Maria Eva Barros Ferreira nasceu dia 24 de dezembro de 1969, tendo atualmente 49 anos. Ela nasceu em um interior bem pequeno chamado Novo Marajá, localizado no município de Tuntum no Maranhão. A menina Eva, lembra com muito carinho do período em que morava no interior pois, sua infância foi lá. Foi uma criança travessa e tendo sete irmãos, não faltava com quem brincar. Assim, ela, os irmãos e os demais amiguinhos brincavam debaixo das árvores e se banhavam nas lagoas da região. Para família de Maria Eva, o único meio de transporte eram os animais, principalmente o jegue então, a família toda se utilizava desses animais para ter transporte. Ela conta que as pessoas, incluindo ela, para terem água, iam à fonte, chamada no lugar de “cacimba” e enchiam os latões carregando-os para casa em cima da cabeça: não havia água encanada na casa onde ela morava. A família também plantava arroz e, para debulhar, utilizavam o pilão... enfim, plantavam todo tipo de alimentos como são as coisas na roça. Essa vida interiorana foi a infância feliz da menina Eva.
Quando criança em época de ir pra escola, na década de 1970, Maria Eva enfrentou muitas dificuldades de acesso e permanência na escola. Havia um grupo escolar na localidade onde ela morava e o professor que dava aulas era o pastor protestante de uma igreja da região. Maria Eva e as outras crianças tinham que levar as cadeiras de suas casas para o local das aulas pois, lá não havia mobiliário de tão pobre que era a situação da escola. Cadernos e livros, roupas e sapatos: as crianças tinham dificuldade em possuir... Maria Eva levava os cadernos e livros dentro de uma sacola de plástico porque não tinha bolsa pra acomodar esses materiais.
Maria Eva nasceu num contexto do pai garimpeiro indo e vindo pelas estradas atrás de um garimpo. Ele constantemente saia do Maranhão para vir na Venezuela trabalhar em garimpos e, conseguindo alguma coisa, voltava pra família. Ele conhecia a região norte por conta das viagens que fazia. No início do ano de 1983, quando Maria Eva tinha 13 anos, o pai da jovem resolveu trazer a família para morar em Roraima. Nessa época, os garimpos faziam sucesso no estado e milhares de pessoas chegavam com a esperança de fazer fortuna: Maria Eva e sua família estavam nesses grupos de nordestinos, principalmente, que se aventuraram no lavrado em busca do Eldorado. Além do mais, o pai da jovem já tinha dois irmãos morando em Roraima e, nesse caso, considerava seguro mudar para um local novo.
O garimpo parecia trazer esperanças aquela família de agricultores nordestinos, porém, nem tudo foi como imaginavam. O pai de Maria Eva não obteve muito sucesso no garimpo, mas, conseguiu alguma coisa que deu para construir uma casa simples. No entanto, a família precisava sobreviver e, por causa disso, seus pais tiveram que ir trabalhar no interior do estado como agricultores. Assim, Eva e seus irmãos ficaram sob responsabilidade do irmão mais velho, que se tornou uma espécie de “pai” dos irmãos mantendo a “rédea” curta com eles. Ela analisa que essa obediência a hierarquia do nascimento, com os filhos homens e mais velhos tomando conta dos irmãos mais novos retrata uma questão cultural muito presente no passado a qual ainda permanece em algumas famílias.
Maria Eva entrou para 4ª serie aos 12 anos de idade, em 1983, indo estudar na escola recém-inaugurada Camilo Dias, que fica localizada no bairro Liberdade, em Boa Vista. Ela e os irmãos tinham a obrigação de ir pra escola e eram cobrados pelos pais e irmãos mais velhos assim indo em frente nos estudos.
Maria Eva sempre gostou das ciências humanas e suas matérias preferidas na escola eram história, geografia, português. Além de ser uma boa aluna nessa área, ela sempre foi uma espécie de “conselheira” dos amigos e por isso achava que seguir a carreira de psicóloga seria ideal. Já casada e com um filho nascido, ela decidiu fazer o curso superior em Psicologia, porém só cursou três semestres tendo que desistir pois a situação financeira da família na época não comportava uma mensalidade de valor alto como era o caso do curso. Depois, entrou no curso de Pedagogia cursando por dois semestres mais saiu por não ter gostado do curso. Hoje ela é formada em Gestão Pública com especialização em Recursos Humanos.
A vida profissional de Maria Eva começou em 1986, aos 15 anos, como vendedora em uma loja de roupas. Em 1987, ainda com 17 anos, foi trabalhar em uma loja de automóveis onde atuou por cinco anos na área de consórcios e vendas. Nesta época os administradores das marcas Ford e Volkswagen, direto de Brasília, a convidaram para assumir o consórcio da Volkswagen em Boa Vista e ela permaneceu no cargo por mais seis anos. Eva também chegou a administrar uma franquia com o marido e trabalhou duas vezes com empresas de alimentação. Depois de um longo período de experiências profissionais passou a exercer um cargo na administração pública relacionado a questão da mulher. Em 2015, o Governo de Roraima assumiu um importante desafio de implantar um organismo de políticas públicas para mulheres com o objetivo de atuar no enfrentamento da violência seguindo uma tendência que já havia no Governo Federal. Em Roraima, na gestão da ex-governadora Sueli Campos, Maria Eva passou a coordenar essas políticas que foram acomodadas na Casa da Mulher Brasileira.
Sobre o cargo que vem ocupando, relativo a questão da violência doméstica contra mulheres, ela considera que é árduo uma vez que em Roraima, os índices de violência que envolvem diretamente a mulher, são altos necessitando de ações efetivas do Estado para que diminuam. No caso específico que envolve a criação da Casa da Mulher Brasileira, o trabalho é desenvolvido a partir de eixos: enfrentamento à violência de forma direta, autonomia econômica das mulheres, entre outros. Na cidade de Pacaraima, cidade que faz fronteira com a Venezuela, durante algum tempo, houve também uma sucursal do projeto assim como em Bonfim. Ambos os lugares tinham a meta de trabalhar com o projeto para mulheres fronteiriças. Há em atuação, duas unidades moveis que são destinadas para enfrentamento da violência contra as mulheres do campo, da floresta e das águas.
O projeto coordenado por Maria Eva, tem como centro o enfrentamento à violência contra mulher, porém, trabalha no contexto da vulnerabilidade da pessoa que está envolta nessa situação dando suporte jurídico, legal, e apoio material. Como coordenadora, Maria Eva aprende muito pois está em contato com as vítimas da violência e, isso, considera ela, faz aflorar e exercitar a empatia melhorando o entendimento daquilo que a vítima está enfrentando e até mesmo oferecendo o apoio que, caso ela estivesse no lugar da vítima, gostaria de receber. Trabalhando nessa área ela considera que está aprendendo a ver o mundo de outra forma assim como as mulheres e as relações humanas em geral.
A visão de Maria Eva sobre o papel das mulheres na sociedade aliado a especificidade do trabalho que está desempenhando trouxe para sua analise a questão da liberdade e a luta por direitos que a mulher sempre buscou ao longo da história e ainda busca. A luta da qual ela é adepta está ligada à busca da mulher por espaço social, por poder escolher sua vida e seu destino sem ser agressiva ou ditadora. Eva considera que as mulheres devem ter o poder de escolherem suas vidas, sem que alguém (homem ou mulher) fique ditando regras e comportamentos. Para ela, não há apenas um caminho para seguir pois, cada mulher tem sua subjetividade e personalidade. Nesse caso, se a mulher quer casar e ter filhos sendo isso uma escolha, é um direito. Se, por outro lado, a mulher quer ficar solteira a vida toda, está ótimo ou se não quer ter filhos mesmo sendo casada, ela é tem a liberdade individual de assim fazer. A sociedade não deveria cobrar por ações das mulheres em relação a sua própria vida e destino pois, cada um é suficientemente livre para escolher sua vida.
Aos 26 anos, Maria Eva se casou e já está casada a 22 anos sendo mãe de dois filhos. Ela sempre quis ser mãe e ter família: foi uma escolha, uma vontade. Tanto é que o nascimento dos filhos foram os momentos mais marcantes na vida dela e sua mãe é o modelo de mulher que mais lhe inspirou a ser quem ela é. Quanto aos filhos, ela queria ter quatro, mas, o tempo foi passando e só vieram um menino e uma menina que lhe dão muito orgulho por terem uma visão moderna sobre o papel da mulher e do homem no mundo em geral. Quando as crianças eram novinhas, ela mantinha seus afazeres profissionais pois, tinha condições de colocar os filhos em escolas além de trabalhar apenas no horário em que as crianças estavam acolhidas. Dessa forma Eva considera que conciliar a vida de profissional com a de mãe não foi nenhuma dificuldade para ela.
Maria Eva se considera uma empreendedora nata, precoce e lutadora pelo que quis e quer além de considerar-se feliz e protegida por Deus. Mesmo tendo um histórico de vida difícil ela observa que as lutas que travou em sua vida lhe serviram de base para molda-la, transforma-la na mulher que ela é hoje: uma mulher realizada e uma mulher que, por meio das ações de outras mulheres ao longo da história, sabe exatamente quais são seus direitos.
Escrita por: Victoria Gonzalez e Nikaelle Cristina Martins em 01/12/2018
Orientadora: Rutemara Florêncio - Fotos: Fonte: Arquivo Pessoal
Assista a entrevista na íntegra: