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psicologiarogeriogoncalves - 22 de mar. de 2023 - 9 min de leitura
“O que vem a ser um sonho?
Por que sonhamos? Eles são importantes?
- Eu nunca sonho.
- Não gosto de sonhar.
- Sonhar é um negócio esquisito. ”
Quem nunca ouviu algumas destas frases quando os assuntos são sobre os sonhos?
Muitas vezes em nossos sonhos (ambiente interno) ocorrem cenas sem concordâncias, surgem pessoas desconhecidas, imagens aleatórias e surreais. Contudo, no mundo externo existem objetos pouco habituais. Ou, estas imagens, foram feitas por artistas?
Água-viva (fonte: Administração Oceânica e Atmosférica Nacional)
Hidromedusa (fonte: Administração Oceânica e Atmosférica Nacional)
Dragão-marinho
Flor-morcego
Primeira imagem divulgada do telescópio James Webb, o registro mais profundo do Universo, há 4,6 bilhões de anos - Nasa/Reuters
As imagens acima são imagens reais tão estranhas e facinantes, tão reais quantos os sonhos.
No mundo externo também pode ocorrer fatos que lembram pesadelos, como o sofrido por agricultores com as chuvas de gafanhotos em 2020, no início da pandemia do coronavírus.
Surto de gafanhotos em junho de 2020 Foto: Flickr/Wild Center
Imagem que nos fazem lembrar a praga bíblica no antigo Egito na época de Moisés. Sem falar do estrago de várias proporções que a Covid-19 nos causou. Quem imaginaria o fechamento de centenas de cidades, de lojas e de escolas?
O que quero dizer com estes exemplos é que, os fatos reais também podem ser incompreensíveis como os sonhos e que tudo tem a sua realidade, quer aceitamos ou não.
No que diz respeito ao sonho, dormimos e, momentos depois surge uma história em que, ou somos algum personagem, ou nós mesmo, ou apenas espectadores. Ao acordar, podemos esquecer o que sonhamos por estarmos presos aos problemas do dia a dia, ou ficamos na tratativa em decifrá-los, ou nem ao menos o atribuímos relevância. Ao querer “decifrar” um sonho, alguns recorriam, ou ainda recorrem, aos livros de sonhos antes vendidos em bancas de jornais, hoje existem milhares de site sobre o assunto, mas, de um modo geral, leem o significado de algo como se fosse verbete de um dicionário. Será que esta atitude basta? Se você sonha com um cachorro, depois alguém lê num dicionário e diz-lhe que o cão simboliza amizade, companheirismo, portanto, é bom você ter sonhado com um cachorro. Mas, você tem medo de cachorro por que já foi mordido por um e levou cinco pontos na coxa?
O melhor início é perguntar para si próprio sobre o que sentiu diante do sonho, por que sonhou com um cachorro, é um alerta para mim? Saber somente o significado de algo num dicionário de sonhos ou num livro de psicologia não basta.
Realmente é difícil entender os sonhos, segundo James Hall, o ego tem sempre uma visão restrita dos fatos, ao passo que o sonho manifesta uma tendência para ampliação do ego.[1]
Nos dizeres de Jung: “A compreensão não é somente por meio intelectual... Mesmo coisas incompreendidas podem influenciar e até convencer... Basta lembrar a eficácia dos símbolos religiosos ”.[2]
“Temos a ingenuidade em supor que o mundo é tal como vemos da mesma forma que acreditamos que os seres humanos são tais como os figuramos. A imagem que temos dos outros é subjetiva (sempre descrevemos o que percebemos de algo e nunca é uma descrição real), assim como, uma amizade íntima nem sempre é garantia de que o conhecimento que temos a seu respeito seja verdadeiramente objetivo”.[2]
“Devemos entender que os símbolos do sonho são, na sua maioria, manifestações de uma parte da psique que escapa ao controle do consciente”,[3] por ser, “não-dirigido, não-verbal e associativo”.[4]
Para decifrar os sonhos é importante estudar, símbolos, diversas culturas, mitologia comparada, artes e diferentes outros estudos. Entretanto, é preciso integrar a nossa experiência de vida, a nossa intuição, os nossos sentimentos, as nossas idiossincrasias, tentar casar, unir tudo, sem perder a imagem que sonhou.
“A psicologia onírica nos abre caminho para uma psicologia comparada geral da qual podemos esperar que resulte uma compreensão do desenvolvimento e da estrutura da psique humana, análoga a que a anatomia comparada nos trouxe com relação ao corpo humano”. [2]
Jung cita Nietzsche: “ O pensamento onírico é uma forma filogenética anterior de nosso pensamento “ (Nietzsche apud JUNG, C.G. A natureza da psique).
Esta frase de Nietzsche significa que sonhar vem de uma evolução ancestral, muito antes do ser humano ter um raciocínio lógico apurado, antes mesmo de falarmos, “eu sou”. Sendo assim, os sonhos seguem uma lógica arcaica, se comportam “por meio de parábolas ou linguagem simbólica… uma característica das línguas primitivas”. [2] Vale lembrar a Bíblia, será que ela teria a importância que tem, se não fosse escrita por meio de parábolas e símbolos? Não dizem que Deus escreve certo por linhas tortas? Assim são os sonhos, e quanto menos se sabe o seu significado, quanto mais o evitar, menos conheceremos a natureza humana, mais sombria o sonho é (assim como personagens que desconhecemos em nossos sonhos que representam os aspectos do arquétipo da sombra em nós - leia meus artigos anteriores sobre o arquétipo da sombra).
“ Os sonhos…são fenômenos naturais, que não constituem nada mais do que aquilo mesmo que representam. Não enganam, não mentem, não distorcem, não disfarçam … Apenas nos molestam e desorientam porque nós não os entendemos”. [5]
O ser humano se atém aos sonhos desde tempos remotos. Verena Kast nos informa que a Grécia antiga tinha 300 templos para o deus Asclépio da arte da cura, que pessoas na busca de um sonho curativo se submetiam a uma cerimônia de purificação. Contudo, era necessária a familiaridade com os relatos de sonhos e histórias de cura. Vale mencionar que até Platão e Pitágoras falaram sobre os sonhos, afirmando que “o sonho revela a verdade sobre a alma”.[6] Franz também menciona sobre a importância dos sonhos: “Os sonhos não nos protegem de doenças e eventos dolorosos. Mas, eles podem nos ajudar a encontrar um sentido em nossa vida, a cumprir o nosso próprio destino, como seguir nossa própria estrela, por assim dizer, a fim de realizar o potencial de vida que há em nós”.[7]
No livro “A Natureza da psique” (livro este de maior referência neste artigo), Jung explica que podemos usar dois pontos de visão para trabalhar com sonhos:
A visão de causalidade (o que causou o evento, o problema).
A visão de finalidade (qual a função, a finalidade de tal evento ocorrer). [2]
No mesmo livro, Jung cita o exemplo de um jovem que sonha ao passar por uma macieira e antes de olhar para uma maçã, certifica-se de que ninguém está por perto o observando. Associando a imagem com sua vida, o jovem se recorda de já ter roubado uma fruta quando criança. Depois, diz ter se encontrado, dias antes do sonho, com uma conhecida e conversado com ela. Porém, a passar por eles um conhecido, o jovem fica consternado como se tivesse cometido um delito. O jovem associou a maçã com o tema do paraíso cristão, mas nunca aceitou a ideia da punição cristã, achando-a injusta. Com a menção a punição cristã, relatou que nunca soube o porquê de seu pai o ter castigado quando criança. [2] As associações do jovem se estendem, mas, encerro por aqui. Jung informa que, na visão de causalidade (muito bem trabalhada por Freud), no caso o sonho do jovem acima, o que causou a imagem onírica foi devido a uma questão de culpa com teor sexual, com uma moralidade imposta desde a sua infância (portanto, carregada de conflitos), cheia de desejos que foram simbolicamente recalcados. [2] Na visão de finalidade, considerada por Jung, a interpretação é outra, todavia, sem excluir a visão de causalidade. Questões que surgem são: “Para que serve este sonho? Que significado tem e o que deve operar? ”. [2] Tendo em mente o elemento sexual na associação com o sonho, Jung deduz que o jovem em questão representa suas experiências eróticas como “faltas”, por que da mesma forma que o rapaz achava injusta a punição e não compreendia os castigos que seu pai lhe dava, o jovem não tinha consciência que a sua conduta moralista o levava a cometer atitudes erradas. Ele poderia se sentir culpado, mas o que o sonho revelou era que sua atitude moralista estava lhe causando problemas, ele se punia em sentir desejos sexuais por uma mulher. O jovem estava, portanto, atrelado ao comportamento cristão e paterna com a ideia de punição e que esse comportamento era o que ele teria que mudar em si.
Lidar com os sonhos também envolve na nossa própria mudança em agir no mundo, em pensar o mundo. Para seguir na mudança não adianta somente saber, intelectualizar a questão, é necessário sentir a importância que as questões oníricas nos trazem e o porquê disto. Trabalhar os elementos dos sonhos com a visão causal e de finalidade, ou seja, procurar saber os motivos que causaram a cena onírica, o porquê de determinada imagem, tema surgir, o que ela quer nos dizer, pode nos induzir, não somente a compreensão do que causou sonhar tal evento, mas a ação [2], a uma mudança de comportamento ligado do “eu sei”, para o também “eu faço”. Eu faço, eu mudo de atitude, sinto a importância do que o sonho me traz.
Seguindo o livro “A Natureza da psique”, na tentativa em discriminar os sonhos, elas podem ser (dentre múltiplos exemplos) do tipo: · Compensatória - visa na autorregulação, no equilíbrio, complementa o que falta ou reduz (redutivo) o comportamento exagerado. · Prospectiva - uma antecipação, uma preparação ao que virá (óbvio que só saberemos que o sonho diz sobre o futuro quando este se realiza). · Reativa - reação devido a um trauma. Se apresentam no nível: · Do sujeito - sonhos com traços da personalidade do próprio sonhador. · Do objeto - traços da personalidade da personagem do sonho.
Vale saber que, começamos a compreender os sonhos em conjunto com uma sequencia de outros sonhos. Compreendemos os sonhos não de forma isolada, mas sim, quando estão seriadas, “em que os sonhos posteriores vão corrigindo as incorreções cometidas nas interpretações anteriores. Também é na série de sonhos que conteúdos e motivos básicos são reconhecidos com maior clareza”.[8]
Nos sonhos “médios” (de temática comum, ao contrário dos grandes sonhos de ordem mitológica), a sua estrutura é similar de um drama: · Primeira fase - exposição. · Segunda fase – desenvolvimento da ação. · Terceira fase – culminação ou peripécia (aqui a situação muda inteiramente). · Quarta fase – lise, a solução ou resultado (há sonhos que faltam esta fase, ou por que o sonhador não se lembra do sonho, ou algum fator neurótico, ou por ter acordado bruscamente, interrompendo assim o desenvolvimento do sonho. Pode-se concluir o sonho com o método da Imaginação Ativa adotada por alguns psicólogos). No dicionário de símbolos (um excelente dicionário) de Jean Chevalier e Alain Gheerbrant, os sonhos podem ser do tipo: · Proféticos ou didáticos – como um aviso do que pode acontecer. · Iniciatório – que destina alguém a ser um líder (espiritual). · Telepático – comunicação com pessoas através do sentimento e pensamento. · Visionário – elevação em um nível de consciência encontrado nas pessoas sábias que têm não presságios, mas visão. · Mitológico – ligados não só a sonhar com personagens da mitologia, mas algo que reflete “angústia fundamental e universal”.[9]
Por fim, para quem ambiciona trabalhar os próprios sonhos a sugestão é :
Fazer o trabalho junto com um psicólogo apto que tenha o cuidado e a experiência no trato com o assunto.
Evitar ser enganado por preconceitos ou achismos de pessoas pouco instruídas no assunto.
“Decifrar” os sonhos é como aprender uma linguagem estrangeira e arcaica, que só um perito é capaz em ajudá-lo a traduzir.
Termino este breve trabalho com as declarações do neurocientista Sidarta Ribeiro que faz pesquisas sobre o sono, o sonho e a memória:
"À medida que a vida humana tornou-se progressivamente mais fácil e mais complexa, com o desenvolvimento da cultura e seus confortos, os sonhos perderam muito de seu poder de previsão, adquirindo um repertório simbólico muito diversificado." [10]
"Os sonhos por vezes predizem muito precisamente os acontecimentos futuros. Esse é um fenômeno raro na sociedade humana moderna, mas adivinhos de sonhos desempenharam um papel histórico importante nas civilizações da Antiguidade. [10]
“Sonhar recruta áreas cerebrais relacionadas com empatia, vale dizer, nossa melhor natureza, capaz de contrabalançar as inclinações violentas igualmente herdadas da ancestralidade humana. [11]
Dicas de leitura
BOSNAK, R. Breve curso sobre sonhos.
FARIA, D.L; FREITAS, L.V;
GALLBACH, M.R (organizações).
Sonhos na Psicologia Junguiana. JUNG, C.G. Ab-reação, análise dos sonhos e transferência.
SANFORD, J.A. Os sonhos e a cura da alma.
“Envolve-me em teus braços, Eis aqui a profundidade, Envolve-me na profundidade, Se agora te recusas…” “Envolve a criança nas dobras do teu manto, sonho sublime.”
Franz Kafka – Sonhos - (Tradução - Ricardo F. Henrique)
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