Uma experiência incrível
A exposição "Raízes e Vozes" é um viagem pela história da população negra em Alagoas, começando pela resistência à escravidão, passando pelas lutas por liberdade religiosa, educação, direitos políticos e reconhecimento cultural, até chegar às personalidades contemporâneas que ocupam espaços de liderança e transformam a sociedade.
A história negra de Alagoas não termina em Palmares. Ela continua nas universidades, nos hospitais, nas comunidades quilombolas, nos movimentos sociais, na cultura, na política e nas instituições públicas.
Ancestralidade e narrativas sobre Palmares
Aqualtune é uma figura presente nas narrativas sobre a formação de Palmares e sua ancestralidade africana. Relatos tradicionais a apresentam como uma princesa africana que teria sido escravizada e trazida ao Brasil, onde se tornou uma referência na organização das comunidades palmarinas.
A história a identifica como a "mãe do rei" Ganga Zumba e informa que residia em um mocambo fortificado associado ao seu nome. Sua memória integra o imaginário de Palmares e destaca a importância das raízes africanas na história de Alagoas.
Organização política e estratégias de resistência
Ganga Zumba foi uma das principais lideranças de Palmares no século XVII. Durante sua atuação, o quilombo reuniu diferentes comunidades e desenvolveu formas próprias de organização política e social para enfrentar as investidas das autoridades coloniais.
Em 1678, Ganga Zumba negociou um acordo de paz com representantes da Coroa portuguesa, iniciativa que provocou divergências entre as lideranças palmarinas. Sua trajetória revela os desafios enfrentados por quem buscava preservar a autonomia de Palmares em meio à violência da escravidão.
Liderança e resistência à escravidão
Zumbi dos Palmares tornou-se um dos principais símbolos da resistência negra à escravidão no Brasil. Liderança do Quilombo dos Palmares, território de comunidades que enfrentaram o domínio colonial, esteve à frente da luta pela preservação de sua autonomia diante das expedições militares portuguesas.
Assassinado em 20 de novembro de 1695, Zumbi representa a resistência de homens e mulheres que lutaram pela liberdade. Sua memória permanece viva e inspira reflexões sobre igualdade, justiça e enfrentamento ao racismo.
Foto: Revista Galileu
Mulheres na memória e na tradição palmarina
Dandara dos Palmares ocupa um lugar de destaque na memória da resistência negra e na representação da participação das mulheres na luta contra a escravidão. Associada à defesa de Palmares, sua imagem simboliza a coragem e o protagonismo feminino na construção de caminhos de liberdade.
Os registros históricos sobre sua vida são limitados, e parte das informações difundidas sobre sua trajetória pertence à tradição e à memória coletiva. Reconhecer Dandara é também valorizar as mulheres negras cuja atuação foi fundamental para a resistência, embora nem sempre tenha recebido o devido registro histórico.
Resistência ao racismo religioso
Tia Marcelina foi uma importante ialorixá e liderança religiosa de matriz africana em Maceió no início do século XX. Em fevereiro de 1912, durante o episódio conhecido como Quebra de Xangô, seu terreiro foi invadido e ela sofreu agressões que resultaram em sua morte. O ataque atingiu diversas casas religiosas da capital e marcou profundamente a história das comunidades afro-religiosas alagoanas.
Sua trajetória permanece como símbolo da resistência ao racismo religioso e da luta pela liberdade de crença. Preservada também pela memória oral das comunidades de terreiro, Tia Marcelina representa a força dos saberes ancestrais que sobreviveram à violência e seguem vivos nas tradições afro-brasileiras.
Voto feminino e participação política
Nascida em Maceió, em 1899, Almerinda Farias Gama foi jornalista, sindicalista, datilógrafa e militante pelos direitos das mulheres. Integrante da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, participou da mobilização pelo voto feminino e atuou na organização de trabalhadoras, em um período no qual as mulheres enfrentavam barreiras para conquistar direitos políticos e profissionais.
Em 1933, Almerinda tornou-se a única mulher a participar, como delegada-eleitora, da escolha de representantes classistas para a Assembleia Nacional Constituinte. Sua trajetória conecta a luta das mulheres negras à ampliação da democracia brasileira e evidencia a importância de reconhecer quem abriu caminhos para a participação política de outras mulheres.
Música e projeção da cultura alagoana
Nascido em Maceió, em 27 de janeiro de 1949, Djavan construiu uma trajetória que levou a música alagoana aos palcos do Brasil e do mundo. Cantor, compositor e violonista, desenvolveu uma linguagem musical própria, marcada pela combinação de ritmos brasileiros e influências internacionais, além de letras e melodias reconhecidas por sua originalidade.
Sua obra integra a história da Música Popular Brasileira e projeta referências culturais de sua terra natal para diferentes públicos. A trajetória de Djavan mostra como a criação artística transforma experiências, sonoridades e referências locais em uma expressão cultural de alcance universal.
