Autor: Aisllan Calado. Vitória, 2025
O que é a mente? Essa pergunta deveria ser óbvia para a psicologia. Foi justamente isso que me impulsionou a buscar respostas na filosofia. Afinal, ela é o amor pela sabedoria, mesmo que depois de tanto tempo a mente permaneça um mistério. Seu método mais imediato é o de apresentar problemas e as tentativas de cada pensador de expressar tal problema ou criar um modelo de mundo que desafie ou afirme uma crença. Com isso, minha pergunta pode parecer simples e óbvia para qualquer pessoa que não se detenha um pouco e avalie o que ela acha que é a mente.
O objetivo deste texto é justamente apresentar algumas crenças sobre a mente, e procurar localizar, quando for possível, onde popularmente me encaixo e onde a psicologia contemporânea pode ser encontrada. De modo algum quero firmar algo em pedra, somente expressar o que percebo, considerando que minhas crenças sobre a mente também escorrerão entre os parágrafos. Aliás, o fato que exista uma linha de pesquisa dedicada à filosofia da mente não significa que nossas dúvidas foram resolvidas, e sim que temos uma quantidade de perguntas considerável a respeito. Proponho realizar dois recortes com o intuito de contextualizar e contrastar duas maneiras de considerar a 'mente'. No primeiro recorte, procuro me situar filosoficamente na modernidade, com a figura de René Descartes e a revolução que ele trouxe para o pensamento de sua época. No entanto, veremos que sua influência se estendeu para muito além da filosofia. Lembro também que a psicologia, enquanto disciplina, surge no século 19 como uma junção da filosofia e da fisiologia. O segundo consiste em um salto para o ano de 1991 e é centrado na figura de Francisco Varela. Estou consciente que de início isso possa parecer um salto arbitrário. Minha intenção é oferecer duas perspectivas que ocupem extremos muito opostos. Seguindo a classificação de Lakoff e Johnson sobre as ciências da cognição, e filosofia da mente: o que diferencia a segunda geração das ciências cognitivas da primeira é que ela resiste em colocar as suposições a priori da filosofia à frente (Lakoff e Johnson 1999, p. 115).
A frase mais famosa de Descartes vai servir para explicar a sua crença. O Cogito Ergo Sum é uma síntese do método e do resultado obtido por esse filósofo. Seu método está baseado na dúvida, postulando que nossos pensamentos e percepções podem ser falsos. Ele diz:
“Não há, pois, dúvida alguma de que sou, se ele me engana; e, por mais que me engane, não poderá jamais fazer com que eu nada seja, enquanto eu pensar ser alguma coisa. De sorte que, após ler pensado bastante nisto e de ler examinado cuidadosamente todas as coisas, cumpre enfim concluir e ler por constante que esta proposição, eu sou, eu existo, é necessariamente verdadeira todas as vezes que a enuncio ou que a concebo em meu espírito.” (Descartes, 2021, p.60)
Dessa forma, identifico em Descartes a mente como esse algo que pensa. Neste ponto, o termo mente ainda era visto como alma, ou espírito, herança da filosofia medieval. No entanto, Descartes também afirma a existência de outro algo, um que se estende e é relacionado depois com a matéria.
E, embora talvez (ou, antes, certamente, como direi logo mais) eu tenha um corpo ao qual estou muito estreitamento conjugado, todavia, já que, de um lado, tenho uma ideia clara e distinta de mim mesmo, na medida em que sou apenas uma coisa pensante e inextensa, e que, de outro, tenho uma ideia distinta do corpo, na medida em que é apenas uma coisa extensa e que não pensa, é certo que este eu, isto é, minha alma, pela qual eu sou o que sou, é inteira e verdadeiramente distinta de meu corpo e que ela pode ser ou existir sem ele.” (Descartes, 2021, p.95)
Essa crença passou a ser conhecida como Dualismo, pois ela afirma que existe o mental independente do físico, como se fossem dois reinos de existência diferentes que interagem de forma desconhecida. Quis focar na figura de Descartes por considerá-lo parte importante da história da origem da filosofia da mente. Porque é dele que surgem as perguntas que inicialmente foram feitas, e que são consideradas o problema fundacional dessa linha de pesquisa que me interessa tanto. Minha pergunta inicial: o que é a mente? pode ser ampliada agora com: o que é o corpo? Como a mente e o corpo interagem? Filosoficamente, Descartes foi contestado, e é contestado até hoje. Para mencionar alguns com influência na psicologia como ciência, tenho os empiristas britânicos: Locke, que questionou a ideia de uma alma que controla o corpo, e situa a mente como algo empírico; Berkeley, que duvida da matéria e estuda a percepção; e Hume, que contesta Descartes com ceticismo. Desses três, o único que está mais próximo do Dualismo seria Locke, que não rejeita abertamente a ideia de alma. Tanto Hume quanto Berkeley podem ser considerados monistas, um afirmando que só existem ideias e o outro que só existem as sensações.
