Torcer envolve a paixão, que desencadeia outros tantos sentimentos, sejam eles bons ou ruins. Alguns brigam por ela, da mesma forma que outros choram. Em uma torcida organizada esses extremos estão presentes. Existem os torcedores engajados, que levam toda a família para o estádio e faz dos companheiros e companheiras de torcida uma nova família. Mas há também aqueles mais tímidos, que encontram na torcida o seu espaço e forma de expressão. Mas quer saber? No apito final, todos os extremos estão juntos, na vitória ou na derrota.
“Assim é que, no Brasil, recebemos, do berço, o nome, a religião e o clube de futebol”, Roberto DaMatta, em Universo do Futebol (1982)
No Brasil, as Torcidas Organizadas começaram a dar seus primeiros passos em 1940, com as uniformizadas. A primeira delas foi a Torcida Uniformizada do São Paulo (TUSP). Alguns anos depois surgiu a primeira que levava no nome "organizada", a Torcida Gaviões da Fiel, que nasceu em 1969, em meio à ditadura que se instaurava no país. Seu surgimento tinha por objetivo fiscalizar as ações do então presidente do Corinthians, Wadih Helu, que possuía proximidade com o governo da época.
No estado do Paraná, o fenômeno demorou alguns anos para chegar. As três principais torcidas organizadas e, consideradas de primeiro escalão, começaram a aparecer em 1977. A primeira foi a Torcida Império Alviverde (IAV), principal apoiadora do Coritiba, que surgiu em 02 de outubro. Alguns poucos dias depois, no dia 24, foi a vez da Torcida os Fanáticos (TOF), do Athletico Paranaense. Passado alguns anos, em 29 de setembro de 1993, a Torcida Fúria Independente (TFI), organizada do Paraná Clube nasceu. Existem outros agrupamentos no estado, tanto nos times de futebol profissional da capital, quanto os do interior ou amadores.
As torcidas possuem diferenças, muitas perceptíveis, como as cores, símbolos, gestos e músicas. Por outro lado, a ideologia é presente em todas elas e, talvez seja esse um dos elementos de maior igualdade e concordância. É essa simples palavra que norteia todo o resto de sua estrutura, além da continuidade, história, legado e cultura.
Dentro desses agrupamentos existem diversas áreas que funcionam de forma separada, mas que ao mesmo tempo giram em conjunto, formando uma engrenagem. Diversas frases podem definir uma Torcida Organizada, mas Resistir para existir, apesar de não ser o lema de nenhuma delas, funciona tão bem quanto.
Imagem: Gabriel Sawaf
Imagem: Gabriel Sawaf
Imagem: Gabriel Sawaf
Para entender as torcidas, é necessário observar sua territorialização junto ao clube e de que forma isso se originaliza e se espalha na cidade. Dentro da sua história, os três principais times da capital curitibana já passaram por estádios diferentes, e possuem seus Centros de Treinamento (CT) espalhados até pela Região Metropolitana de Curitiba (PR).
Assim como os times, as torcidas também possuem seus espaços, que são as chamadas "sedes". Geralmente, elas ficam próximas aos estádios e possuem uma ampla importância para as torcidas, isso porque é lá onde todo o patrimônio é guardado, além de servir de ponto de encontro dos pós e pré-jogos, abrigar a loja oficial, bar e ser o local das principais decisões das organizações.
Muito mais do que grupos de determinadas regiões da cidade, estado ou até internacionais, os comandos, que geralmente se unem para ir aos jogos juntos, realizam eventos internos e produzem seus próprios produtos personalizados, como camisetas, bonés, moletons, faixas de mão, entre outros.
"O comando é um grupo dentro da torcida. O papel dos comandos dentro da torcida é defender a sede e o patrimônio, fortalecer a arquibancada e viver o dia a dia da torcida. Para ser um comando tem que participar ativamente, ser presente nos jogos e ser um diferencial na torcida, além dos projetos sociais que diversos comandos trabalham.", explica Marcelo de Souza, presidente do comando Fúria Uberaba, da TFI.
Uma observação feita por Marcelo e demais integrantes, é que um comando só surge se a própria torcida autorizar e apoiar o movimento, já que o nome da instituição estará atrelado.
Confira os comandos oficiais de cada torcida da capital
As brigas, na grande maioria das vezes, ocorre também entre os comandos. As "pistas" são marcadas entre integrantes desses grupos e servem para definir território, demonstrar força, ou simplesmente porque gostam. Em Curitiba, existem alguns bairros que possuem comandos de mais de uma torcida e que são atuantes naquela região, o que pode gerar mais conflitos.
Ficou interessado em saber mais sobre o que é "pista" ou outras palavras utilizadas pelos torcedores? Confere o dicionário das torcidas organizadas
Além da territorialização, - bastante exposta por meio dos comandos -, símbolos e roupas marcam um determinado espaço e as "fardas" denominam algo. Toda a produção das peças é extremamente pensada, desde o lançamento de uma nova coleção, até a venda de um simples chaveiro.
Das peças mais comuns e utilizados pelas torcidas, estão as camisas, regatas, bermudas, calças, moletons, jaquetas "corta vento", bonés, chapéus do estilo "cata ovo" e peças exclusivas para o público feminino, como as camisas baby look e leggings.