História, pesquisa e movimento negro
Professor, historiador e ativista, Zezito de Araújo dedicou parte significativa de sua trajetória à pesquisa da história afro-brasileira, das comunidades quilombolas e das relações étnico-raciais em Alagoas. Sua atuação acadêmica e sua participação no movimento negro aproximaram a produção de conhecimento das lutas por reconhecimento e igualdade racial.
Ao articular ensino, pesquisa e militância, Zezito contribuiu para ampliar a compreensão sobre a presença negra na formação histórica do estado. Seu trabalho reforça a importância de preservar a memória, enfrentar o racismo e garantir que a história da população negra ocupe espaço nas escolas, universidades e instituições.
Educação e preservação da memória negra
Professor, historiador e militante do movimento negro alagoano, Edson Moreira dedicou sua vida à valorização da cultura afro-brasileira e à preservação da memória de Palmares. Atuou na produção de materiais educativos sobre relações étnico-raciais, defendeu o reconhecimento do patrimônio histórico negro e contribuiu para dar visibilidade a lideranças como Zumbi dos Palmares e Ganga Zumba.
Idealizador do Quilombo Real, espaço dedicado à memória e à cultura afro-brasileira, Edson também participou de iniciativas que marcaram a paisagem e a história de Alagoas, como a valorização de monumentos ligados à resistência palmarina. Seu legado demonstra que preservar a memória é também uma forma de educar, combater o racismo e fortalecer o sentimento de pertencimento das novas gerações.
Educação pública e equidade racial
Maria Aparecida Batista, a professora Cida, é uma educadora e ativista reconhecida por sua trajetória na Universidade Federal de Alagoas (Ufal). Natural de União dos Palmares, Cida iniciou sua carreira no ensino antes dos 18 anos, quando formou-se no magistério. Entrou na Ufal em 1974, na graduação em Filosofia e, em 1980, dois anos após a conclusão do curso, tornou-se servidora e professora da instituição a partir de 1980, lecionando no curso de Psicologia, além de atuar em diversas frentes ligadas à educação pública.
Cida é uma referência em Alagoas na luta em defesa dos direitos das mulheres, contra o racismo e na promoção da justiça social e dos direitos das minorias. Em novembro de 2025, recebeu o título de Doutora Honoris Causa pela Ufal, pelos seus 45 anos de dedicação à universidade pública e à sociedade alagoana.
Foto: Renner Boldrino
Cultura, literatura e saberes ancestrais
Maria Neide Martins, Mãe Neide Oyá d'Oxum, é uma ialorixá que utiliza da releitura dos pratos de terreiro e da ancestralidade para transformar o alimento em ferramenta de informação e resistência. Natural de Arapiraca, ela é uma chef de cozinha premiada e atua no Restaurante Baobá Raízes e Tradições, localizado na Serra da Barriga, em União dos Palmares. A ialorixá também atua como liderança comunitária, estando há frente do Centro de Formação Cultural Inaê e do Grupo União Espírita Santa Bárbara (Guesb), no Village Campestre, em Maceió.
Em 2018, Mãe Neide foi eleita Embaixadora da Gastronomia Alagoana, um reconhecimento por sua relação com a comida de santo e de tradição quilombola. Em 2017, recebeu a medalha de Comendadora da Ordem do Mérito Cultural. Em 2014, a ialorixá recebeu o título de cidadã maceioense, mesmo nascida no município de Arapiraca, e em 2013 o de cidadã Palmarina. Em 03 de agosto de 2011, Mãe Neide Oyá d'Oxum recebeu o título de Patrimônio Vivo de Alagoas, pela Lei nº 6.513, de 22 de setembro de 2004, alterada pela Lei 7.172 de 30 de junho de 2010.
“
Ser mulher já é um grande desafio. Comumente falam ‘sexo frágil’, e eu digo que é o sexo forte.
”
— Mãe Neide Oyá d'Oxum
Foto: Lili Alves/@oxelilifotografia
Espiritualidade e patrimônio cultural
Mirian Araújo Souza Melo, Mãe Mirian, conheceu a vida às margens do Rio São Francisco e é no samba de terreiro que carrega sua ancestralidade. Natural de Piranhas, no Sertão Alagoano, aos 12 anos sua vida começou a ser norteada pela religiosidade, quando despertou para os Orixás. Sua atuação religiosa teve início em meio à uma época de perseguição governamental aos praticantes, onde os pais e mães de santo eram agredidos, tinham os pertences detruídos e, muitas vezes, presos.
Símbolo de valorização das raízes africanas, a ialorixá fez de sua vivência um instrumento de transformação social, com uma trajetória marcada pela resistência, dedicação aos movimentos sociais e respeito à diversidade étnico-religiosa. Em setembro de 2025, aos 91 anos, Mãe Mirian recebeu o título de Doutora Honoris Causa pela Universidade Federal de Alagoas, um reconhecimento pela sua atuação às causas sociais, que seguem no acolhimento de jovens e adultos. Em agosto de 2024, a ialorixá foi reconhecida como Patrimônio Vivo de Alagoas, honrando a importância de sua figura para a comunidade.
