O Abraço da Serpente: Uma Jornada Simbólica pela Alma da Amazônia
Há poucas semanas, deparei-me com o filme "O Abraço da Serpente", do aclamado diretor colombiano Ciro Guerra, um dos concorrentes a "Melhor Filme Estrangeiro" no Oscar. O filme causou em mim uma impressão profunda, não apenas pela sua fotografia arrebatadora, mas pela riqueza temática e pelos elementos simbólicos que sutilmente sugere. Minha intenção aqui não é fazer uma análise exaustiva ou rechear o texto com spoilers para os interessados. Meu desejo é simplesmente compartilhar aquilo que capturou minha atenção e as ideias que emergiram durante e após a experiência de assisti-lo.
Entre a História e o Mito: Os Exploradores e o Xamã
É notável como o filme finca seus pés na história real ao tecer sua narrativa em torno de dois personagens que de fato existiram: Theodor Koch-Grünberg e Richard Evans Schultes. Koch-Grünberg, um etnógrafo alemão, dedicou grande parte de sua vida ao estudo das tribos amazônicas, tendo sua jornada abruptamente interrompida pela malária. Já Schultes, considerado o pai da etnobotânica moderna, ficou conhecido por suas pesquisas sobre plantas medicinais e alucinógenas dos povos indígenas.
A trama nos apresenta um Koch-Grünberg já debilitado, viajando pela Amazônia em busca de uma cura para sua doença, acompanhado por seu tradutor e amigo indígena Manduca. Eles encontram o jovem xamã Karamakate, isolado das demais tribos. Após algumas resistências, o xamã é convencido a guiá-los na busca por uma planta sagrada, a Yakruna.
Anos mais tarde, o filme nos transporta para um novo encontro: Schultes, guiado pelos diários de Koch-Grünberg, procura a mesma planta, mas agora com um Karamakate envelhecido, cuja memória parece ter sido tomada pelos anos, inclusive a da sua viagem com o etnólogo alemão.
A narrativa transita entre essas duas linhas temporais, unidas pelo cenário imponente da Amazônia e pela figura central de Karamakate. Ele, para mim, emerge como o verdadeiro protagonista, e sobre ele, o jovem e o velho, farei algumas observações.
Karamakate: Do Jovem Rebelde ao Velho Sábio
Quando Karamakate nos é apresentado em sua juventude, é um ser de caráter forte, exibindo uma rejeição compreensível ao homem branco que busca sua ajuda. Há uma clara decepção em relação a Manduca, que ele vê como tendo perdido suas raízes. É a insistência de Manduca, argumentando que o alemão é "diferente", que o convence a auxiliar Koch-Grünberg.
Inicialmente, o xamã ri das peculiaridades do homem branco. Sua atitude, porém, começa a mudar durante a viagem e, de forma crucial, após uma visão provocada pelo Caapi¹. Nela, uma onça lhe instrui a ajudar Koch-Grünberg. Sendo um homem sábio, ele obedece ao chamado do espírito. A hostilidade inicial, aos poucos, transmuta-se em uma curiosidade cautelosa.
A aproximação entre Karamakate e Koch-Grünberg se estabelece através de um respeito que interpreto como intelectual. Em certo ponto, o alemão revela o verdadeiro propósito de sua expedição: estudar e aprender com os povos da Amazônia. Um segundo divisor de águas é um sonho desenhado por Koch-Grünberg em seu diário, que Karamakate reconhece profundamente, capturando sua atenção.
No entanto, como em todo relacionamento humano, as expectativas de Karamakate em relação a Koch-Grünberg não se concretizam plenamente, e pequenas doses de decepção começam a surgir. A primeira manifesta-se no contato com outra tribo já conhecida pelo alemão, que demonstra hostilidade ao acusá-los de furto e ao negar-se a compartilhar seu conhecimento.
A segunda decepção não é diretamente com o alemão, mas uma dolorosa lembrança do passado de Karamakate. Ao chegarem a uma missão jesuíta que abriga crianças indígenas órfãs, ele recorda e nos transmite sua própria história: ele também foi um órfão. A diferença é seu caráter inabalável; ele não se deixou subjugar pelas "loucuras dos brancos", fugiu e viveu sua vida em aparente solidão.
A terceira decepção acontece quando Grünberg, delirando de febre, desobedece às instruções de Karamakate, quebrando o regime de purificação necessário para receber a Yakruna.
