Em ação pelos Bombeiros de RR
inicio de carreira na PM/RR
em treinamento no inicio de carreira
Desfile militar nos anos 2000
Mulheres dos Bombeiros/RR
Treinamento Bombeiros
Recebendo diploma
Treinamento
Treinamento
Treinamento
Com a filha Ana Clara
Fotos: Arquivo Pessoal
Nascida em 18 de agosto de 1981, no estado de Roraima, Vanísia Sousa Santos é filha de Raimundo Nonato Leda dos Santos, natural do estado do Amazonas e Antonia Ferreira de Sousa, natural do estado do Maranhão. De família pobre, onde o pai fora pedreiro e a mãe, lavadeira, Vanísia tem três irmãos nascidos da união dos pais: Vânia de Sousa Santos, Luiz Alvino de Souza Neto e Leandro de Sousa Santos. Do primeiro matrimonio do pai, ela tem três irmãs: Valdizia Matos dos Santos, Valdeizia Matos dos Santos e Valdemizia Matos dos Santos. Vanísia também é mãe de Ana Clara, que tem 10 anos.
De família grande e com poucas posses, Vanísia relembra que, durante sua infância não havia a tecnologia que hoje lidera os brinquedos infantis pois, ela, costumava brincar na rua junto aos amigos e irmãos. Naquela época também, a violência não era algo que preocupasse os pais e por isso, talvez, as brincadeiras de rua fossem algo tão natural quanto hoje é uma criança brincando com celular. Nossa mulher roraimense Vanísia também relembra que as pessoas mais pobres não tinham telefone pois, esse era um objeto de consumo restrito apenas aos que tinham poder aquisitivo mais elevado. Segundo ela, o sonho dos pais era que os filhos estudassem para que pudessem conquistar um diploma. Porém, esse sonho era sonhado aos poucos: primeiro um degrau: alfabetização; depois, o primário e assim continuamente até chegar, talvez, no ensino superior. A mãe de Vanísia, apesar de ter se casado ainda adolescente e não ter estudado na época adequada, almejava que os filhos tivessem outro caminho. Vanísia seguiu o ideário de estudar para que, com esforço e dedicação, conquistasse seu espaço e pudesse dar uma vida melhor para seus pais. Ela faz questão de ressaltar que toda sua escolarização foi realizada em escolas públicas onde a mesma alcançou alto rendimento.
Em 1994 aos 13 anos ingressou na sua primeira formação: Magistério Educação Física realizada na Escola Técnica Federal de Roraima (atual IFRR) e, após se formar, cursou Bacharelado em Administração de Empresas pela Universidade Federal de Roraima (UFRR), cursou também Bacharelado em Direito pela Faculdade Estácio Atual da Amazônia e graduação em Gestor de Riscos coletivos pelo instituto de Ensino de Segurança do Pará. Tem duas especializações lato sensu e Vanísia também é mestre em Segurança Pública, Cidadania e Direitos Humanos pela UERR. Com uma formação superior intensa, a Coronel é instrutora dos cursos de formação, aperfeiçoamento e especialista do sistema de segurança pública do estado e da federação e comandou a primeira e única expedição feminina realizada ao Monte Roraima em 08 de março de 2008.
A carreira militar de Vanísia se inicia lá em 19 de fevereiro de 2001 quando ela passou a integrar as fileiras da Policia Militar de Roraima, admitida por concurso público para função de soldado. Segundo ela, sendo soldado ela almejava subir ao posto de cabo porque, naquele momento da vida e da carreira militar, era o que ela podia racionalizar e conseguir. Ela diz que querer ser cabo da PM não significava que ela sonhasse rasteiramente, mas que os sonhos, para serem conquistados precisam ser mensurados para que os desafios possam ser superados.
Durante o curso de formação, Vanísia não sentiu tantas dificuldades de adaptação uma vez que, segundo ela, o fato de ter tido uma educação familiar baseada no respeito à disciplina, aos pais, entre outras questões, facilitou a aceitar a estrutura hierarquizada da esfera militar. Para ela, a rotina militar cotidiana, inicialmente, é o que traz dificuldades no início da carreira, pois, policiais militares tem um tipo de horário a seguir que é diferente da maioria das outras profissões assim como as atribuições que lhes são imputadas em relação a ação nas ruas e junto a população, no uso de armas letais e demais comportamentos.
