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psicologiarogeriogoncalves - 27 de set. de 2022 - 6 min de leitura
Escutar é diferente de ouvir
Podemos encontrar nos dicionários que, escutar é uma ação com a pretensão em assimilar o que está sendo dito, enquanto que, ouvir é um processo mecânico que independe da vontade.
Uma pessoa em que você confia pode, muito bem, escutar os seus problemas, as suas aflições, acolhê-lo e até dar sugestões. No entanto, um profissional com conhecimento e técnicas nas questões humanas é quem pode lhe ajudar na melhor condução de questões de que tanto necessita. O psicólogo, por exemplo, trabalha a “Escuta pautada no cuidar e, sobretudo, pautada em promover um espaço em que o próprio usuário cuide de sua condição existencial. ” [i]
A escuta é parte essencial do atendimento psicológico que envolve a relação terapêutica (procedimento dialético entre duas pessoas, ou seja, dois sistemas psíquicos, com objetivo que visa a novas sínteses, um procedimento que envolve o psicólogo e a pessoa em análise e ambos se transformam)[ii], e “cabe ao psicólogo observar, perceber, escutar com tranquilidade, aproximar-se sem ser coercitivo, inquiridor, todo-poderoso. Somente assim se criam o silêncio necessário e o espaço para que o paciente revele sua intimidade, ou senão, denuncie os aspectos incoerentes e confusos de seus conflitos. ” [iii]
[i] DANTAS, J. B.; DUTRA, A. B.; ALVES, A. C.; et al. Plantão psicológico: Ampliando possibilidades de escuta.
[ii] JUNG, C.G. A prática da Psicoterapia.
[iii] CUNHA, J.A.; et al. Psicodiagnóstico-V
Quando Jung atendia seus pacientes, eles lhe relatavam seus sonhos e faziam associações. Jung elaborava ou desenvolvia as imagens que surgiam, deixava “a fantasia deles trabalhar livremente, respeitando o gosto ou os dotes pessoais cada um. Podiam fazer de forma dramática, dialética, visual, acústica ou em forma de dança de pintura de desenho ou de modelagem. O resultado dessa técnica era todo uma espécie de produções artísticas complicadas que me deixou confuso durante anos até que tivesse em condição de reconhecer que este método era a manifestação espontânea de um processo em si desconhecido sustentado unicamente pela habilidade técnica do paciente a qual mais tarde dei o nome de processo de individuação”.[i] Ao expressar o que não consegue dizer em palavras, pode aliviar as tensões, colocar uma forma nas emoções, até dar nomes a ela; por um pouco de ordem no caos interno, se conhecer em profundidade e começar a se preencher num sentido para a vida, podendo se sentir completo, integral.
Como citado acima, com o processo dialético diante de um sonho, também é um recurso importante e comumente utilizado, que somado à personalidade de cada pessoa, as propostas em cada sessão clínica podem ser únicas e importantes.
Friso aqui que, individuação difere do individualismo. O primeiro se integra também na vida social e vai além de se tornar consciente,[i] enquanto que, o segundo perde empatia na relação com as pessoas, como bem ensinou Jung e outros grandes estudiosos.
Sobre Individuação confira o Glossário do livro Memórias, Sonhos, Reflexões. Há um apêndice em Senhor dos Mundos Subterrâneos- Jung e o Século XX de Colin Wilson.
[i] JUNG, C.G. A Natureza da Psique.
A arte nos acompanha desde sempre, está na natureza, em nossos ancestrais e na nossa vida cotidiana. Não precisamos pensar somente nas Artes Plásticas, no Teatro, na Dança, há arte numa boa conversa, na contemplação do voo dos pássaros, nas crianças brincando, numa refeição com pessoas queridas. Arte é atitude.
A arte, como processo psíquico de criação, segundo Jung, “resgata à luz da consciência imagens primordiais”, para assim, serem “elaboradas e formalizadas na obra acabada”.[i] Ela nos incita, a ver e agir no mundo (externo e interno) sob diferentes óticas, a romper padrões existentes, influencia nossa vida. No ponto pessoal, ela é geradora de transformação. A Arte é uma “autorreguladora espiritual na vida, das épocas e das nações”.[i]
Jung nos ensina que a obra de arte “é beleza e nisso se realiza, se basta a si mesma. Ela está ligada ao mistério da vida .[i]
Ela também tem um significado social: “ela trabalha continuamente na educação do espírito da época, pois traz à tona aquelas formas das quais a época mais necessita”. “É o modo de compensar de modo mais efetivo a carência e a unilateralidade do espírito da época”.[i]
[i] JUNG, C.G. O Espírito na Arte e na Ciência.
Freud tinha formação como neurologista e Jung trabalhou em hospital psiquiátrico Burgholzi, em Zurique. Jung trabalhou pontos da psicanálise por alguns anos, apesar de divergir em algumas ideias de Freud.