As linhas temporais se entrelaçam, e somos levados em paralelo à jornada do agora velho Karamakate com Schultes. As diferenças são marcantes. Nesta segunda parte, ele não guia o americano, mas permite-se ser guiado, alegando não se lembrar do caminho e, ainda mais significativo, de não mais sonhar. O caráter forte da juventude cede lugar a uma nostalgia por algo que ele não consegue recordar, mas ao mesmo tempo, emerge uma calma que lhe faltava antes. Ele permite que o americano encontre seu próprio caminho, oferecendo apenas orientações sutis.
A decepção sofrida com o homem branco parece ter apagado o fogo da juventude de Karamakate, e com ele, o xamã perdeu seus sonhos. Ele se autodenomina um "chullachaqui", explicando: "Todos têm um chullachaqui, que tem a mesma aparência da pessoa, mas é vazio, uma cópia que vagueia como um fantasma".
O grande medo de Karamakate sempre pareceu ser esse: em sua juventude, transformar-se em um chullachaqui ao perder suas raízes; e na velhice, de ser um. Contudo, durante a viagem com Schultes, ele gradualmente descobre que não é um chullachaqui. Sua vitalidade e suas memórias são devolvidas à medida que percorre o mesmo caminho de outrora.
A Serpente: Um Símbolo Ambivalente
Durante grande parte do filme, a pergunta sobre o título, "O Abraço da Serpente", ecoou em minha mente. Levei dias para chegar a uma conclusão, e admito que posso estar equivocado.
Em sua busca pela Yakruna, o xamã faz referência, em algumas ocasiões, ao mito da serpente que desceu da Via Láctea para se transformar no rio (acredito que o Amazonas). Grande parte da jornada se desenrola em canoas, através desse rio, e nele – ou sempre próximo a ele – a trama se desenvolve e nos envolve com seus diálogos em uma rica tapeçaria de idiomas: alemão, pelo menos duas línguas indígenas, espanhol, português e inglês.
Podemos inferir, então, que "O Abraço da Serpente" simboliza o mergulho e o envolvimento com o Rio e suas margens, algo que se confirma em vários momentos da trama.
Ao mesmo tempo, Karamakate se refere a Grünberg e Schultes como "Serpente" em certas ocasiões, em um tom depreciativo. Essa metáfora expressa a decepção e o rancor do xamã pelo homem branco, por sua natureza destrutiva e sua dificuldade em aceitar as verdades profundas da floresta.
Jung nos ilumina sobre a serpente: "A serpente encarna o funesto numen² da mãe (e outros demônios) que mata, mas ao mesmo tempo constitui a única possibilidade de nos proteger da morte, pois ela também é a fonte da vida" (Jung, 1963, p. 306). Seria, então, o uso de Karamakate relacionado a essa noção mitológica e arquetípica da serpente? Se sim, devemos considerar a contraparte: o mito que ele narra da Serpente que desce dos céus para formar o rio.
Sobre a água, Jung acrescenta: "O aspecto materno da água coincide com a natureza do Inconsciente, porém este último (principalmente no homem) pode ser invocado como mãe ou matriz da consciência" (Jung, 1963, p. 231).
Seria, então, o "Abraço da Serpente" o estado de conflito do homem que permanece inconsciente? Neste caso, representado tanto pelo jovem Karamakate quanto pelos exploradores que o procuram?
De Grünberg a Schultes: Duas Faces do Encontro
Nos primeiros minutos do filme, vemos Grünberg, quase moribundo, chegando aos domínios de Karamakate em busca de uma cura. Em paralelo, encontramos um jovem Schultes diante do velho xamã, que desenha em uma grande pedra.
O alemão conta com Manduca, um interlocutor que, para mim, funciona como uma ponte neurótica entre o estrangeiro e o nativo. Digo neurótica porque, apesar de parecer secundário, Manduca rouba a cena várias vezes – seja em seu apoio incondicional a Grünberg ou em explosões que revelam seu próprio drama. Manduca é o indígena que foi quebrado e torturado pelo homem branco, mas que, paradoxalmente, nutre uma profunda admiração por ele, chegando a dizer que "eles podem nos ensinar a ser brancos". De certa forma, Manduca representa a perda das raízes e a identificação com aquilo que Karamakate rejeita.
Em contraste, Schultes encontra o xamã sozinho e se comunica diretamente com ele, usando a mesma língua e, por vezes, o espanhol. Enquanto Manduca é a ponte para Grünberg, Schultes se volta para o entendimento e estabelece um contato mais pessoal com o xamã.