Vanísia, ao longo de sua formação militar, nunca pensou em desistir da carreira: sempre buscou subir os degraus da hierarquia a qual estava submetida desde o início. Paralelo ao exercício da carreira militar, ela também já deu aulas na Universidade Federal de Roraima, Universidade Estadual de Roraima assim como também em instituições privadas nos cursos que correspondem a sua formação acadêmica. Ela também é professora nos cursos de formação de oficiais e de praças da Policia Militar, Corpo de Bombeiros de Roraima e Guarda Municipal tendo especial carinho pela carreira docente pois, considera que pode contribuir com o crescimento dos alunos através do conhecimento construído em sala de aula. Por conta da profissão, ela é impedida de exercer a advocacia enquanto estiver na ativa mesmo tendo sido aprovada no exame da OAB.
Até 2001, a Polícia Militar e o Corpo de Bombeiros em Roraima eram uma única instituição. No dia 19/12/2001, o Corpo de Bombeiros ganhou autonomia institucional passando a ser uma instituição independente, porém, militarizada. Nesse mesmo dia, Vanísia então, passa a compor o quadro do Corpo de Bombeiros pois, para ela, era fascinante salvar vidas e agir para o bem comum como é a atribuição dos bombeiros. Vanísia deixou de ser soldado da polícia militar e passou a ser soldado do Corpo de Bombeiros de Roraima fazendo parte do pequeno grupo de mulheres que, agora, iriam compor o batalhão. Vanísia observa que, em se tratando de vagas para mulheres na carreira de Bombeiro Militar, apenas 15% das mesmas são destinadas as mulheres o que, consequentemente, redunda em menos mulheres na corporação.
Vanísia foi a primeira mulher do grupo de combatentes do Corpo de Bombeiros no Brasil a chegar ao posto de Coronel (que é o último na hierarquia dessas instituições) como também é a mais jovem dentre as quatro mulheres que já compõem o quadro nacional nesse posto. A combatente lembra que dentre todos os detentores do posto de Coronel, incluindo os homens, ela também é a mais jovem. Na percepção dela, pode parecer que sendo tão jovem e sendo mulher, as pessoas pensem que ela é frágil, porém, segundo suas palavras “é só na aparência”!!
Ao chegar no último posto da corporação militar, Vanísia se sente um pouco atrasada: "Você imagina, março de 2017, a primeira vez que uma mulher de carreira, ingressa no quadro combatente e atinge o último posto... isso ocorreu somente agora porque o processo foi lento! Quantas mulheres nós temos em várias corporações do país, que poderiam já ter chegado ao último posto, mas, não chegaram". A sensação é de que estava atrasada, apesar de ter chegado primeiro. Para ela, sentir que estava atrasada é uma sensação coletiva porque historicamente as mulheres contribuem para as instituições militares desde que os exércitos gregos se organizaram. As mulheres eram utilizadas nos combates, também no momento que se precisava de mão de obra acionavam as mulheres para servi-los, mas para fazer suas carreiras elas não tinham o mesmo direito. As mulheres entraram formalmente atrasadas e consequentemente atingiram o último posto atrasadas, mas, felizmente chegamos!
A visão de Vanísia sobre o papel das mulheres na história do mundo como também nos tempos atuais é importantíssima, porque somos nós mulheres que educamos tradicionalmente nossos filhos. Nas suas palavras, ela observa que muitas vezes as pessoas transferem a responsabilidade de uma sociedade ruim e preconceituosa para as escolas ou empresas que cometem variados tipos de discriminação, porém, se esquecem que a base da educação vem da família. Homens e mulheres mal-educados, machistas e preconceituosos, em sua maioria, tiveram uma péssima educação familiar. Para ela a solução para uma sociedade com um menor nível de discriminação entre homens e mulheres vem de casa, da criação e da educação que damos para nossos filhos, na divisão de tarefas para homens e mulheres igualmente onde ambos podem fazer as mesmas coisas sem restrição de atividades domésticas. Como exemplo, ela destaca que foi criada nesse sistema: ser homem ou mulher não importava na divisão de tarefas: todos tinham que fazer de tudo em sua casa. Para ela, viver em sociedade com respeito é onde mulheres e homens dividem tudo desde a educação dos filhos até os cuidados familiares sempre havendo respeito pelo outro.