Foto: Tatiane Almeida
Medicina e participação política
Maria de Fátima cruzou continentes e adotou Maceió como sua casa. Natural de Cabo Verde, na África, possui uma história de luta contra todas as formas de preconceito e violência. Médica formada pela Universidade Federal de Alagoas (Ufal), Fátima também é vereadora por Maceió, com um mandato pautado pela seriedade, compromisso e dedicação, especialmente à área da saúde.
A vereadora tem forte atuação junto aos movimentos sociais, se destacando na luta pela comunidade, pessoa idosa, cooperativismo e assistência social.
Foto: Câmara Municipal de Maceió
Movimento negro e direitos
Ativista pelos direitos da população negra e pelos direitos das mulheres, Vanda Menezes é psicóloga e tem uma trajetória de militância de mais de 30 anos. Sua atuação junto aos movimentos sociais começou ainda aos 18 anos, quando participou da criação da Associação Cultural Zumbi, primeira entidade negra do estado de Alagoas.
Vanda trabalhou como psicóloga e perita criminal na Polícia Civil, além de ter sido secretária da Mulher, sendo a primeira frente à uma Secretaria de Mulheres no Brasil, em 2002.
Foto: Romildo Soares
Jornalismo e ativismo
Jornalista alagoana e ativista frente às pautas de gênero, raça e etnia, Valdice Gomes se destaca como uma das personalidades que lutam pela promoção da igualdade racial e valorização da cultura afro-brasileira.
Colunista do jornal Tribuna Independente, Valdice foi presidente do Sindicato dos Jornalistas de Alagoas (Sindjornal) e integrou a diretoria da Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ), além de ter fundado a Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial de Alagoas (COJIRA-AL), espaço voltado à discussão e ação em torno das temáticas raciais no jornalismo. Em novembro de 2025, a jornalista recebeu, em sessão especial no Senado Federal, a Comenda Senador Abdias Nascimento, condecoração anual que reconhece personalidades com relevante contribuição à proteção e promoção da cultura afro-brasileira.
Foto: Agência Senado
Mulheres quilombolas e organização comunitária
Do artesanato à luta por direitos, Marlene de Araújo é parte de uma história que luta para dar continuidade. Moradora da Serra das Viúvas, localizada no município de Água Branca, no Alto Sertão de Alagoas, a artesã é descendente quilombola e lidera e coordena a Associação das Mulheres Artesãs e Quilombolas do Quilombo da Serra das Viúvas (AMAQUI).
É através do trabalho como artesã que Marlene contribui para a geração de renda e sustento de boa parte da comunidade. Com sua organização e liderança, ela atua na luta pelo reconhecimento e fortalecimento da identidade quilombola da Serra das Viúvas, trabalhando para preservar a memória, a cultura e a história de seu povo. Com sua participação ativa na AMAQUI, Marlene já alcançou algumas conquistas para a comunidade, como políticas públicas para o fortalecimento da agricultura e inclusçao do quilombo no Programa de Cisternas, que possibilitou a instalação de reservatórios de água em todas as casas da comunidade.
Foto: reprodução
Pesquisa e protagonismo quilombola
Maria Helena é um exemplo de como a educação pode ser um fator determinante para a transformação de realidades. Filha da comunidade quilombola Serra das Viúvas, localizada no município de Água Branca, no Alto Sertão de Alagoas, ela se tornou a primeira mulher quilombola alagoana a conquistar o título de doutora no estado. Graduada em Letras pela Universidade Federal de Alagoas (Ufal), Maria Helena também concluiu mestrado e doutorado na área de Linguística. Em 2020, defendeu sua dissertação de mestrado, intitulada A variação de nós e a gente na comunidade quilombola Serra das Viúvas, com uma pesquisa voltada à própria comunidade. Já no doutorado, desenvolveu o estudo A variação linguística entre tu, você, ocê e cê na comunidade quilombola Serra das Viúvas, Água Branca – Alagoas.
Filha caçula de uma família de agricultores, Maria Helena foi a única de seu núcleo familiar a concluir todas as etapas da formação escolar, representando não apenas uma conquista pessoal, mas também motivo de orgulho para a comunidade quilombola.
Foto: Acervo Pessoal
Igualdade racial e legislação antirracista
Exemplo de como formação acadêmica, compromisso profissional e a luta por direitos podem caminhar juntos, Mayara Heloise Cavalcanti construiu uma carreira marcada pela atuação na defesa dos direitos humanos e na promoção da igualdade racial em Alagoas. A advogada já atuou como orientadora do Núcleo de Práticas Jurídicas (NPJ) da Uninassau e, atualmente, ocupa a presidência da Comissão de Promoção da Igualdade Racial da OAB/AL e é conselheira estadual da Ordem. Também fundou o primeiro escritório de advocacia negra de Alagoas e atua como superintendente de Políticas Públicas em Direitos Humanos da Secretaria de Estado dos Direitos Humanos.
Com atuação nas áreas criminal, de legislação antirracista e execução penal, Mayara também está à frente do Conselho Estadual de Promoção da Igualdade Racial de Alagoas (CONEPIR/AL), reforçando sua contribuição para o fortalecimento das políticas de igualdade racial e o acesso à Justiça.
Foto: Cadú Cajé