Sara Patricia Farias
O Direito como Garantia
O Direito como Garantia
Nascida em 1970 no Estado Pernambuco, município de Vitoria de Santo Antão, Sara Patrícia Ribeiro Farias, com 48 anos é uma Mulher guerreira, trabalhadora e que nunca desistiu dos seus sonhos e objetivos apesar de muitas dificuldades em sua vida. Lutou duro e associou seu trabalho com seu papel de ser mãe e já divorciada, criou seus dois filhos que hoje já são maiores de idade.
Sara teve uma infância repleta de brincadeiras, brincava de pique pega, pique esconde, tinha sua escola, brincava com as crianças que conhecia no bairro e, foi feliz naqueles anos de criança. Na escola, Sara foi uma aluna excelente, ela gostava de estudar e sempre se destacava na sala de aula.
Durante a infância de Sara, ela passou por uma situação não muito boa relacionada a saúde de sua mãe, Julia, o casamento dos pais. Na década de 1970, Dona Julia teve a doença da Tuberculose e, passou bastante mal na época. O caso foi tão grave que os médicos a desenganaram e ela, precisou de ajuda para cuidar da filha. Sendo assim, ela pediu à sua irmã que viesse morar com a família para poder cuidar dos seus filhos já que ela não podia ficar perto deles (a Tuberculose é contagiosa).
E como a vida é sempre imprevisível, acabou que o pai de Sara e a irmã de sua mãe começaram a ter um caso amoroso as escondidas da família. Quando Dona Julia descobriu a traição, ao invés de piorar de saúde, ela, milagrosamente melhorou e resolveu fugir para outro lugar levando Sara com ela. A situação de decepção fez a mãe de Sara sofrer bastante, mas, não a derrubou: ela vendia cosméticos durante o dia para sustentar a família e, a noite, ia estudar tendo, inclusive, que levar a pequena Sara junto com ela. Com tempo sua progenitora conheceu um homem que com ele se ajuntou.
Sara não planejou vir para Roraima. Na época da mudança ela era adolescente ainda e, como sua mãe estava se separando daquele que, era padrasto de Sara, resolveu que a filha viria junto com uma prima que estava visitando-as em Pernambuco. Ao chegar em Boa Vista em 1986 aos 15 anos, Sara teve seu primeiro emprego que foi cortar batatas e bananas pra fritar em uma lanchonete. Para ir trabalhar, Sara saia de bicicleta do bairro Buritis (que era uns dos penúltimos bairros na época), para chegar no centro no local onde ela trabalhava. Com passar de uns meses sua mãe veio para a capital, tentar buscar uma melhoria de vida. Sara, enquanto jovem, exerceu as mais variadas atividades: foi operadora de caixa no supermercado, foi vendedora de loja, em 1993 foi trabalhar na Assembleia Legislativa como recepcionista. Durante 17 anos ela trabalhou com um parlamentar estadual que era da área agrícola e assim, ela também foi secretaria na federação de agricultura do estado de Roraima. Esse tempo dedicado ao trabalho foi importante para ela porque lhe deu experiencia. Ao sair desse emprego, tendo já 35 anos, ela foi fazer o curso de Direito tendo se formado aos 40 anos de idade. Em 2012 foi criada a Procuradoria Especial da Mulher e em 2016 após a regulamentação, Sara foi nomeada como Procuradora Adjunta Especial da Mulher.
A partir dos 40 anos, muitas coisas mudaram na vida de Sara porque ela começou a atuar como Advogada se envolvendo nas questões que envolvem especificamente a mulher tais como a aplicação da lei que trata da violência contra a mulher. O conhecimento dessas questões que tratam da mulher em situação de violência assim como das leis que tratam disso, Sara só passou a ter quando começou a trabalhar no CHAME percebendo assim que, a violência doméstica não escolhe classe social: ela é um fenômeno disseminado na sociedade como um todo.
A violência contra a mulher tem sido uma constante na sociedade em geral e, impera de forma forte nos relacionamentos familiares, amorosos, principalmente. É pior quando se trata de mulheres que não conhecem direitos e, se submetem a situações degradantes e violentas porque não tem uma rede de apoio ou não conhecem uma. Mulheres das águas, do campo, das florestas não possuem redes de proteção nos locais de vivencia das mesmas, o que as torna mais vulneráveis a essa situação. Exemplos de mortes de mulheres em cidades do interior, vítimas de companheiros não faltam: faltou a elas proteção e conhecimento de direitos. Sara considera que faltam políticas públicas eficientes para combater, punir e prevenir a violência doméstica: só a mulher que sofre tal coisa e os profissionais que trabalham na área tem real noção do sofrimento que é ser uma vítima de violência.
A lei conhecida no Brasil que é a Lei n° 11.340, de 7 de agosto de 2006, popularmente conhecida como Lei Maria da Penha, alterou o Código Penal Brasileiro, fazendo com que os agressores sejam presos em flagrante ou que tenham a prisão preventiva decretada, caso cometam qualquer ato de violência doméstica preestabelecido pela lei. Mulheres vítimas de violência devem ter um tratamento humanizado no atendimento, porém, em Roraima, a Delegacia que trata especificamente desse tipo de crime (só tem uma e é em Boa Vista) só atende em horário comercial e de segunda a sexta. Aos finais de semana e a noite, que é quando mais acontecem ocorrências de violência contra a mulher por conta dos fatores associados como uso de bebidas alcoólicas e drogas, as mulheres que procuram as delegacias são tratadas como denunciantes comuns.
Sara ainda relata, que atualmente Roraima está nos primeiros lugares do ranking nacional de violência contra as mulheres. Nas últimas décadas só tem aumentado essa violência, porque o Brasil não investe em políticas públicas que colaborem para diminuir as ocorrências. Soluções cabíveis contra a violação dos direitos das mulheres seria uma mudança de mentalidade sobre o papel da mulher na sociedade, sua importância e valorização como ser humano. Sara acredita que, para Roraima ser um estado com menos violência doméstica e contra as mulheres é preciso de ampliação da rede de proteção das mulheres, com mais delegacias com atendimento humanizado que estejam disponíveis para as vítimas. Profissionais como psicólogas, assistente social, defensoras e advogadas que juntamente a vítima acompanhem todo o processo para garantia dos direitos. A ampliação de delegacias nas cidades do interior também seria ideal para coibir e punir de forma mais rápida, aplicando a lei em sua integralidade pois, quando uma mulher sofre violência, a família inteira está propensa a sofrer junto com a vítima.
Segundo Sara, as famílias desestruturadas levam a uma sociedade desajustada, porque tudo parte de um lar no modo de convívio e criação. Por isso que desde um lar familiar é preciso promover a paz, respeito entre seus membros, consideração das ideias de cada um, a opinião das mulheres deve ser respeitada e absorvida para que cada vez mais a mulher possa se sentir segura para se expressar e participar ativamente da construção de um mundo menos letal para ela e para todos.
Quando Sara iniciou sua careira como advogada observou que a área era lugar onde os homens dominavam. Assim, ela teve que trabalhar duas vezes mais do que outros trabalhadores para consegui mostrar seu valor. Sara diz: (não importa em que cargo a mulher esteja, pode ser um cargo bem alto ou baixo, mas a mulher sempre vai ter que trabalhar duas ou até três vezes mais do que o homem para chegar ao cargo onde ela quer estar). A ocupação de cargos e funções politicas também são para as mulheres pois, a mulher tem a capacidade de exercer um cargo de poder e se sair muito bem neles. Sara acredita muito na honestidade e no caráter das mulheres, pois apesar de serem discriminadas historicamente, as mulheres veem mostrando seu valor e sua força, lutando por direitos e mostrando que capacidade não é um atributo que nasce com os homens mas, com elas também.
Fazem 8 anos que Sara exerce a profissão de Advogada, a qual tem prazer em exercer sendo algo que também é gratificante. Ela ama o que faz, pois ela trabalha com Direitos e, esses, são conquistas da sociedade. Sara comenta: “toda profissão é gratificante desde que você trabalhe com amor, dedicação e sinceridade, e busca realmente os interesses dos seus clientes. Para um advogado é inevitável a administração da justiça, então é uma honra trabalhar nessa área”. Sara observa que, apesar das mulheres serem mais de 50% da população mundial, elas ainda não têm seu total reconhecimento e igualdade no exercício de cargos de liderança: são só cerca de 10% das mulheres que chegam a altos cargos de poder tanto político como jurídico.
Mesmo trabalhando muito ao longo da vida, até três turnos, conciliar a sua vida pessoal de mãe e dona de casa não foi algo que tenha lhe causado sofrimentos. Como divorciada e tendo filhos, conseguiu educa-los e cria-los adequadamente e mostrando como se faz para conquistar aquilo que se quer. Sua vida de lutas e dificuldades com noites em claro estudando para conquistar objetivos e o emprego que desejava, é um exemplo a ser seguido por mulheres e homens que também sonham em um futuro digno e com propósito.
Escrito por João Batista Costa Sousa e Tamara Barros Gomes
Orientadora: Rutemara Florêncio - Fotos: Arquivo Pessoal
Clique no Play e assista entrevista na íntegra direto do YouTube