O processo de criação de um novo material, que posteriormente é vendido nas lojas das torcidas, passa por diversas etapas. Dentro da própria torcida, pode existir um designer, que é um dos responsáveis por desenhar as peças, mas as ideias podem surgir de qualquer membro. As fabricantes também aconselham e auxiliam na escolha de cores, detalhes e tecidos.
Com o passar dos anos, os estilos, desenhos e até símbolos se modificam. Da mesma forma, as roupas de torcida são alteradas. No início e nas primeiras coleções, é possível perceber que uniformes mais cheios eram quase que tradição, mas logo perderam espaço para traços simples e minimalistas. Pequenos detalhes, desenhos e tipografia mais modernas ganharam espaço, e os chamados "abadás", com diversos desenhos, cores e informações caíram em desuso.
Muitas das músicas cantadas nos estádios brasileiros podem se parecer, isso porque possuem adaptações e assim, se encaixam dentro das torcidas. Algumas, sequer possuem um verdadeiro dono, apenas se tornam patrimônio, outras, são criadas especificamente para a conquista do time ou momento que o clube está passando. Na maioria das vezes, as músicas são paródias de melodias já existentes e utilizam seus ritmos. Xingamentos a outras torcidas também são bastante utilizadas nesse meio, e em Curitiba temos alguns exemplos.
"Libertadores, estamos chegando! Meu rubro-negro, seremos campeões". Essa é uma das canções entoadas pelos Athleticanos em seus jogos. Ela foi criada em 2017, quando o time disputava a Libertadores, e nunca mais saiu das graças dos torcedores.
"Hoje eu vim pro Couto bem mais cedo, beber com a torcida da Mauá". A Mauá é uma das ruas aos arredores do Couto Pereira, e também nome de um dos setores do estádio. A canção entrou no repertório da torcida há alguns anos e segue até hoje.
"Invade a grande área no grito da arquibancada, balança a rede hoje vai ser goleada. Tricolor da Vila, nós gostamos de você. Tricolor da Vila, faz mais um pra gente vê". Essa música é um dos exemplos de paródias. Inspirada na canção "Fio Maravilha", de Jorge Ben Jor, ela é utilizada após gols do time.
Gritos de guerra também são músicas, mas funcionam de uma outra forma na arquibancada. O puxador grita a frase por primeiro e em seguida os demais membros repetem. Geralmente, não utilizam a bateria, apenas a voz e também palmas.
Criação de músicas
"De cada 20 músicas, se aproveita uma", cita o diretor de bateria da Fanáticos, Fabiano, que sempre auxilia e faz parte da criação de músicas. De acordo com ele, grande parte das músicas são ideias recebidas e vindas de membros, que após aprimorar a ideia com os demais responsáveis e transformar no ritmo da torcida, e junto com a bateria, é hora de tentar emplacar a música no estádio.
Para uma música cair nas graças da torcida é um momento quase que raro, pois não basta apenas a organizada saber a letra, é necessário estar em sintonia com os demais torcedores. Atualmente, as redes sociais são as principais aliadas na hora de fazerem uma música ser conhecida pelos demais.
Ouça algumas das músicas cantadas pela três organizadas da capital.
O fato é: nenhuma música existe sem seus instrumentos, que fazem com que ela ganhe ritmo e seja lembrada antes mesmo da canção iniciar. Dentro de uma torcida organizada, a área responsável por levar a música às arquibancadas se chama "bateria". A alma do estádio possui integrantes que fazem parte unicamente dessa função, e tem como atividades, ensaios e tocar por 90' minutos.
A bateria tem como fator chave, chamar os demais torcedores para entoar uma nova música ou grito de guerra. Quem está nessa função, por muitas vezes nem assiste os jogos, já que a concentração tem que ser total em se manter no ritmo e na música da vez.
Os instrumentos utilizados nas baterias de torcida organizada variam. Algumas, como a "Barra Brava" - bastante comum em times da América Latina -, utilizam instrumentos diferentes, como "murgas" e "burbos". Estes, não são muito comuns em torcidas do Brasil, apenas em específicas, como por exemplo a Geral do Grêmio (RS).
Nas três principais torcidas da capital, os instrumentos utilizados são os surdos de primeira, segunda e terceira, chocalhos, repiques, tamborins, caixas e suas variações. São eles os responsáveis por entoar no estádio inteiro as canções, que posteriormente são ouvidas nas transmissões de TVs, rádios e streamings.
Para entrar na equipe da bateria, o principal é a disponibilidade. Isso porque é necessário dias de ensaios até pegar o ritmo e ser liberado para tocar dentro do estádio. Um erro pode atrapalhar os demais membros e até a música inteira. Além da disposição, que é necessária, pois tocar os dois tempos é um desafio.
Daniel Chiampi é um dos diretores da bateria da Império Alviverde desde 2015. Responsável por receber, avaliar e ensaiar a bateria, Daniel entrou na torcida em 2005, mas apenas cinco anos depois passou a integrar o grupo de bateria, o qual faz parte até hoje. O diretor explica que a ala "bateria show" é uma nova aposta da torcida, que realiza eventos de aniversário, eventos corporativos, entre outros, e que vem sendo aceita pelos torcedores, que contratam o serviço.
A bateria, exceto em punições, está presente em todos os jogos, às vezes até nos confrontos fora de casa. Fazer parte desse grupo é se abdicar até de assistir o jogo, pois em alguns momentos a concentração tem que ser total ao instrumento. O peso e dores, por movimentos repetitivos também podem ser um problema, mas que vale a pena. "Eu sinto que estou contribuindo para resultado do time", afirma Bruna Lack, componente da bateria da Fanáticos há 15 anos, e que explica, que mesmo quando sai de casa mais cedo, ou deixa seus familiares para viajar por horas e horas, sente, de alguma forma, um enorme pertencimento.
Bruna toca na bateria desde 2007, mas frequenta a torcida desde 2001. Iniciou tocando chocalho e hoje é multi-instrumentista. Para a torcedora, um dos seus objetivos é construir um legado forte para sua torcida, tendo em vista que se preocupa com as novas gerações, além de ser bastante receptiva com novas pessoas que pairam a sede.
As três torcidas da capital possuem, em média, 80 instrumentos cada, divididos entre todos os utilizados e até mesmo em baterias novas e as antigas, mais desgastadas e utilizadas para ensaios. Além de acessórios, como as baquetas, utilizadas para tocar ou as faixas, que prendem os instrumentos aos componentes e são personalizados pelas torcidas.
Nas orquestras é o maestro, na arquibancada, o puxador. Essa tarefa é considerada uma das mais importantes para compor as festas, pois é ela quem guia o restante do estádio e necessita de bastante experiência. Segundo Fabiano Machado, puxador da Fanáticos desde 1997, "é necessário ter o feeling". É ele quem chama a torcida para embalar músicas e inflamar a arquibancada. O puxador tem que estar completamente alinhado com a bateria e os demais membros da torcida, que ajudam a aumentar o coro, em busca de atingir todos os torcedores.
Fabiano é diretor de bateria da Fanáticos desde 1995 e é puxador desde meados de 1998. São mais de 20 anos à frente da torcida dentro do estádio. O torcedor, que entrou na torcida por ir aos jogos e focar somente na festa da arquibancada, conta que sua carteirinha de sócio da organizada é a 635.
A música certa no momento certo, o jogador certo no momento exato e a exaltação ou calmaria nos momentos que pedem essas emoções. As três torcidas da capital utilizam o "caixote", citado por Fabiano. O puxador oficial geralmente conta com a ajuda de mais um ou dois membros em gritos de guerra, por exemplo.
O puxador é quem chama a atenção de membros que estão na torcida, mas não estão cantando, ou ainda de toda a torcida, quando é necessário um esforço maior para entoar a música para todo o resto dos torcedores.
O patrimônio é composto por toda a parte física que a torcida possui, além de claro, a ideologia. São faixas, bandeiras, materiais específicos usados em jogos "de festa" e até mesmo cada bambu das bandeiras de mastro. São esses símbolos que demarcam o espaço onde a torcida fica dentro do estádio e definem seu tamanho frente aos adversários. São eles os principais responsáveis por deixar as fotos bonitas e compor as festas na bancada.
Os bandeirões, geralmente, são utilizados em jogos de maior público, já que necessitam de mais pessoas para serem abertos, ou ainda, em clássicos. As três torcidas da capital possuem materiais que cobrem suas arquibancadas, e ainda as chamadas "bolachas", que são bandeiras menores, mas que também são estendidas com o auxílio de pessoas.
Quando é hora de abrir esses materiais, toda ajuda é bem-vinda. Além do peso de cada um, é necessário que a subida seja feita de forma sincronizada, para visualmente se ter uma imagem bonita. Assim como a descida, que tem que ser feita de forma igual, pelo mesmo motivo da subida.
As faixas são dos mais diversos tamanhos e possuem os mais diversos símbolos, frases e servem até como forma de protesto contra o mau momento dos clubes. Por exemplo, uma antiga conhecida da torcida paranista, que diz "primeira divisão já", ou a do Coritiba "respeitem a nossa camisa", e há ainda uma com a palavra "chute" e diversas setas apontando para o gol, utilizada na torcida do Athletico em uma ocasião de escassez de gols. Além dessas, existem as faixas de mão, confeccionadas até pelos comandos, com seus respectivos nomes.
As bandeiras de mastro ficam presas em pedaços de bambu, que medem cerca de seis metros e podem chegar a pesar mais de 30 quilos caso estejam molhadas. Para "bandeirar", algumas técnicas são necessárias, pois os os movimentos que devem ser feitos, seguem uma espécie de padrão, para que visualmente, fique bonito. O momento de bandeirar é decidido de acordo com a música do momento e, os integrantes que bandeiram, ficam divididos na arquibancada.
Pré-jogo e montagem da festa
Nos dias de jogos, vemos tudo já lindo na TV, mas para aquilo acontecer com tamanha perfeição e com um espaço zero para erros, o trabalho começa bem cedo. Uma equipe, chamada de "material" é responsável por chegar horas antes, selecionar as faixas que irão para o jogo, levá-las até o estádio e realizar a distribuição por todo o estádio.
