Maria Teresa Surita
Mulher e Política: A prefeita mais votada
Mulher e Política: A prefeita mais votada
Maria Teresa Sáenz Surita Guimarães nasceu na cidade de São Manoel, Estado de São Paulo no dia 14 de agosto de 1956 e, atualmente, tem 62 anos. Ela tem mais 03 irmãos e sua mãe, Dona Aurélia, que lhe faz companhia. Sua infância foi marcada pela falta do pai que morreu enquanto ela ainda era muito pequena. Tal fato marcou bastante a família que já morava com os avós paternos porque não tinham casa própria. Enquanto criança e adolescente, Teresa lembra da família como lugar de muito amor e segurança, unidos todos para enfrentar os problemas que são corriqueiros. Os pais dela sempre fizeram questão que os filhos estudassem e esse foi um dos seus maiores legados já que, as crianças não cresceram tendo uma vida de luxos como viagens e festas.
Teresa sempre estudou em escolas públicas e tem orgulho por isso. Sua primeira experiencia escolar se deu em um orfanato onde, a administração estava formando uma turma de pré-escolar (hoje chamado de Educação Infantil) e precisava de um certo número de crianças para formar a turma. Sabendo disso, a mãe e o pai de Teresa, matricularam-na naquela sala onde a grande maioria das crianças não tinha família. Para a menina Maria Teresa isso marcou muito pois, não entendia os motivos dos pais de a colocarem dentro de um orfanato, porém, ela se adaptou fazendo muitos amigos naquela sala já que gostou bastante de estar ali aprendendo coisas novas. Essa experiencia na infância, ela considera que é um marco que a liga e estimula a investir, enquanto prefeita, nos projetos sociais e na primeira infância pela rede municipal de Educação.
Após a experiencia no orfanato, Teresa foi matriculada no primário (hoje anos iniciais do ensino fundamental) de uma escola municipal de São Manoel onde ficou todo o período de 04 anos. Passado os anos dessa etapa, foi para outra escola pública fazer o ensino secundário até que, aos 15 anos, se mudou da cidade do interior e foi morar em São Paulo para continuar os estudos e fazer a faculdade. Nessa época, ainda morando com os avós, teve que deixar a família e seguir rumo ao desconhecido na grande capital onde muitas coisas novas acabaram lhe acontecendo.
Teresa Surita, como é conhecida a atual prefeita de Boa Vista, nunca teve como objetivo de vida, ser uma mulher vinculada a política. Quando mais jovem, ela começou a faculdade de Turismo em São Paulo porque era um conhecimento que, nos anos 1970, estava no auge uma vez que, o Brasil vinha construindo uma imagem de um país turístico. Ao mesmo tempo em que Teresa queria avançar nos estudos, se apaixonou e acabou se casando. Logo vieram as filhas quando ela era ainda bastante jovem.
Tendo os filhos pequenos ainda, Teresa foi trabalhar em uma agencia de publicidade e acabou se mudando para Brasilia. Em Brasilia ela ficou bastante tempo a trabalho. Lá ela conheceu Romero Jucá, que já político e com quem acabou se casando. Quando Romero foi designado para ser governador do Território Federal de Roraima, em 1987, ambos se mudaram para a cidade de Boa Vista onde ela passou a ter o título de primeira dama. Como primeira dama, ela não queria ser apenas um “enfeite” e sim, tinha o desejo de trabalhar naquilo que fosse possível para ela pois, estava acostumada a trabalhar fora de casa. No início, Teresa não foi designada a ocupar nenhum cargo no governo de Romero Jucá. No entanto, ela quis trabalhar nos bastidores, ajudando-o nas questões sociais que existiam em Roraima como foi o caso das pessoas que tinham deficiências (de tipos diversos) mas que não tinham nenhuma assistência nem no âmbito privado nem do Estado e das pessoas que tinham intoxicação por mercúrio, já que naquele final dos anos 1980, o garimpo predominava como atividade econômica local.
No trabalho social que Teresa desenvolveu, houve a criação de uma escola direcionada a pessoas que possuíam a surdez com amplo atendimento adequado, o que antes, não existia. Observando que o trabalho de Teresa estava sendo algo bastante positivo, Romero passou a lhe dizer que ela teria sucesso na política. Teresa, porém, não estava tão certa disso porque, entre outras questões, não se sentia a vontade ao falar em público. Então, ela questionava: como alguém que não gosta de falar em público vai se candidatar e fazer campanha? Mas, a dificuldade e resistência de Teresa não impediram sua candidatura a deputada federal em 1990 e, nesse pleito, foi a deputada mais votada do estado tendo conseguido 22% dos votos válidos.
