Zima Blue é uma animação da antologia de ficção científica Love, Death & Robots, da Netflix, baseada no conto homônimo de Alistair Reynolds. Por não ter lido o conto e por ser fascinado pelas escolhas visuais da animação, decidi me ater exclusivamente ao episódio, que por si só já oferece uma riqueza de reflexões.
A História
A narrativa nos apresenta Zima, um artista cuja trajetória e obras cativam a humanidade. Ele inicia sua carreira pintando retratos, mas logo percebe que isso não o satisfaz. Sua arte evolui para murais cósmicos, que representam a vastidão do universo. Com o tempo, suas criações sofrem outra transformação: a constante adição de figuras geométricas em um tom de azul profundo, um elemento que instiga ainda mais a curiosidade do público. Insatisfeito, Zima expande seu conceito, pintando objetos celestes inteiros com essa cor enigmática.
Antes de sua apresentação final, Zima convida a repórter Claire Markham para uma entrevista, uma exceção após anos de reclusão. Claire se surpreende ao encontrá-lo: um homem alto, esguio, de pele modificada, mas com uma serenidade e gentileza que contrastam com sua aparência.
Zima revela a Claire a razão de sua aparência exótica: ele passou por uma série de modificações robóticas para aprimorar seus sentidos. Seus olhos foram adaptados para perceber o espectro magnético por completo, sua pele para resistir a climas extremos, e seu corpo não necessita de ar. Com essas adaptações, Zima explora o universo em busca de novas formas de expressão, até que chega a uma conclusão: o cosmo já havia revelado tudo o que podia.
Isso nos leva de volta à entrevista, onde Zima compartilha a surpreendente origem de sua existência:
"Havia uma menina que criava robôs para tarefas domésticas, e ela tinha um carinho especial por aquele que limpava a piscina. A pequena máquina trabalhava incessantemente, mas a menina queria mais. Ela o modificou, deu-lhe a capacidade de ver cores e estratégias para limpar melhor. Ela continuou a aperfeiçoá-lo, e a máquina se tornou cada vez mais ciente. A menina cresceu e morreu, e o robô passou por vários donos, cada um o modificando um pouco mais, e com cada modificação, ele se tornava mais consciente de si mesmo."
Impressionada, Claire questiona: "Mas você é um homem com partes de máquina, e não o contrário". Ao que Zima responde: "Para mim também é complicado. É difícil lembrar quem fui algum dia".
A Jornada Inicial de Zima
É possível dividir a história de Zima em três fases iniciais. A primeira, a infância, remete ao seu estado primordial como um simples robô limpador de piscinas. Ele é uma máquina com consciência suficiente apenas para executar sua tarefa. A menina, sua criadora, atua como uma figura materna que o aperfeiçoa, concedendo-lhe a capacidade de ver e decidir, o que o torna mais consciente de si e do mundo.
Após a morte dela, entramos na juventude/adolescência de Zima, onde ele é cuidado por vários donos que o modificam para tarefas cada vez mais complexas. "A cada modificação, tornava-me mais ciente", ele nos diz. Esta fase ecoa o aspecto paterno do desenvolvimento, focado na execução de tarefas e na aquisição de novas habilidades.
Sua consciência e sua capacidade de decidir o levam à adultez e, com ela, a uma busca por sentido. Zima se recria, aprimora-se para resistir a ambientes extremos e se lança em sua jornada cósmica. A evolução de sua arte — dos retratos humanos aos murais do universo — espelha essa busca, que o leva além da forma humana e do óbvio.
O Opus de Zima
O motivo da entrevista de Claire se revela no grande espetáculo final. Zima a leva a uma piscina que ele havia conseguido desenterrar, a mesma piscina que ele limpava em sua existência primordial.
"Aqui comecei. Uma pequena máquina com inteligência para apenas me mover, mas era tudo o que eu conhecia, tudo o que precisava conhecer."
A apresentação começa. A escuridão é quebrada pela luz azul da piscina, e Zima, vestindo uma capa, caminha até a beira. Ele se despe e inicia seu monólogo final:
"Vou mergulhar, e desligarei minhas funções superiores, desfazendo-me e deixando apenas o necessário para apreciar a beleza e sentir prazer na execução da tarefa."
Enquanto nada, Zima se desintegra e retorna à sua forma original.
Zima, a Solutio e a Individuação
A história de Zima é a de um artista cuja grande obra de arte é sua própria vida. Ele compreende que o azul que o fascinava era um símbolo de seu ponto de partida — o azulejo da piscina. Esse símbolo se relaciona com a Individuação, conceito central da Psicologia Analítica.