Em dias de clássicos ou de jogos maiores e importantes para o clube, que tem festas maiores, a programação pode começar a acontecer semanas antes, pois muitas vezes necessita da arrecadação de dinheiro para comprar fumaças e outros materiais.
Na hora do jogo o trabalho continua. Além de bandeirar os materiais presos no bambu, há ainda a necessidade de saber a hora exata de abrir um bandeirão ou, caso ocorra imprevistos, ter, em mãos uma fita para consertar uma bandeira que saiu do bambu ou um pedaço de fio para amarrar a faixa que se soltou.
Após o jogo o trabalho segue para essa equipe. É hora de juntar tudo o que foi utilizado nos jogos e retornar para a sede. Lá, tudo precisa ser guardado novamente nos cofres das torcidas e caso tenha tido chuva, a secagem do material é necessária ser feita antes de guardá-lo, com o objetivo de aumentar sua vida útil. "Na nossa sede temos um espaço dedicado a isso, para fazer a secagem do material, ou às vezes o clube pede para adentrarmos ao estádio para fazer a secagem de faixas maiores", explica o diretor de material da Império Alviverde, Matheus Iancoski".
Matheus Iancoski está na torcida desde 2011 e integra a diretoria, como responsável pelo material, ou patrimônio, há quatro anos. Sua função é uma das mais importantes em dias de jogos. É ele, junto com toda a equipe que separa os materiais na sede, levam até o estádio e organizam na arquibancada. É necessário diversas pessoas, pois não é apenas abrir as faixas, mas também amarrá-las, para que não voem ou caiam. Quando há bandeirões no dia, tem que colocá-los na ponta da arquibancada, já abertos, para que na hora de abrir esteja tudo em ordem.
A produção de novas faixas e bandeiras partem de ideias de membros ou da necessidade de homenagear algum membro, jogador ou comemorar títulos. Toda a diretoria, de forma conjunta, decide quais ideias vão para a frente, qual a necessidade de um novo material e além de tudo o caixa da torcida, visto que a produção de uma nova faixa ou bandeirão possuem altos custos.
Apesar de ter uma equipe responsável por essa área, cuidar desse patrimônio é uma tarefa de cada membro da torcida. Seja cuidar de simples boné ou até cuidar para não pisar, sem querer, em faixas. Caso necessite de mais uma pessoa para subir o bandeirão, sempre haverá um membro que se irá se disponibilizar para ajudar a completar a festa.
Um dos temas mais importantes dentro de uma Torcida Organizada é, se não, o principal. A ideologia é o que move quem está lá dentro. É o que faz com que se reúnam embaixo de chuva ou sol para fazer a festa na arquibancada. É isso que faz com que, mesmo nas fases ruins, a torcida siga firme na labuta. É o que, a todo momento, deve ser lembrado e mais do que nunca, repassado para outras gerações. A ideologia é o que guia o caminho que deve ser percorrido por todos, em busca de um só objetivo, um só símbolo: o clube.
Antes de ser morto em 2022, após um cavalo da PM o pisotear, o presidente da TFI na época, Mauro Urbim relatou em um post de rede social que ideologia é mais que resultado. "Fazem parte da ideologia de uma torcida organizada, manter suas origens, preservar sua história e ao ensinar a caminhada aos mais novos, mantermos vivo o que amamos. Vendemos sentimentos e não resultados. Pregamos isso fortemente, ensinamos sim nossa geração como se torce na arquibancada".
"O principal de uma torcida é apoiar o clube, incentivar sempre", destaca o vice-presidente da IAV. A festa no estádio, que parte do pré jogo é um dos momentos em que as torcidas mais se preparam, pois é nele onde tudo o que foi planejado durante dias, é posto em prática e os membros conseguem expressar sua paixão e amor pelo clube.
Rafael Oliveira, na torcida mais conhecido como "cabeça", possui 36 anos e está na Império há pelo menos 20. Sua história começou indo aos jogos com a família, mas aos poucos a paixão pela torcida o levou a participar de forma mais assídua e ter cargos dentro da organização. Em 2013, Rafael entrou para a diretoria e de lá não saiu mais. Hoje, o vice-presidente está, de forma provisória na presidência, pois o atual dono do cargo, Juliano Rodrigues (Lano) passa por problemas de saúde.
O objetivo pelo qual as primeiras torcidas surgiram, que é o de verificar as ações e contas do clube, permanece até hoje vivo nas torcidas. "Apoiar o clube, mas também fiscalizar. Tem muitas coisas que é papel da torcida fiscalizar, além de pensar no crescimento da torcida", explica o vice-presidente da Fúria Independente, Thiago Silva.
Ter um papel ativo na prestação de contas do clube, analisar documentos, exigir mudanças e solicitar explicações, são algumas das tarefas que as Torcidas Organizadas realizam. Comuns são os casos de torcedores que vão até os CT's dos clubes cobrar por explicação quanto ao mau momento no campeonato.