Ambos os exploradores são chamados de "Serpentes" em algum momento, e Jung nos fala sobre a paralisia que o veneno da serpente pode produzir: "A paralisação da energia progressiva tem de fato aspectos muito insatisfatórios. Apresenta-se como azar adverso ou como franca catástrofe que, desde logo, prefere-se evitar" (Jung, 1963, p. 310). Em Grünberg, vemos essa paralisia em sua forma somática; ele não consegue seguir as instruções de Karamakate por falta de energia, enquanto Schultes ainda conserva seu vigor.
Ambos carregam consigo o peso de suas culturas. Schultes traz tantas caixas que a canoa quase afunda. Grünberg mostra a Karamakate seus pertences, convencendo-o de seu valor como conhecimento reunido das tribos. Mas essa é apenas a parte visível da "paralisia". Em Grünberg, percebemos o utilitarismo claro de nossa sociedade: ele busca a cura para seu mal-estar, sem interesse em ouvir ou aprender dos espíritos, o que fica evidente quando o Caapi parece não ter efeito sobre ele. No fim, Grünberg abandona as recomendações do xamã.
Schultes, por outro lado, parece seguir um caminho oposto. Inicialmente relutante, ele cede gradualmente às recomendações do velho xamã, agora transmitidas de forma mais leve, quase como conselhos: "Você deveria se desfazer das suas coisas ou vamos afundar", "Deverias aprender a escutar". Aos poucos, Schultes se entrega à sabedoria amável do velho sábio.
O Encontro com a Yakruna: Testemunho e Transformação
A motivação final de ambos os estrangeiros é encontrar a planta sagrada Yakruna. E mais uma vez, a atitude de Karamakate é notavelmente diferente.
Com Koch-Grünberg, o jovem xamã, cansado e magoado pelo contato decepcionante com o "homem branco", testemunha a profanação de seu povoado pela guerra e pela cultura estrangeira. A Yakruna é usada para fins não curativos. Em meio a um ataque, e com o alemão agonizante, Karamakate, em um ato de fúria e desespero, decide destruir a planta sagrada, queimando a árvore onde ela cresce. Ele decreta que Grünberg não a provaria, pois não era merecedor. A atitude impulsiva de Karamakate contradiz o conselho da Onça de "ajudar o homem branco"; ajudar Grünberg é impossível para ele naquele momento de sua vida.
Mais tarde, com Schultes, as coisas mudam. Ao chegar ao que resta do antigo povoado, Karamakate encontra a última flor de Yakruna. Schultes, já despojado de sua bagagem material, confessa que mentiu ao xamã, revelando uma intenção semelhante à de Grünberg. O velho Karamakate, contudo, não reage com violência. Ele parece aceitar a confissão envergonhada de Schultes e compartilha, finalmente, a sabedoria da última flor de Yakruna com o americano.
A Missão de Karamakate: A Visão da Onça e da Serpente
Há uma cena no filme que me marcou profundamente pela sua crueza e emoção: uma serpente enrolada, pronta para o ataque, e uma onça à espreita. Ambas se encaram em um confronto que culmina com a onça mordendo e matando a serpente.
Lembrando que a Onça instruiu Karamakate a ajudar Grünberg na primeira parte do filme, e as constantes acusações do xamã de que os estrangeiros eram a "Serpente", imaginei que esta visão teria um profundo significado para a proposta do filme. A derrota da serpente e o triunfo da onça revelam a missão cumprida do velho xamã, que em sua juventude fora, talvez, mal interpretada – algo comum em nossos próprios sonhos e intuições.
Sobre isso, Edinger (1992, p. 111) nos adverte sobre a "falácia concretista", onde o indivíduo "é incapaz de distinguir os símbolos da psique arquetípica da realidade externa e concreta. As imagens simbólicas internas são experimentadas como sendo fatos reais e externos". A atitude do jovem Karamakate deve ser compreendida em seu contexto, como um "sábio" ainda em sua juventude e com crenças enraizadas no que poderíamos chamar de "primitivo".
Já o velho Karamakate parece finalmente compreender o pedido da Onça: não se tratava de ajudar o "homem branco" que estava à sua frente, mas sim o Homem branco como personificação do "novo", que chega para conquistar. A derrota da Serpente pode ser interpretada como a vitória de Karamakate sobre a atitude destrutiva do homem branco, e sua missão se revela nas últimas cenas, quando Schultes emerge da mesma forma que o xamã em sua juventude: de pé sobre uma pedra, olhando para o rio, rodeado por borboletas.
