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psicologiarogeriogoncalves - 28 de fev. de 2023 - 5 min de leitura
No oráculo de Delfos celebra o seguinte lema: Conhece-te a ti mesmo.
No entanto, para seguir o que dita a máxima, é necessário vivenciar algo em nós, muitas vezes difícil de enfrentar, por conter aspectos não só desagradáveis como também sombrios.
No dicionário Larousse, o termo sombra consta como:
“Intercepção da luz por um corpo opaco; escuridão, trevas, noite; mácula, defeito; alma, espírito, visão; pessoa que persegue constantemente outra; o que perdeu o brilho; prevalência da tirania, do erro; solidão; mistério, segredo; disfarce”[i].
No dicionário de símbolos, Chevalier e Gheerbrant[ii] apontam que, no taoísmo, a palavra sombra está relacionada aos elementos do yin, o lado escuro, negativo, feminino, ligado às trevas[iii]. Em outro ponto, informam que para algumas tribos africanas ela é considerada uma “segunda natureza” e está ligada a morte e pode significar alma para algumas tribos na América do sul e do norte[ii].
Para Hall e Norbdy[iv], a sombra tem maior relação com o estado animal no homem do que na mulher, talvez devido à linhagem de caçadores, pelas quais o homem pertence.
Jung denota que o elemento sombrio do Arquétipo é dito como “obscuro”, aquele que quase ninguém quer ter contato[v], por indicar também as nossas fraquezas.
Rasche[vi] descreve uma hipótese imagética que talvez aponte sobre o início do receio do homem com aspectos da sombra. Ele imagina que os homens primitivos, quando ao redor da fogueira, viram nas paredes da caverna suas próprias sombras, ficaram horrorizados com os tamanhos descomunais e os aspectos demoníacos[vi]. Eles correram para fora da caverna como se a sombra fossem seus inimigos.
Mas quem consegue fugir da própria sombra?
As características encontradas no arquétipo da sombra estão em todo e qualquer indivíduo. Quanto mais indesejado forem os elementos da sombra e menor a capacidade a pessoa em se conhecer subjetivamente, maiores prejuízos terão com ela[vii]. Prejuízos como acessos à raiva, negligência, covardia, atitudes impulsivas[vii].
Marie-Louise von Franz[viii] completa que a sombra é em parte inconsciente pessoal e em parte coletiva, contendo também elementos desconhecidos do ego, que pode ser representada nos sonhos, nos mitos, como a pessoa do mesmo sexo[vii]. A função da sombra é mostrar a outra face do ego, aquilo que mais repelimos nas outras pessoas que só percebemos em nós quando em momento de dor[viii].
A falta de contato com nosso interior é como uma criança abandonada na floresta criada por feras. Ter contato, admitir nossa precariedade pode transformar o feio em algo atraente e benéfico.
Viver num canto extremo, somente num lado da balança, é como uma viver com hemiplegia (paralisia de um lado do corpo devido a um acidente cerebral). Nossa natureza não aceita viver na esquerda ou na direita, ela vive é no todo, no integral.
Os aspectos da sombra se apresentam, como Edinger indica, nos sujeitos com ego inflado. Projetam sua sombra no outro e se apresentam com atitudes exageradas, como comportamentos depressivos, ou excessivamente alegres (pessoas narcisistas, ou ansiosas, ou raivosas, ou intolerantes, etc). Estas pessoas possuem “um ego irrealisticamente amplo, vaidoso, presunçoso, que atribui para si qualidades acima de suas possibilidades”[ix].
A sombra também tem sua forma construtiva (em toda dinâmica psíquica abrange traços positivos e negativos). Jaffé[x] explica que, quando acarreta ao indivíduo em atuar no mundo de maneira não-submissa, evitando se autossabotar e permitir que suas próprias percepções se abrem, sua criatividade se potencializa. A pessoa flui melhor diante dos estímulos internos e externos, inicia-se, então, o processo de aceitar quem realmente somos[x]. Um verdadeiro encontro com nós mesmos, sem máscaras[xi].
O encontro com a sombra, é como uma dança de casal[xi], uma arte dinâmica nos incitando a transformação. Não devemos temê-la, devemos honrá-la[xi].
A serpente, por exemplo, não só está aliada ao mal, pois, também incita o indivíduo ao autoconhecimento[ix], a sair da inércia paradisíaca rumo ao desenvolvimento do indivíduo, a uma vida plena[vii], rica e criativa[iv], sem ficar preso à dogmas, padrões antigos, conquistar a liberdade para respeitar os outros e a si mesmo.