O que Descartes propôs foi a noção da mente e da matéria como coisas existentes. Os empiristas britânicos, por sua vez, separam o termo alma da mente, chamaram de pensamentos ou ideias o conteúdo dessa mente, e enquanto Berkeley afirmou que o ser está na percepção (nota) e a percepção é uma ideia, logo tudo é ideia, Hume nos diz que os conteúdos mentais estão mais vinculados com os hábitos ligados às sensações. Ele não afirma a mente, nem o mundo como real, mas sim que existem sensações e delas se derivam as ideias. Sacudido por Hume, temos a figura de Immanuel Kant, que direciona sua análise crítica para o lugar da psicologia enquanto ciência. Como nos explica Leary (1982, p.35): "Toda ciência verdadeira tem tanto uma parte racional quanto uma empírica. A experiência provê os dados empíricos; a matemática prove as relações inerentemente racionais entre esses dados. Contudo, segundo Kant a psicologia não poderia usar a matemática porque seus dados empíricos não possuem dimensões espaciais, existindo somente na dimensão singular do tempo." Em outras palavras, o objeto de estudo da psicologia é imaterial e particular. O aspecto empírico não seria suficiente para a psicologia se afirmar enquanto ciência, com isso Kant também propõe, segundo Leary, que a psicologia poderia seguir o caminho externo, se tornando uma ciência social. As críticas de Kant foram importantes para o desenvolvimento da psicologia, reafirmando seu objeto de pesquisa na consciência, deixando um legado que continua até hoje na psicologia profunda, por exemplo.
No começo do século XX, com a psicologia já estabelecida enquanto jovem ciência, temos Edmund Husserl, criador da fenomenologia e crítico do naturalismo na psicologia. Para ele, a fenomenologia e a psicologia caminham juntas, realizando um recorte semelhante ao de Kant ao apontar o naturalismo na psicologia jovem e o aspecto que a fenomenologia investiga. Nas palavras de Raffaeli (2004, p.214):
"...constatamos que na ciência psicológica atual persiste o descompasso, que Husserl criticava na psicologia do século XIX, entre o campo da psicofísica e da pesquisa comportamental – enfatizando o controle e a experimentação e produzindo “dados” – e o campo da psicologia filosófica e da psicologia clínica, interessadas no ser e na emoção, gerando “abstrações”"
Com isso, quero principalmente apresentar como a separação entre mente e matéria é uma crença problemática. Mesmo nas tentativas de unificar esses dois campos, o status da mente enquanto objeto de estudo válido encontra uma disparidade que pode ser dicotomizada em: sensação/pensamento, estímulo/comportamento. Felizmente, Husserl foi crítico o suficiente dessas crenças e do dualismo em que incorremos, direcionou a fenomenologia para o mundo vivido, para esse que me é cotidiano, e para a interação que tenho com o mundo.
Hoje, quando me pergunto o que é mente, tenho algumas linhas de resposta seguindo mais ou menos o que foi mencionado na seção anterior: Dualismo, Monismo, Idealismo, Materialismo, e posteriormente Fisicalismo. São muitas crenças sobre a mente, sempre acompanhadas da discussão sobre sua interação com a matéria. Alguns sustentam a diferença, outros descartam um deles. O problema sobre a mente passa também por como falamos sobre as coisas. Por exemplo, digo 'minha mente', 'meu pensamento', me referindo a ela da mesma maneira que ao corpo: como um objeto, uma coisa existente. Diferencio entre ambos, e uso símbolos para expressar meus pensamentos e sensações. Percebo o mundo externo com os olhos, e o mundo interno com a introspecção.
Em termos mais precisos, a realidade parece construída com base em minhas categorias de sujeito e objeto. A mente é designada ao primeiro, e daí posso dizer que 'ah, o que você sente é subjetivo', porque a matéria, ou o mundo, é esse objeto. A crença que se atribui a Descartes, é justamente o dualismo que passa de uma coisa que pensa (res cogitans) e uma coisa que se estende (res extensa) para o que pode ser resumido no axioma de Locke: “Não há ideia na mente que não possa ser derivada de uma experiência particular” (Fasko e West, 2024, p. 2). Em outras palavras: todo conhecimento deriva da experiência, e esse segundo termo se refere aos sentidos. O que Hume e Berkeley fazem com esse axioma é levar o empirismo às últimas consequências, chegando a dois extremos opostos; para Berkeley, não há experiência, tudo é mente; para Hume, não há mente nem experiência. Em outros termos, teríamos o Solipsismo (a mente particular como realidade) e o Epifenomenalismo (a mente como um mero fenômeno derivado das sensações). Ambas as perspectivas acho bem estranhas, e que sustentam algo em comum: a descontinuidade entre sujeito e objeto. A origem dessa crença é a filosofia de Descartes que propõe, como mencionei, o dualismo entre mente e matéria. A mente sendo o sujeito, e o mundo o objeto, quando eliminamos um deles, as coisas ficam mais simples. Contudo, também ‘jogamos fora o bebê com a água da banheira’.