A ideologia de uma torcida organizada vai muito mais além do que respeitar e lutar por seus ideais. A ideologia é levar as cores do time para outras cidades, estados e até países. Horas na estrada para chegar no estádio, assistir 90 minutos e retornar para sua cidade. Ônibus quebrado, dor nas costas, cansaço, trânsito e demais adversidades sempre ocorrem, mas a vontade de ver o time e representar a torcida é bem maior que tudo isso.
Na história das três torcidas da capital, as caravanas sempre estiveram presentes. Seja para ir à final de campeonatos ou para garantir os três pontos no brasileirão. É difícil, ou quase impossível achar algum jogo em que os times jogaram sozinhos. As torcidas sempre estão presentes, mesmo que para isso seja necessário abdicar de horas ou dias na estrada.
O jogo contra o Juventude foi de imensa importância para o Coritiba, já que os três pontos ajudariam manter o time na série A do campeonato brasileiro de 2022. Cerca de 40 ônibus, organizados pela torcida, se deslocaram para o Estádio Alfredo Jaconi (RS) e acompanharam a vitória do time pelo placar de 1x0.
Cerca de 660 torcedores, alocados em 21 ônibus, acompanharam o time em mais uma partida da luta pelo acesso à série A, no brasileirão de 2013. A caravana para a Arena Joinville (SC) foi uma das maiores da história da torcida. Mas na ocasião, o placar foi de 1x0 para o Joinville.
A final da Libertadores de 2022 foi em campo misto, em Guayaquil, no Equador. Mais de 1500 torcedores do Athletico estiveram presentes, entre eles, membros da organizada, que enfrentaram mais de 24 horas de viagem. O clube perdeu para o Flamengo pelo placar de 1x0 e deu adeus ao sonho do título.
Para ajudar nessa missão de levar as cores para outros estados, alianças são formadas. A IAV possui, hoje, cerca de 30 aliadas oficiais de diversos estados do Brasil, principalmente da região nordeste. A TFI tem apenas duas, a Young Flu, do Fluminense (RJ) e Fúria Guarani, do Guarani (SP). A TOF possui 19, sendo cinco internacionais de países como Venezuela e Argentina.
O principal papel das aliadas é o fortalecimento da "bancada" em jogos fora do estado. Quando o time de uma torcida aliada joga na cidade de outra, geralmente, os residentes os recepcionam em suas sedes, dando um suporte e até indo junto aos jogos, além de participarem de festas umas das outras e ter bandeiras e faixas compartilhadas entre si, que podem ser utilizadas em jogos contra adversários.
Anderson Mateus está na torcida desde 2003, e há oito anos atua como diretor de comunicação da Fanáticos. Para ele, as aliadas partem da amizade e recepção, já que em todas as áreas da vida, ao ser bem recebido em um local, quando houver chances a pessoa irá retribuir. A identificação entre as organizadas também é um dos princípios para o surgimento de uma aliança.
A Império possui no Rio Grande do Sul, aliança com a Geral do Grêmio; em Santa Catarina, com a Mancha Azul do Avaí; em Minas Gerais, com a Galoucura do Atlético-MG; na Bahia, com a Bamor do Bahia; em Pernambuco, com a Inferno Coral do Santa Cruz, no Alagoas, com a Mancha Azul do CSA, no Ceará com a Cearamor do Ceará, entre outras.
A Fúria possui apenas duas alianças oficiais, mas boa relação com diversas torcidas do país inteiro.
A Fanáticos tem aliança com a Leões da TUF, do Fortaleza; com o Comando Alvi-Rubro do CRB, em Alagoas, com a Esquadrão Vilanovense do Vila Nova, em Goiás, com a Gaviões Alvinegros do Figueirense, em Santa Catarina e com a Guarda Popular do Internacional, no Rio Grande do Sul. Fora do Brasil, tem a Los Demonios Rojos do Caracas, um clube da Venezuela, ou com os Leprosos do Newell's Old Boys, da Argentina.
O início de uma amizade depende de alguns elementos, principalmente a hospitalidade. "Geralmente, começa em uma amizade pessoal e que vai se expandindo. Nossa amizade com a Inferno Coral (Santa Cruz), por exemplo, começou quando um integrante nosso foi pra lá e foi recebido numa logística excelente. Hoje é uma das nossas maiores aliadas", relembra Cleiton Cartes, diretor de aliadas da Império Alviverde.
Mais do que as alianças, ainda existem as torcidas amigas, que são organizações que têm uma amizade e bom relacionamento, mas que não chegam a ser aliadas oficiais. A TFI possui como torcida amiga a Fúria Marcilista, do Marcílio Dias, ou ainda a Pavilhão 6, do Clube do Remo (AM). A IAV tem a Mancha Negra, do ASA (AL) e a Fúria Icasiana, do ICASA (CE). Já a TOF possui uma boa relação com sua antiga aliada, a Máfia Azul, do Cruzeiro e com torcidas de fora do país. Um exemplo foi a recepção que tiveram dos torcedores do Guayaquil, no Equador.
