Um corpo surge em cena. Um corpo que expande e retrai, como um pulmão, numa respiração desesperada, um organismo em colapso. A boca escancarada cheia de dentes não espera a morte chegar. É a própria morte. Transfiguração de medos e culpas que assombram nas noites solitárias e insones. Como fugir de algo que nos habita?
Luan Assunção é o ator que representa esses medos, essas fugas, esses corpos em fuga e negação no monólogo “Proibiram o Amanhã e outras drogas menos intensas”, que estreou em fins de março em Santos. Com texto de sua autoria, direção de Gabriel Pangonis, e trilha sonora ao vivo do DJ Lufer, a montagem traz uma lufada de fôlego novo à cena teatral da Baixada Santista.
O trabalho corporal de Assunção impressiona o espectador, que é atraído desde os primeiros instantes pelos movimentos físicos e vocais do ator. Em cada fibra de seus músculos parece pulsar uma profunda pesquisa, baseada na escola de representação nascida e mantida no Departamento de Artes Cênicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) – instituição pela qual Assunção se formou.
Há algo ali que bebe na fonte de trabalhos desenvolvidos por mestres como Luís Otávio Burnier (1956-1995), fundador do Lume Teatro, e de Verônica Fabrini, diretora e atriz pesquisadora da Boa Companhia, que, por sua vez, beberam na fonte de mestres internacionais de mímica (Étienne Decroux), do butô (Kazuo Ohno), do teatro antropológico (Eugenio Barba) e outros.
Não vemos em cena um ator interpretando personagens, mas um ator em total entrega aos sete personagens que representa, emprestando seu corpo, sua voz, a pessoas e histórias plausíveis de qualquer grande cidade. As diferentes narrativas se alternam com fluidez, marcadas por trechos de conhecidas composições brasileiras, cantadas por Assunção como “Blues da Piedade”, de Cazuza, e “Panis et Circenses”, dos Mutantes.
São histórias vividas pelo próprio ator e outras criadas por ele, a partir do contato com diferentes realidades, como a do ex-traficante que se converte a Jesus, e da velha e entediada professora do Ensino Fundamental que vai palestrar sobre drogas lícitas e ilícitas. São dramas cotidianos de personagens cotidianas que, em cena, crescem dramaticamente e ganham aura mística por meio de movimentos extracotidianos – afinal, estamos falando do território sagrado do teatro.
Despojado de cenário ou muitos adereços cênicos, a presença do ator é valorizada pelo figurino criado por Olintho Malaquias, que lembra os mantos do artista sergipano Arthur Bispo do Rosário e também os trajes budistas tibetanos.
Ao fim de 60 minutos, o ator recebe os aplausos do público em pé. Despindo-se de todos os personagens, ele resta, no centro da cena, com um sorriso tímido no rosto suado, como um receptáculo humilde daqueles outros corpos, vividos ou imaginários, mas não menos verdadeiros. E isso nos faz lembrar o filósofo Merleau-Ponty, que escreveu: “Quer se trate do corpo de outrem, quer se trate do meu, não tenho outro modo de conhecer o corpo humano, senão vivendo-o, isto é, assumindo por minha conta o drama que me atravessa e fundindo-me com ele”.
Contemplado pelo ProAc SP, a performance percorreu pela Baixada Santista.