Não existe possibilidade de abandonar o arquétipo da sombra, por que ela vive dentro do nosso ser, jogá-la na rua como uma filha enjeitada, ou decepá-la como um membro externo do corpo é praticamente impossível. Segundo Jung, o termo sombra advêm da palavra grega synopados, “ aquele que segue atrás de nós”, portanto, o mais prudente seria que fossemos capazes de dialogar, suportar nossa própria sombra[xii]. Admitir que podemos ser mal (e não praticar o mal!), que a sombra faz parte da nossa vida[xiii], pode nos ajudar no processo de ampliação da consciência, por mais difícil e amarga que seja seguir esse caminho[xiii]. O trabalho psicoterapêutico (processo dialógico, investigação dos sonhos, de seus desenho, ou qualquer outra manifestação pessoal), laboração ligado às artes, a comunhão religiosa, entre outras modalidades, pode favorecer na atuação de confronto com elementos do arquétipo da sombra.
Antes de encerrar este artigo, lembro de Gilgamesh, o mesopotâmico herói salvador. Para salvar a sua tribo de uma maldição (há outras versões), ele vagara pelas noites[viii] à procura de seres capazes em ajudá-lo . No caminho ele se depara com um monstro, e se vira obrigado a lutar com esse ser. Brigaram ferozmente por horas, até que, cansados, iniciaram um diálogo, o monstro disse se chamar Enkidu (quando sabemos o nome de alguém, ou de algo qualquer, diminui a tensão, pode principiar uma aproximação, empatia ao outro e um diálogo construtivo). Do diálogo Enkidu se tornara mais humano e entre ambos, nascera um sentimento de amigo-irmão que tanto precisavam para juntos, então, planejarem em como salvar a tribo do herói salvador.
Abaixo exemplos de algumas obras de artes que apresentam elementos da sombra.
As músicas em tom sombrio do título Koyaanisqatsi, compostas por Philip Glass.
O estilo Black metal, cujas bandas tocam músicas grifadas como satânicas e pagãs.
Danças Butoh de Tatsumi Hijikata, consideradas dança da morte (em contraponto com o Butoh de Kazuo Ohno, considerada dança da vida).
A obra plástica, “Judite e Holofernes” do artista Caravaggio, considerada uma de suas pinturas mais brutais[xiv].
As obras de Francis Bacon ligadas a crença de degradação e decadência humana[xv].
O quadro Guernica de Pablo Picasso, cujo tema morte é seu ponto de ação [xv].
As escritas sarcásticas consideradas profanas de Marquês de Sade.
As coletâneas de poemas do livro “As flores do mal” de Charles Baudelaire.
Nas obras de Nelson Rodrigues, nos poemas de Carlos Drummond, nos livros depoimentos de Carolina Maria de Jesus, nos escritos intrínsecos de Clarice Lispector.
A lista é imensa!
Em toda boa obra há personagens com elementos sombrios, que geram conflito e contêm conflitos neles mesmos.
Em toda obra de arte, contém características impensáveis de qualquer ser humano, as nossas fraquezas, as nossas mazelas. No entanto, no fundo de qualquer aspecto sombrio, há sempre uma pitada de luz.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
[i] JÚNIOR, B.A.; ABIKO, A.K.; AGNELI, J.A.M.; et al. Grande enciclopédia Larousse Cultural.
[ii] CHEVALIER, J.; GHEERBRANT, A. Dicionário de símbolos.
[iii] COOPER, J.C. Taoísmo, o caminho o místico.
[iv] HALL, C.S.; NORDBY, V.J. Introdução à Psicologia Junguiana.
[v] JUNG, C.G. Fundamentos da psicologia analítica.
[vi] RASCHE, J. Prometeu, a luta entre pai e filho.
[vii] JUNG, C.G. (concepção e org.). O homem e seus símbolos.
[viii] VON FRANZ, M.-L. C. A interpretação dos contos de fadas.
[ix] EDINGER, E.F. Ego e arquétipo, individuação e função religiosa da psique.
[x]JAFFÉ, A. O mito do significado na obra de Jung.
[xi] ZWEIG, C,; WOLF, S. O jogo das sombras, iluminando o lado escuro da alma.
[xii] JUNG, C.G. A natureza da psique.
[xiii] JUNG, C.G. Mysterium Coniunctionis.
[xiv] RUSSO, M.E. (tradução). Caravaggio- Coleção folha, grandes mestres da pintura.
[xv] ARGAN, G.C. Arte moderna, do iluminismo aos movimentos contemporâneos.
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