De 1941 a 1979 o futebol era proibido de ser praticado por mulheres no Brasil. Uma mulher participando de uma Torcida Organizada da forma que é hoje? Jamais. As conquistas são recentes e extremamente necessárias. Hoje, as mulheres não apenas praticam o esporte, como torcem para seus times, na arquibancada e algumas até mesmo tocam na bateria e participam assiduamente de suas torcidas.
O futebol é um ambiente machista, assim como tantos outros. A torcida pode até ser, mas hoje, bem menos, e quem fala isso não sou eu ou você, são elas, que vivem torcida e possuem abertura e espaço dentro das organizações. É a Maina, primeira Velha Guarda da Império, mas também a Karina, uma das fundadoras da Fúria Feminina ou a Bruna, que toca na bateria da Fanáticos há 15 anos.
"O machismo na torcida existe, não dá para dizer que não existe". Essa frase foi dita tanto por Bruna Lack, quanto por Maina Cardoso. O ambiente nos quais elas fazem parte é majoritariamente masculino, mas que aumenta a quantidade de mulheres a cada ano. Um exemplo, são os grupos femininos dentro das torcidas. A Fúria Feminina, da TFI e o Pelotão Feminino da TOF.
Além das agremiações criadas dentro da torcida, existem ainda os grupos femininos da torcida dos times. Atleticaníssimas, Gurias do Couto e Gralhas da Vila são movimentos de mulheres, que lutam pelos seus times e lutam contra o machismo presente na arquibancada e se envolvem em ações sociais.
Maina Cardoso completou em 2022 dez anos ininterruptos tocando na bateria da Império. Com esse feito, tornou-se a primeira mulher a integrar a Velha Guarda da torcida, que é quando um membro participa de forma ativa por dez anos ou mais. Cada vez mais mulheres entram nessa área e ganham seus espaços. A componente lembra que quando entrou, já possuíam mulheres na bateria, mas que hoje o time está maior. "Hoje tem cerca de dez mulheres na bateria. É um número bem representativo. Aqui na torcida a gente tem espaço e uma relação boa".
Antes de integrar a bateria, a torcedora participava da equipe do material. O interesse pelos instrumentos surgiu logo nessa época, mas demorou algum tempo para fazer realmente parte da rotina dela, que garante que no início não sabia como se aproximar da ala. Atualmente, a torcedora toca o chocalho e está presente em grande parte dos jogos, inclusive os fora de casa, e sempre compondo a bateria da torcida e levando a música ao estádio.
Mesmo grávida, a torcedora continuou indo aos jogos e participando ativamente da torcida, inclusive em suas funções na bateria. O primeiro contato do filho no estádio foi aos dois meses. Hoje, Murilo, de três anos, o acompanha nos jogos, junto com seu marido, que também faz parte da organizada. De acordo com Maina, o filho adora estar no estádio.
"Temos que focar nisso, porque torcida também tem um lado social e que merece ser trabalhado e mais divulgado" - Daniel Chiampi
A área social é bastante presente dentro das torcidas. Seja uma arrecadação de brinquedos no dia das crianças, doces no natal, chocolate na páscoa, cestas básicas para ajudar famílias em vulnerabilidade social ou doação de marmitas para pessoas em situação de rua. Em 2022, as três principais Torcidas Organizadas de Curitiba realizaram mais de dez ações sociais. Na pandemia, mesmo que em ações pontuais entre os comandos, foram realizadas ações sociais pelas torcidas.
Todas as quintas-feiras, a Fanáticos realiza a doação de marmitas para os moradores do Parolin. Faça chuva ou faça sol, Silmar Zancan, responsável pela ação, garante que estão lá. Os alimentos são preparados na própria sede pelos integrantes da torcida, que posteriormente se dirigem até a comunidade para realizar a doação aos moradores em situação de rua e vulnerabilidade que vivem no local.
"Hoje, na torcida, nós estamos tendo uma visão maior sobre essas outras áreas" - Karina Bertini
Karina Bertini é integrante da Fúria Independente desde 2005 e foi uma das fundadoras da Fúria Feminina, além de tocar na bateria da torcida. Hoje, é diretora das ações sociais e está à frente da coordenação de eventos focados em realizar arrecadação de doces, brinquedos, alimentos, produtos de higiene básica, entre outros, para realizar as doações em determinadas épocas do ano. Os comandos são os principais aliados nessa etapa, visto que se organizam de forma independente e realizam ações em seus bairros.
Ver casos de brigas entres torcidas se tornou cada vez mais comum, e nem precisa ser em dia de clássico. Seja dentro do estádio ou em seus arredores, com torcida única ou não, nas cidades ou estradas. Não importa. As brigas, chamadas de "pista" para os membros ocorre e quem participa afirma que, "são consequências do dia a dia".
A cada briga registrada, mandos de campo são perdidos, as torcidas com seus nomes manchados e quem realmente brigou, impune e pronto para a próxima, pois não são devidamente identificados e punidos. Para os representantes das torcidas, as brigas ocorrem em todos os lugares, inclusive quando há torcidas únicas.