O fato de ser a mais votada para deputada federal fez Teresa mudar um pouco de opinião sobre entrar pra politica e, fez ela pensar que, será não teria herdado um pouco daquilo que o pai gostava enquanto estivera vivo? A resposta para ela não estava tão clara, mas, sabia que o pai havia sido politico em São Manoel tendo ocupado o cargo de vereador na cidade então, podia ser...
Uma vez deputada federal, Teresa teve que partir para os estudos: era necessário entender como funcionava a área, como eram seus caminhos, o que ela teria que fazer, enfim, teria que aprender muito tanto naquele período quanto nos períodos que viriam mais a frente. A Câmara Federal foi local de aprendizado para ela que, mesmo tímida, passou a ocupar os espaços, a se fazer ouvir nos debates aprendendo a conviver com as diferenças e a lidar com as frustrações de não ter sua voz ouvida ou ver seus projetos avançando.
Atualmente, Teresa está no cargo de prefeita de Boa Vista já pela quinta vez, tendo sido eleita com quase 80% dos votos válidos no pleito de 2016. Ela foi prefeita pela primeira vez em 1993, depois, por mais 04 vezes (o mandato atual se encerrará em 2020). No primeiro mandato na prefeitura, Boa Vista era uma cidade muito pequena que, segundo Teresa, se restringia aos bairros do centro chegando até o Asa Branca, Tancredo Neves e Caimbé: era um perímetro pequeno se comparado ao que hoje é Boa Vista. Uma vez estando prefeita, ela foi aprender sobre orçamento, recursos disponíveis, investimentos e necessidades da cidade.
Como mulher, Teresa observa que enfrentou e enfrenta dificuldades por considerar que a politica é machista e é dominado pelos homens (fato que é comprovado pelos números de mulheres que ocupam vagas no legislativo). Sendo uma mulher na política, parece que tem que estar sempre provando sua competência e conhecimentos coisa que ela não observa estar vinculada aos homens políticos. Em sua percepção, as mulheres são tratadas no meio politico e até mesmo por parte da sociedade, com mais desconfiança e fraqueza já que, a politica é uma área dos homens e isso se liga a força. Teresa considera que, para fazer política, talvez as mulheres tenham que agir mais parecido com os homens porque é difícil para elas estar nesse mundo dominado pelos homens. Nesse caso, ela cita exemplos de mudanças no comportamento das mulheres que fazem política: passam a falar mais alto, de forma mais dura porque, muitas vezes, numa discussão, se a mulher não se impõe, é jogada para o ostracismo. Outra questão é que as mulheres que pertencem aos partidos, parecem adquirir as características desses o que, às vezes, as fazem ser categorizadas ou estereotipadas. Para Teresa é necessário que haja um equilíbrio entre o que se é de forma individual e o que se defende no ato político/ideológico.
Em sua trajetória política, Teresa considera que teve que mostrar seu serviço de forma eficiente provando que poderia fazer o que seus eleitores esperavam que fizesse já que haviam lhe dado um voto de confiança. Ao longo dos seus quase cinco mandatos, ela foi aprimorando suas iniciativas e ideias de modo a atender ao crescimento da cidade de forma mais sustentável e, como mulher, tendo sempre que provar que tinha competência para administrar. Teresa lembra que a luta da mulher por espaços é mais difícil do que para o homem pois, algumas profissões são ligadas diretamente ao comportamento masculino como é o caso de diretorias de empresas, piloto de avião... segundo ela, até as mulheres se assustam quando sabem que quem está pilotando avião é uma mulher, enfim, alguns espaços ainda são bastante difíceis para as mulheres ocupar, porém, ela considera que isso é apenas uma questão de tempo para mudança.
Para ela, a política entrou na sua vida de forma “natural” até mesmo por conta de sua ligação com Romero Jucá que, na época, era um politico influente tanto em Brasilia quanto em Roraima. Ao participar das ações políticas que são típicas dos que governam o Estado, Teresa foi gostando do clima e tendo contato com as pessoas que passaram a identifica-la como uma mulher ligada a política, fato esse que lhe fez candidata em diversos pleitos sendo sempre vitoriosa em eleições. Também ganhou vários prêmios nacionais na condição de prefeita a partir dos projetos que desenvolveu nos mandatos eletivos.
Ao adentrar o mundo da política, Teresa teve que aprender muita coisa e, para isso, investiu em cursos diversos, observações, estudos sobre o funcionamento do Estado e dos poderes que o compõem além de manter-se sempre bem atualizada em relação as leis e diretrizes que constantemente são mudadas pelo poder Legislativo e oficializada pelo Judiciário. Já faz 30 anos que Teresa ocupa funções politicas e, segundo ela, ama o que faz. Ela nunca se sentiu em posição de vitima ou inferiorizada como mulher, a não ser recentemente em que foi hostilizada por um deputado que invadiu uma rádio onde ela dava entrevista e lhe atacou ao vivo lhe impondo a força física como meio de intimidação assim como lhe faltando com o respeito como ser humano.