Se entendermos Zima como uma figura do Ego, sua jornada inicial reflete o Eixo Ego-Self, que começa na fase Urobórica, onde o Ego ainda é um com o Self, em uma relação simbiótica. "Com inteligência apenas para me mover" descreve este estado de consciência mínima, que necessita do cuidado materno (a menina, sua criadora) para evoluir e ganhar percepção.
O afastamento do materno (a morte da criadora) e a entrada na fase paterna (os outros donos) o levam a se desenvolver e se aperfeiçoar, preparando seu Ego para a independência. A serenidade de Zima em todo o processo sugere uma jornada sem grandes conflitos pessoais, o que o diferencia de um humano típico.
Sua modificação para resistir à neve e à lava representa a capacidade do Ego de suportar os opostos — um pré-requisito para a formação de um senso de si. Quando Zima compreende o universo, o azul surge como um símbolo, carregado de energia psíquica, que o impulsiona e o guia.
O desfecho de Zima é uma Solutio, uma imagem alquímica de dissolução e retorno a um estado primordial. Ao se desintegrar na piscina, ele não morre, mas se simplifica e retorna à sua essência — à fase Urobórica. No entanto, suas últimas palavras dão um novo sentido à sua escolha: ele se desfaz para retornar ao prazer de sua tarefa original, desprovido das camadas de complexidade adquiridas ao longo da vida.
A jornada de Zima, em sua totalidade, pode ser vista como um processo de Individuação: a busca consciente por se tornar o que se "é" ou o que se "deve ser". Ele usa sua vida para expandir quem ele era, apenas para, no final, entender que "apreciar a beleza e o prazer na execução da tarefa" é a síntese de sua existência.
Conclusão
Confesso que muitos detalhes da jornada de Zima mereceriam ser mencionados neste breve texto, mas meu espaço e capacidade de explicá-los sem soar monótono são limitados. Recomendo que o leitor assista ao episódio e tire suas próprias conclusões.
Para mim, a jornada de Zima não é tão diferente da nossa, sendo a principal diferença sua falta de vínculos afetivos, o que o torna capaz de feitos que, em um humano, causariam grande conflito. No entanto, vejo profundidade neste curta-metragem ao falar da vida e de sua beleza de uma maneira com a qual podemos nos relacionar. Zima representa o ser humano em sua jornada, da gestação ao retorno ao "útero do mundo", nos lembrando do sentido da vida não como um propósito cósmico, mas como o sentido para nossa existência em sua essência mais simples. No final, Zima responde à pergunta sobre o que fazer com a vida, pois em sua essência, ele é uma criatura simples.
*Ego: A definição operacional do Ego, oferecida por Whitmont é: 1. Funciona como centro, sujeito e objeto da identidade pessoal e consciência, isto é, consciência da identidade pessoal a qual se estende e continua através do espaço, tempo, e na sequência de causa e efeito, sobre a qual é capas de refletir. 2. É o centro e originador, aparentemente pelo menos, das escolhas pessoais e decisões e planos de ação, o ponto de referência para os julgamentos de valores. 3. É o originador dos impulsos pessoais, a vontade a qual traduz decisões em atos dirigidos a objetivos específicos (p. 232).
**Self: “Jung descreveu a fenomenologia do Self como ela acontece no processo de Individuação durante a segunda fase da vida. […]. Neumann, com base em materiais mitológicos e etnológicos descreve simbolicamente o estado psíquico anterior ao nascimento do ego como o uroboros […], representando o estado-mandala da totalidade da qual o ego individual nasce. […] Fordham, com base nas observações clinicas em crianças, também postulou que o Self como a totalidade anterior ao Ego” (EDINGER, 1992, p. 4)
*** As traduções utilizadas para este texto foram feitas pelo autor e podem diferir consideravelmente das traduções oficiais.
C.WHITMONT, E. The Symbolic Quest- Basic Conceptsof Analytical Psychology. 7. ed. New Jersey: Princeton University Press, 1991.
EDINGER, E. F. Ego and Archetype. Boston: Shambala, 1992.
EDINGER, E. F. Anatomia da Psique. São Paulo: Cultrix, 2013.
JUNG, C. G. A Natureza da Psique. Petrópolis: Editora Vozes, 2000.
NEUMANN, E. The Origins and History of Consciousness. New York: Princeton Classics, 2014.