"Não adianta punir o CNPJ, tem que punir o CPF" - Ewerton Blitzkow
A frase dita pelo presidente da Fúria Independente, Ewerton também se ouve de representantes de outras torcidas. Para ele, as brigas não estão apenas entre torcidas, mas também entre os próprios integrantes de uma mesma organização, que ocorrem por inúmeros motivos, entre eles álcool, irritação com o time, entre outros. "Tem que tomar outras medidas. Ver as pessoas envolvidas na confusão e aplicar punições a elas, até mesmo multas", completa.
Ewerton está na torcida desde 1999 e fez parte da diretoria entre os anos de 2006 e 2008. Sua saída se deu para comandar o Comando Oeste, o qual fazia parte. O retorno para as funções administrativas se deu em 2018, e a presidência chegou até o então, ex-vice-presidente de maneira fatal, após a morte de Mauro Urbim, pisoteado por um cavalo da Polícia Militar (PM) aos arredores da Vila Capanema.
Das punições mais recentes no futebol paranaense, está a perda de mando de campo do Paraná Clube, no Campeonato Paranaense de 2022. Revoltada com o péssimo momento do clube na disputa, a torcida invadiu o gramado da Vila Capanema. Após o fato ser julgado pelo Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD), foi decidido que o clube perderá oito mandos de campos, a serem pagos na próxima edição, além do pagamento de uma multa.
Na ocasião, torcedores com a camisa da organizada invadiram o gramado, mas apenas o clube sofreu punições. "Nem todo mundo que usa uma camisa de torcida, é da torcida. A venda de camisas é feita porque as torcidas precisam de renda", conta Anderson Mateus, diretor de comunicação da Fanáticos.
Apenas em 2022 ocorreram duas mortes de torcedores do lado de fora dos estádios da capital. Em junho, faleceu um torcedor do Palmeiras (SP), que veio de sua cidade de origem acompanhar uma partida de seu time contra o Coritiba. O caso se deu após uma confusão, que ocorreu na porta do estádio. Em nota, a Mancha Alvi Verde (Torcida Organizada do Palmeiras) diz que, a Polícia Militar (PM), que escoltava os sete ônibus da torcida, errou, por duas vezes o caminho e os levou a frente de uma entrada da torcida do Coritiba e a qual não era possível manobrar, iniciando ali o confronto com torcedores locais. "O despreparo de quem deveria proteger a população não pode ser negligenciado e virar cortina de fumaça pelo histórico de organizadas".
A Império também soltou uma nota, que conta a ordem dos fatos da mesma maneira que a Mancha Alvi Verde. "Após analisar diversas imagens do ocorrido, fica evidente a falha grotesca da Polícia Militar na escolta da torcida visitante. Simplesmente os ônibus foram trazidos para o portão de entrada da torcida do Coritiba, local onde, mesmo durante o jogo, alguns poucos torcedores (organizados e não) permanecem reunidos. Assim teve início a confusão".
Imagem: Reprodução/Fúria Independente
Menos de dois meses depois, ocorreu a morte de outro torcedor. Desta vez, Mauro Urbim (41), presidente da Fúria Independente foi morto após um cavalo da PM pisotear sua cabeça. De acordo com os policiais, os membros da TFI tentaram uma invasão à torcida visitante, e por esse motivo foi necessário formação em linha da cavalaria.
"No entanto, insistindo no intento de invasão, tornaram-se hostis. Objetivando manter a ordem e principalmente preservar a integridade dos torcedores do Cascavel, as equipes progrediram na tentativa de persuasão ao recuo, os quais retornaram ao interior do estádio", diz um parágrafo da nota divulgada pela corporação.
Essa versão foi negada por ambas as torcidas. A "Lá Fúria Aurinegra", organizada do time visitante, soltou uma nota, onde diz que desde a chegada da torcida na capital, foram tratados com desdém pela PM, e em certo trecho negam a invasão. "Após o jogo soubemos do ocorrido, a PM informou que a torcida do Paraná Clube estava tentando invadir o setor visitante, isso foi uma mentira, não houve sequer provocação antes/durante/depois, qualquer notícia que seria por conflito entre torcidas é mera fuga para a ação truculenta, querem imputar crime as torcidas para se isentar de culpa".
A nota publicada pela TFI pede por um batalhão especializado em futebol, com profissionais que entendam a dinâmica e as torcidas, além de clamar por justiça e reafirmar que não houve invasão. "Em momento algum houve confusão. Ou seja, NADA justifica a ação violenta e criminosa da Polícia Militar".
O presidente da Fúria, e que estava com Mauro Urbim no momento do ocorrido, cita ainda outros momentos de despreparo da polícia em cobertura de eventos esportivos. Um exemplo é o abuso de poder durante as famosas caminhadas até os estádios vizinhos, ou ainda a falta de escolta nesses eventos, necessária para realizar a segurança dos torcedores e pessoas comuns que estão nas ruas.
Thiago, vice-presidente da TFI, concorda com Ewerton e cita o despreparo da polícia nas escoltas de caminhadas. Ele explica que a solicitação de escoltas para jogos em outros estados ou em idas até o estádio dos rivais da cidade é comum ser feita. "Quando tem jogos em cidades grandes é feito o envio de um ofício para a polícia, para dizer quantos ônibus estão indo, além de vans e carros, para que autorizem nossa entrada no estádio, até com faixas e instrumentos".