Toda a viagem com Schultes (e também a de Grünberg) possui um caráter iniciático:
O despir-se dos pertences, ou da postura artificial criada pela personificação da "ciência", algo claramente visível em Schultes.
Aprender a confiar nos instintos: Isso é evidenciado nas cenas em que Karamakate aconselha Schultes a largar o mapa, a escutar e, em um momento particularmente impactante, a remar pelo rio "sentindo a correnteza". Se entendemos a água como representação do Inconsciente, é um conselho profundo: navegar (um tema comum na mitologia) com gentileza pelas águas em vez de lutar contra elas.
A culminação na toma da Yakruna e a comunhão com a natureza. A onça, ou Jaguar, é um animal de grande importância nas culturas pré-hispânicas, representando o Herói ou Guerreiro. A visão da serpente sendo devorada pela onça e a missão encomendada pela Onça ampliam o contexto da trama para o arquétipo da batalha do herói contra a serpente/dragão e a possibilidade de transformação que isso representa (Jung, 2014, p. 69).
Se a Onça atua dessa forma, ela é o Herói que liberta do caráter opressor e perigoso da Serpente, que tende à regressão, estrangula e paralisa, impedindo a expansão e o crescimento.
Breve Conclusão
Estas foram algumas das minhas observações durante e depois de assistir a "O Abraço da Serpente". A temática e a forma de execução me pareceram fascinantes, com a trama transitando no tempo e a fotografia em preto e branco criando uma sensação de atemporalidade, de "o tempo que não é tempo".
Como disse inicialmente, vi Karamakate como protagonista, e em alguma medida, ainda penso assim. No entanto, sinto-me compelido a tentar ver o todo dentro deste filme e não posso ignorar os outros personagens e as dinâmicas que representam. Na trindade Grünberg, Manduca e Karamakate (jovem), com suas dificuldades de comunicação, hostilidade e desconfiança, vi o homem branco que se aproxima do indígena para utilizar-se de seu conhecimento de forma artificial. O artificial também no trágico Manduca, um indígena desenraizado que serve Grünberg cegamente, buscando bem-estar e, ao mesmo tempo, uma identidade que não lhe pertence.
No final, a ponte que o homem branco precisa para ter acesso à sabedoria indígena está dentro dele. Como diz Karamakate em algumas ocasiões, "O homem branco está louco", algo que foi dito a Jung por um dos índios Pueblo em sua viagem ao Novo México:
"Veja", dizia Ochwiay Biano, "como os brancos têm um ar cruel. Têm lábios finos, nariz em ponta, os rostos sulcados de rugas e deformados. Os olhos têm uma expressão fixa, estão sempre buscando algo. O que procuram? Os brancos sempre desejam alguma coisa, estão sempre inquietos, e não conhecem o repouso. Nós não sabemos o que eles querem. Não os compreendemos e achamos que são loucos!". Perguntei-lhe então por que pensava que todos os brancos eram loucos. Respondeu-me: "Eles dizem que pensam com suas cabeças".
Mas naturalmente! Com o que pensa você? - perguntei admirado.
Nós pensamos aqui - disse ele, indicando o coração. (Jung, 2006, p. 285)
Schultes demonstra muito mais flexibilidade e, apesar da rejeição inicial às sugestões do velho xamã, acaba aceitando o caminho oferecido e cumpre a missão de Karamakate: finalmente aprender da natureza.
O filme aborda muitos outros temas e recomendo fortemente assisti-lo e revisitá-lo. Ele não fala apenas sobre o contato do homem branco (moderno) com a sabedoria ancestral, mas também sobre a "serpente" (em seu caráter depreciativo) – aquilo que conquista pela força, desmata, rouba e deturpa o que pertence a toda a humanidade, sem um contato real com sua essência.
Notas:
¹ Caapi: É outro nome usado para designar o chá alucinógeno também conhecido como Ayahuasca ou Santo Daime. ² Numen: Em latim, era um termo aplicado para se referir a divindades menores ou ao que seria divino, isto é, algo que transcenderia nossa realidade, impactando-nos (Moraes, 2015).
Obras Citadas:
F. Edinger, E. (1992). Ego and Archetype. Boston: Shambala.
Jung, C. G. (1963). Símbolos de Transformación. Barcelona: Paidós.
Jung, C. G. (2006). Memórias, Sonhos, Reflexões. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.
Jung, C. G. (2014). Seminários sobre Psicologia Analítica (1925). Petrópolis, RJ: Editora Vozes.