A filosofia da mente, enquanto linha de pesquisa, é bastante recente, surgindo em 1950 junto com o que se conhece como ciências da cognição, que é um supergrupo de várias disciplinas como: psicologia, psiquiatria, neurologia, filosofia, linguística e inteligência artificial. Aqui, situo o que Lakoff e Johnson (1999) chamam de primeira geração das ciências da cognição, aquela que ainda mantinha compromissos filosóficos que apresentei acima. De forma geral, o dualismo entre mente e matéria foi superado, tornando-se tornando materialista em certo ponto. Contudo, como Lakoff e Johnson demonstram, ainda sou profundamente cartesiano ao localizar a mente no cérebro, os pensamentos como impulsos neuronais nos quais sensações (input) causam comportamentos (output). A mente se torna essa função conversora entre uma coisa e a outra. O que Lakoff e Johnson chamam de segunda geração das ciências da cognição, pode ser situado com o trabalho de Francisco Varela, Evan Thompson e Eleanor Rosch, biólogo, filósofo e psicóloga no que foi chamado de enativismo ou noção de mente incorporada.
O enativismo oferece uma perspectiva não cartesiana sobre a mente e o mundo, resgatando a experiência da fenomenologia do francês Merleau-Ponty. Como modelo conceitual, o enativismo propõe que um organismo e um ambiente não devem ser vistos como o sujeito e o objeto, e sim como o ponto de partida para eu pensar sobre a mente. Ou seja, em vez de me perguntar como duas coisas interagem, procuro focar na interação e no que emerge dela. Com isso, Varela (1990, p. 96) nos leva à conclusão filosófica inevitável “que conhecedor e conhecido, sujeito e objeto se determinam um ao outro e surgem simultaneamente”. Em outras palavras, essa estrutura que utilizo para descrever o mundo, que é uma estrutura conceitual, emerge das interações entre organismo e ambiente. A cognição deixa de ser uma computação cerebral, para se integrar às ações entre organismo e ambiente de forma holística.
Logo, se me perguntassem hoje o que é mente, eu responderia que é uma interação bastante íntima entre um organismo e o ambiente em que ele está inserido. Ou seja, quando penso no ser humano contemporâneo, esse espaço está ocupado por uma quantidade considerável de elementos feitos por nós para facilitar nosso trânsito. Esses elementos são desde: calçadas e placas, a normas sociais, e uma série de consensos. Com isso, quero dizer que o ambiente do ser humano é muito mais complexo do que o de outros seres vivos. Isso também significa, que para a perspectiva enativista, a distinção entre coisas e pensamentos é mais flexível, me permitindo dizer que os pensamentos e as coisas são igualmente importantes. Afinal, normas sociais são ideias para ditar nosso comportamento em diferentes contextos, da mesma forma que a ferramenta adequada facilita um trabalho. A ideia aqui é não me desfazer nem da mente nem da matéria, mas considerar que a interação entre ambos é o que conheço de mais íntimo.
CHURCHLAND, Paul M. Matéria e consciência: uma introdução contemporânea à filosofia da mente. Tradução de Maria Clara de Oliveira Dias. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2004.
DESCARTES, René. Descartes Essencial: Discurso do Método, Meditações Metafísicas, Paixões da Alma. Tradução e organização de Gerard Lebrun. São Paulo: Lebooks Editora, 2021.
FASKO, Daniel; WEST, J. West. Historical and Philosophical Issues in Psychology. In: The Handbook of Psychology: A New Introduction. [S.l.]: [s.n.], 2024. p. 1-15.
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LEARY, David E. Immanuel Kant and the development of contemporary psychology. Journal of the History of the Behavioral Sciences, v. 18, n. 2, p. 159-178, 1982.
RAFFAELLI, Rafael E. D. Husserl e a psicologia. Estudos de Psicologia, Natal, v. 9, n. 2, p. 211-215, 2004.
THOMAS, Janice. Minds of the Modern: Intellectual History and the Development of Psychology. New York: Routledge, 2006.
VARELA, Francisco J. Conocer: las ciencias cognitivas: tendencias y perspectivas. Tradução de Pedro Paulo Pimenta. Lisboa: Editora Fundação Calouste Gulbenkian, 2003.
VARELA, Francisco J.; THOMPSON, Evan; ROSCH, Eleanor. The Embodied Mind: Cognitive Science and Human Experience. Revised edition. Cambridge, MA: The MIT Press, 2017.