Em alguns estados do país a entrada nos estádios com símbolos de organizada são proibidos. No Rio de Janeiro, por exemplo, as torcidas ficaram oito anos sem poder entrar no estádio com suas camisas ou faixas. Em São Paulo, além de não poder mais ter clássicos com torcida visitante, o uso de materiais de torcidas é proibido.
As caminhadas, comuns e realizadas pelos times para assistirem seus times em estádios da capital, sempre tiveram escolta da polícia, - tanto para a segurança dos torcedores participantes, quanto para a segurança pública e impedir confusões entre rivais -. Até 2022. O ano começou de forma atípica para os torcedores do Paraná Clube, que tiveram a escolta negada para irem até a casa do Athletico, no primeiro jogo do Campeonato Paranaense do ano.
"O que dá a entender é que a PM estava deixando as brigas ocorrerem em clássicos, para que futuramente não precisem mais fazer esses eventos em dias de jogos"
- Thiago Silva
Thiago conta que o pedido de reunião para a escolta foi feito, mas sem respostas. Os encontros acontecem, geralmente, na semana do jogo e servem para definir horário de saída, o que poderá adentrar o estádio, entre outras informações necessárias. "Na sexta-feira tivemos uma reunião na Delegacia Móvel de Atendimento a Futebol e Eventos (DEMAFE), que foram nossos representantes e os representantes da torcida do Athletico. O jogo foi no domingo e realmente não ocorreu a escolta", afirma o vice-presidente, que disse terem frisado na reunião, que: "A gente só quer ir pro jogo, apoiar o clube e voltar em segurança".
Os torcedores, incluindo crianças e mulheres, saíram da sede mesmo sem a presença da polícia, que os encontrou apenas próximo a algumas quadras do estádio. Segundo Thiago, algumas motos da Polícia Militar chegaram e escoltaram até a visitante, onde a cavalaria os aguardava. O efetivo não foi o suficiente para evitar um confronto, que de acordo com o torcedor, apesar de pequeno, podia ser evitado.
Thiago está na torcida há mais de dez anos e assumiu a vice-presidência da TFI após a fatalidade com o ex-presidente, Mauro. O torcedor foi durante um ano secretário da torcida, e realizada diversas funções, entre elas as mais burocráticas, como ofícios e solicitações em relação a necessidade de escoltas dentro da cidade ou em viagens para outros estados. Em julho de 2022, Thiago completou dez anos de bateria.
Segundo a pesquisadora Flávia Toledo Ladeira, desde o início dos anos 2000, as autoridades querem acabar com as torcidas organizadas. Diversos são os motivos. Um deles, é o deslocamento de policiais para realizar a escolta desses agrupamentos em dias de jogos ou até mesmo atuar ao entorno do estádio, garantindo a ordem.
Muito estigmatizados, mas também por conta de episódios de brigas, esses torcedores são tratados como vândalos por uma grande parcela da sociedade. Depredar patrimônio público e ônibus, tocar o terror na cidade e criar enormes brigas ao ar livre. As Torcidas Organizadas são conhecidas por esses episódios e, posteriormente, quando ocorrem dentro de estádios, as punições são para os times, pois identificações de indivíduos não são realizadas.
"Enquanto você não faz uma punição individual, deixando de punir esse agente, você diz pra ele que está tudo certo, que ele pode continuar fazendo o que estava fazendo, pois vai ser ele o punido. O punido vai ser a instituição a qual você está vestindo uma camisa", declara o diretor de comunicação da Fanáticos.
A Fanáticos já passou por alguns momentos de punição dentro do estádio, não podendo utilizar seus símbolos em roupas ou adentrar o espaço com faixas, bandeiras e até mesmo a bateria. Os motivos para que essas decisões sejam tomadas, grande parte das vezes foi após brigas e confusões, onde havia pessoas com camisas da torcida. Segundo o diretor, nem todos que vestem a camisa da torcida, são realmente da instituição. Para se manterem, as torcidas realizam a venda de itens da torcida para quem quiser ou se identificar com a organização. "A principal luta das torcidas é para que os agentes que cometem esses delitos sejam os punidos", reitera.
Em 2010 foi lançado na capital o projeto "Torcida Legal", que consistia no cadastro de todos os torcedores organizados das três torcidas da capital, para que dessa forma, os dados ficassem à disposição do poder público e punições direcionadas pudessem ser realizadas.
O projeto, criado pelo Ministério do Esporte, pretendia ser expandido por todo o país, mas se quer saiu de Curitiba. As três torcidas reuniram seus sócios, realizaram seus cadastros e quando os dados chegaram aos órgãos responsáveis não houve continuação.
Hoje, quando os torcedores envolvidos em confusões são identificados, geralmente é com o auxílio de câmeras de seguranças, postas em estádios, ou simplesmente não ocorre esse reconhecimento. A cada punição, proibição na entrada de materiais nos estádios ou jogos com torcida única, as torcidas organizadas perdem uma batalha da sobrevivência e depois, todo o ciclo se repete.
"Torcida Organizada é a última resistência do futebol moderno" - Anderson Mateus