Teresa passou alguns anos sem mandatos e isso ela considera muito importante para ela, como mulher pois, deu um tempo muito importante para a família que, sendo política, quase não dispõe. Nesse tempo em que ficou fora dos holofotes, Teresa se divorciou de Romero Jucá (inicio dos anos 2000) e, passado alguns anos do divórcio, se casou novamente. Para ela, a separação foi algo muito difícil pois, foi a primeira pessoa da família a se separar como também sofreu pela situação em si. Nesse caso, por mais que atualmente as pessoas casadas se separem com mais frequência, ainda assim, é algo doloroso para os envolvidos.
Atualmente, Teresa tenta dividir seu tempo entre família e trabalho, não sendo muito fácil tal coisa uma vez que o exercício de prefeita demanda horários diversos e muitos compromissos. Como não tem filhos pequenos já que suas filhas são adultas, ela consegue equilibrar melhor essa questão. Teresa considera que teve sorte ao ter suas filhas enquanto ainda era muito jovem e estava estudando porque pode curtir a infância delas cuidando e ficando muito tempo junto. Ao iniciar a sua trajetória como política, Teresa acredita que as filhas, já com 04 e 06 anos, sofreram sim a ausência dela que passava o dia inteiro fora de casa (as filhas lembram desse período até hoje). Ao analisar a questão, ela acredita que as filhas já superaram essa parte da história da vida dela, porém, talvez, ela ainda não por lembrar que as filhas ficaram sem a mãe por longos períodos.
Teresa gosta muito de lembrar das grandes mulheres da história como as rainhas inglesas, as sufragistas que lutaram pelo direito ao voto no século XIX, e ela gosta de aprender todos os dias: a dois anos ela aprendeu a falar inglês porque tinha que dar uma palestra nos Estados Unidos e precisava se comunicar na língua local. A mãe de Teresa é seu espelho: ficou viúva aos 33 anos, com 04 filhos pra criar, trabalhando como professora primária e ainda morando na casa dos sogros, mas, nunca deixou se abater por nenhum problema. Conseguiu criar seus filhos que atualmente tem suas carreiras de sucesso e suas famílias, foi estudar em faculdade depois de adulta para poder melhorar o salário como professora e cuidar dos filhos, enfim, a mãe, Dona Aurélia é um exemplo de mulher para Teresa.
Os momentos marcantes da vida de Teresa foram os nascimentos de suas filhas e o nascimento de seu neto, que ela presenciou no parto natural da sua filha tendo ficado muito emocionada como nunca antes na vida. Receber o título de melhor prefeita do Brasil como também ser a prefeita mais bem votada do país foram outros momentos maravilhosos de sua vida. Os títulos significam muito para ela pois, ela credita tudo a confiança que foi capaz de obter dos eleitores de Boa Vista assim como conseguiu transmitir capacidade, seriedade e trabalho. Tendo sido eleita a melhor prefeita do Brasil, sua vontade é de continuar a trabalhar, a fazer melhor e a conquistar cada vez mais a aprovação da população pois, considera que o momento atual está bastante negativo para os políticos em geral e, especialmente para as mulheres politicas por conta dos maus exemplos de administrações feitas por mulheres no poder Executivo local e nacional.
Teresa destaca que, a condição de prefeita já lhe proporcionou momentos importantes como ter assistido uma palestra dada pelo ex-presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton em São Paulo. Essa oportunidade foi fantástica para ela. Outro momento foi quando ela foi fazer um curso em Harvard, a melhor universidade do mundo: nessa ocasião ela realizou um sonho. Porem, nada se comparou a emoção de ver o nascimento do seu neto, que para ela foi incrível.
A vida pessoal de Teresa, relacionada a convivência com o marido, é de parceria. Ele dá muita força para ela em sua atividade de prefeita, torcendo por ela e pelo seu crescimento pessoal. Mulheres e homens podem estar juntos se ajudando mutuamente, crescendo juntos e conquistando as coisas juntos: não é competição entre sexos, mas, sim parcerias, é o que observa Maria Teresa Surita Sáenz Magalhães.
Entrevista concedida aos alunos: Izadora Pimentel, Mariane Vieira, Ian Andion, Lucas Pinheiro e Gabriela Gadelha.
Escrita por Mariane Vieira
Orientadora: Rutemara Florencio - Fotos: fonte: Google
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