Marie-Louise von Franz, escreveu em seu livro – C.G.Jung - Seu mito em nossa época, que Jung já tinha as suas próprias convicções profissionais antes de conhecer Freud. “O que os uniu foi o reconhecimento comum do inconsciente como realidade psíquica fundamental, empiricamente demonstrável”.[i] A separação entre eles iria acontecer, pois, “Freud se concentrava no fundamento físico e biológico do inconsciente e na explicação causal das manifestações” ,[i] nesse interim, Jung “concebia a psique em termos de polaridade”[i] (por exemplo, onde há luz há sombra; o feminino e o masculino, o positivo e o negativo, entre outros), “unia aspectos biológicos com o espiritual (sobre o termo espírito, conferir: C.G. Jung – A Natureza da Psique; cap XII) ou cultural, pois, pertencem à própria natureza do inconsciente e a explicação causal devia ser esclarecida pela explicação final”[i] ( Explicação final se refere a finalidade - para quê? Por quê? - da manifestação psíquica, o que ela quer, como num processo dialético com perguntas que visa a conhecer algo).
Nos anos de 1905 Jung tratou com sucesso uma mulher que apresentava quadro de neurose obsessiva inspirado no trabalho de Freud – Fragmento de uma análise de caso de histeria. Depois disso e ao ler “A interpretação dos sonhos ” (a primeira vez em 1900, sem muito compreender, depois em 1903), iniciou correspondências com Freud.
Foram muitas cartas, que marcaram a vida dos dois. Freud já nas primeiras cartas expôs o seu posto: escreveu a Jung que este iria “corroborar e não completar” (com a Psicanálise), deixando claro a relação almejada: “a de líder/discípulo”;[ii] Freud encontrara o que necessitava: um não judeu de renome para transpor a cultura da Psicanálise, um famoso professor e estudioso no teste de associação de palavras.
No primeiro encontro, no apartamento de Freud na Bergasse 19, conversaram por treze horas. Jung falava sem parar, enquanto que, Freud o escutava, mas em uma oportunidade Freud implorou para Jung:
“- Prometa-me uma coisa: procure a sexualidade! ” [ii]
Jung ficou consternado pelo tom mítico e apaixonado de Freud, era como um pai aconselhando o filho a ir à missa e celebrar a comunhão (como relatou Jung depois). Numa relação neurótica, em que, um necessitava de um pai, enquanto que, o outro de ‘pessoas a doutrinar’, a relação entre os dois seguiu. Em diversos congressos Jung foi o defensor das ideias audaciosas de Freud, o seu livro The Psychology of Dementia Paecox publicada em 1906, mostrou sua dívida com Freud, ao mesmo tempo, em que, suas próprias ideias estavam a aflorar. Sobre a teoria sexual infantil de Freud, Jung concordava sobre a gênese da histeria, no entanto, acreditava que não fosse exclusivamente sexual. Entre os anos de 1907 e 1912, Jung praticou psicanálise, sendo convidado a editor de periódicos e foi presidente da Sociedade Internacional de Psicanálise até 1914. As divergências de ideias entre os dois surgiam sem maiores efeitos no início. Mesmo conhecendo as intransigências do mestre da Psicanálise, Jung acreditava que poderia agregar suas ideias em construção com as de Freud. Todavia, após a sua obra “Símbolos da transformação, a primeira parte em 1911-12, onde expõe pesquisas sobre mitologia e lendas universais, atestando empiricamente que as ideias de Freud sobre a sexualidade eram limitadas e que não eram a única condição primária para as disfunções mentais, o abalo entre os dois foi forte, Freud começou a ser cordial nas últimas cartas em que escreveu à Jung, Emma a esposa de Jung, intermediou a relação dois até o rompimento sem volta”. [ii]
Jung escreveu após anos de rompimento:
“ Eu sabia de antemão que o capítulo ‘O Sacrifício’ me custaria a amizade de Freud…Durante dois meses não consegui escrever, de tal modo que me sentia atormentado por esses conflitos…Finalmente decidi escrever”.[iii]
Depois da ruptura com Freud, Jung iniciou um período intenso de isolamento, mesmo contra a vontade, para adquirir uma nova atitude através do confronto com o inconsciente .[iii]
Ele “se preparava para abandonar o velho Jung que os freudianos estavam atacando, e transformar-se em outra pessoa ”.[iv] Cujas lesões o enriqueceu em muito.
[i] VON FRANZ, M.-L. C. C.G.Jung - Seu mito em nossa época.
[ii] BAIR,D. Jung: Uma biografia; v.1.
[iii] JUNG, C.G. Memórias, Sonhos, Reflexões.
[iv] WILSON, C. Senhor dos Mundos Subterrâneos – Jung e o Século XX.
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