Ao falar sobre a conciliação entre a mulher profissional que ela é e a vida pessoal, Vanísia faz uma comparação da mulher com o polvo... pois, geralmente as mulheres tem que dar conta de diversas atividades que acontecem ao mesmo tempo como também desempenhar diversos papeis: profissional, mãe, esposa, filha e, no caso dela, também de atleta. Ela reconhece não ser fácil ter que conciliar tantas coisas ao mesmo tempo, mas, com organização da rotina, controle do tempo e eleição das prioridades pode ser possível. Ela lembra que a rotina de trabalho das mulheres começa quando acordamos e só termina quando vamos dormir, as vezes sem ter tempo de descansar, assistir um filme, ler um jornal... Sendo mãe, ela cuida da rotina de sua filha Ana Clara, faz as atividades domésticas com antecedência para poder administrar o tempo dedicado a criança. Vanísia faz questão de dizer que sua filha nasceu e cresceu no meio de militares pois, além dela o pai da menina é oficial da Polícia Militar de Roraima. Seguindo em tal meio, a disciplina e a convivência nos ambientes de trabalho dos pais, fez com que Ana Clara se acostumasse com a correria e os horários regrados sendo que, muitas vezes, o ponto de parada do ônibus escolar era o quartel. Nos feriados nacionais como o 07 de setembro, Ana Clara até desfila junto com a mãe e, em algumas ocasiões, esteve ao lado enquanto a mãe comandava a tropa.
Em se tratando da maternidade, o nascimento de Ana Clara foi o momento mais mágico e emocionante de toda vida de Vanísia. Para ela, nada é comparável ao momento de ter a filha em seus braços depois de 09 meses trazendo-a dentro de si. No entanto, outros momentos que ela destaca como momentos importantes de sua vida estão relacionados a sua carreira: na formatura do curso de soldado, onde havia apenas 31 mulheres e mais de uma centena de homens, Vanísia foi a primeira colocada do curso entre todos e, por conta disso, foi escolhida para fazer o juramento às bandeiras do Brasil e de Roraima pela primeira vez. Outro momento foi a passagem que ela fez do quadro da Polícia Militar para o Corpo de Bombeiros pois, a questão de "salvar vidas" como bombeira a encantava como também por estar em uma profissão admirada socialmente. A formação acadêmica no CFO (Curso de Oficiais) foi um momento marcante assim como a promoção a Coronel.
O fato de Vanísia hoje ser Coronel, não exclui algumas situações de preconceito e discriminação que ela presenciou logo no início da carreira militar como por exemplo, frases do tipo “lugar de mulher é comandando o fogão” ou mesmo a não escolha de mulheres para determinadas atividades da profissão. Porém, ela observa que atualmente, devido a mudanças de mentalidade na sociedade em geral, as mulheres que adentram a carreira militar não escutam mais esse tipo de piadinha o que é muito significativo e positivo para todos. Vanísia acredita que as mulheres hoje se defendem melhor de situações discriminatórias porque o conhecimento chega muito rápido a todas as pessoas e vai criando uma nova forma de agir e de pensar coisa que não era comum a 15 anos atrás quando a internet ainda era discada e os celulares eram apenas telefones.
Ao trazer a memória sua trajetória profissional e de vida, a Coronel Vanísia, faz questão de lembrar de onde veio, suas origens, sua família, e do quanto a educação escolar realizada em instituições públicas em Boa Vista fizeram a diferença em sua vida. Ela vê no estudo, na dedicação ao conhecimento, a chave para as conquistas que está tendo tanto ao longo da carreira quanto no crescimento pessoal. Sendo de uma classe social humilde, ela conseguiu chegar no topo de sua carreira através da educação escolar básica e superior e, certamente continuará a galgar sonhos e realizações por toda vida tendo como exemplo, sua mãe Antônia. Vanísia diz que ela é sua grande e maior inspiração na vida pois, mesmo depois de casada e com filhos já crescidos, voltou a estudar junto com eles se tornando professora e psicopedagoga.
Escrita por Letícia Ferreira e Laura Sena em 01/12/2018
Orientadora: Rutemara Florêncio
Assista a entrevista na íntegra direto do YouTube: