisicamente com um amigo por causa de política ou futebol! Quem já não tropeçou várias vezes no mesmo dia? Ou gaguejou na frente de alguém que acreditamos ser importante, ou a tremer na rua ao vermos alguém que acreditamos ser “suspeito”? E ao pensar sobre tudo isso, agoniados e perplexos nos perguntamos: Por que agi dessa maneira como se fosse outra pessoa?
No dicionário Michaelis[1] o adjetivo complexo significa:
· Que encerra muitos elementos ou partes, de difícil compreensão.
· Que pode ser considerado sob vários pontos de vista.
· Que envolve relações de coerência duvidosa.
Na psicologia
· Sistema de ideias associadas que podem fazer com que o indivíduo pense, sinta e aja de acordo com um padrão definido segundo a teoria de Carl G. Jung (1875-1961).
· Aglomerado de ideias estruturadas, relacionadas entre si, caracterizadas pela forte carga emocional e determinantes na atitude comportamental de um indivíduo.
Em um estudo experimental, Jung usou um instrumento psicogalvânico eletromecânico que media correntes eléctricas de baixa intensidade, com a técnica de associação de palavras (inventado por Francis Galton e revisto por Wundt; depois adotado por Jung e Bleuler [2]), conseguiu demonstrar a existência dos complexos. Com eletrodos conectados nas mãos do “sujeito experimental”, eram pronunciadas palavras aparentemente “vagas, ambíguas” como, por exemplo, faca, sangue, casa, dragão, maçã, pedra. As respostas dadas pelo sujeito eram somadas com o seu tempo de resposta e unidades de medida do psicogalvânico. As palavras estimulavam o estado psíquico do sujeito, causando comportamentos diversos, como indagações, dificuldade em responder, risos, raiva, entre outras reações distintas.[3]
Teste de associação de palavras no filme “Um método perigoso”, direção de David Cronenberg.
Jung percebeu que as palavras realmente incitavam conteúdos psíquicos com importância energética, chamados de complexos.[4] Com os estudos experimentais e um vasto trabalho empírico com seus pacientes, ele denotou que o complexo é um fator psíquico, conectado à experiência da pessoa e que possui muita energia “que supera, às vezes, nossas intenções conscientes, ”[3] pode nos levar a fazer escolhas erradas, a endividar-nos ou apaixonarmos pela artista de cinema; algo faz por nós, por conter vontade própria, coloca em nossa boca palavras que “ mais tarde não será capaz de recordar. ”[3]
“O complexo é constituído por um fator determinado pela experiência e por disposições internas e imanente ao caráter do próprio indivíduo. “[4]
Nossa experiência de vida, consciente ou não, são afetadas pela nossa história familiar, por questões de ordem pessoal e por fatores sociais. Nesta interação, são gerados conflitos, mas também aprendizados que sempre estão se atualizando. Nossa experiência é narrada, relembrada e sonhada. Quando reprimida, ignorada, ela se torna um prejuízo e combustível para o complexo.
Contudo, o complexo (como qualquer energia psíquica) não é somente danoso, Jung explica que, “é dos complexos que depende o bem-estar ou a infelicidade de nossa vida pessoal”; “os complexos não são totalmente de natureza mórbida, mas manifestações vitais próprias da psique, seja esta diferenciada ou primitiva”[3] e estão “frequentemente em nossos sonhos”.[5]
É possível “reprimir o complexo, mas é impossível negar sua existência, e na primeira ocasião favorável ele volta à tona com toda a sua força original”.[3] Ele pode voltar com força após uma ferida psíquica gerado por um trauma, um conflito pessoal, podendo gerar, crises nervosas, ideias persecutórias, fobia, despotismo, ódio maníaco, entre outras dissociações psíquicas.[3]
O complexo como fator energético pode induzir a tensão que, mesmo em estado de relaxamento pode deixar marcas mais profundas do que mostrada nas fotos acima.
Em se tratando do indivíduo, Jung também concebe o “eu” como um complexo do eu. “O eu constitui um complexo psíquico solidamente constituído”[3], dotado de energia e “quase não há diferença entre complexos ou complexo do ego”.[5] O eu como complexo se deve a sua constante interação e mudança com o mundo interno e externo, interação esta que muitas vezes flutua entre "bons" ou "maus" momentos.[3]
Antigamente a identificação com um determinado complexo era sinônimo de possessão. Entre os primitivos a crença de sua manifestação estava ligada a um “resíduo do estado de espírito primitivo” e as dissociações se davam por que a pessoa continha “várias almas, ou seja, um número infinito de deuses e espíritos”. [3]
Em relação à crença nos espíritos (que, para Jung, era uma questão que precisava ser muito debatida), estes são “complexos inconscientes autônomos que aparecem em forma de projeção, por que, em geral, não apresentam nenhuma associação direta com o eu. ” [3]
Não irei prender-me ao famoso conceito de complexo de Édipo de Freud, cito apenas trechos escritos por Jung:
“A escola psicanalítica descobrimos que a fantasia mais frequente da infância o chamado complexo de Édipo. Esta terminologia parece totalmente inadequada, sabemos que o trágico destino de Édipo consistiu em casar com a mãe e matar o pai. O que parece aos olhos do adulto como trágico conflito está longe de sê-lo para psique da criança; é inconcebível para o leigo no assunto que a criança tem um conflito desses. ”[6]
“Naturalmente a mãe não tem nenhum significado sexual para criança nesta terra idade; e por isso o termo complexo de Édipo é inadequado. Nessa idade a mãe tem o sentido de ser um protetor, acolhedor e nutriente e, como tal, fonte de Prazer. ”[6]
“A escola freudiana estacionou no tema de Édipo, isto é, no arquétipo do incesto, e desta forma num conceito preponderantemente sexualista, sem reconhecer, absolutamente, que o complexo de Édipo é um assunto exclusivamente masculino, que a sexualidade não é o único fator dominante no processo psíquico, e que o incesto, devido à implicação do instinto religioso, é muito mais uma expressão deste do que, ao contrário, a sua causa. ”[7]
Caso interessa-lhe, leia o capítulo sobre o complexo de Édipo no livro – O pai e a psique de Alberto Pereira Lima Filho - ou, livros de Freud e seus adeptos.
A autoridade intelectual não é suficiente para lidar com o complexo. É preciso “abrir mão de fixações infantis e adaptar-se ao ser adulto consciente das suas responsabilidades”, ter a maturidade (sentimento, pensamento, sensação e a intuição em conexão) para distinguir e delimitar as manifestações psíquicas e relacionadas entre si de maneira adequada.[8] Como os complexos não são apenas prejudiciais, eles são de extrema importância, pois “são manifestações normais da vida”, como o que ocorre nos fenômenos artísticos e rito religiosos de fé e conversão religiosa.[3] Até os nossos sonhos são considerados complexos, por serem autônomos em nós.[3]
“Os complexos, responsáveis pelos sonhos e sintomas, ” são o caminho primordial que nos conduz ao inconsciente”,[3] lidar com os complexos sem negar, sem tratá-los como inimigos, não reprimir ou rebaixá-los, requer arte, mudança de atitude nem sempre prazerosa, um trabalho adequado e força egóica para aguentar com aspectos viciantes que fascinam (ilusão de poder, de autocontrole).[9] São empenhos que sozinho é muito difícil de alcançar bons resultados.
Estar em análise psicológica, para trabalhar suas próprias questões, saber lidar com seus sonhos de forma criativa e intuitiva, pode fazer " o fluxo interrompido do desenvolvimento ser retomado.”[10] Portanto, um complexo pode passar de invasor para se tornar algo de um convívio mais amistoso.
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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
[1] WEISZFLOG, W. (Consultoria editorial). Michaelis Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa.
https://michaelis.uol.com.br/busca?r=0&f=0&t=0&palavra=complexo
[2] STEIN, M. O mapa da alma: uma introdução.
[3] JUNG, C.G. A natureza da psique.
[4] JUNG, C.G. A energia psíquica.
[5] JUNG, C.G. A vida simbólica. v.1
[6] JUNG, C.G. Freud e a psicanálise.
[7] JUNG, C.G. UM MITO MODERNO SOBRE COISAS VISTAS NO CÉU.
[8] JACOBI, J. Complexo arquétipo símbolo na psicologia de CG Jung.
[9] MAGALD, W. O Complexo Oppositorum da Natureza da Psique - A relação entre Cérebro e Psique.
https://blog.ijep.com.br/o-complexo-oppositorum-da-natureza-da-psique/
[10] MARTINEZ, M. Afetos, complexos e símbolos https://blog.ijep.com.br/afetos-complexos-e-simbolos/
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