Natural de Campo Maior, estado do Piauí, Maria do Socorro Belchior Bittencourt nasceu em 19 de junho de 1960 e atualmente está com 58 anos. Atualmente ela é solteira e já tem dois filhos adultos e cada qual com suas famílias formadas: Ítalo, que mora no Piauí e Noeme, professora e moradora de Roraima.
Em sua infância, Maria morava com a família no interior do Piauí, na roça mesmo e aproveitou tudo o que esse tipo de moradia proporciona as crianças: correr, nadar, brincar de casinha e até pescar. Também brincava de roda, de amarelinha, sempre junto com muitas outras crianças... era uma festa todo dia. A menina Maria tinha a companhia dos seus três irmãos nas brincadeiras e aproveitou tanto sua vida de criança que agora, as boas lembranças são companheiras. A família criava animais no sitio e Maria e os irmãos foram criados na natureza aproveitando tudo o que ela oferecia: frutas no pé das árvores, peixes direto do rio, enfim, tudo o que hoje é difícil de encontrar.
Quando chegou o tempo de ir para escola, Maria e seus irmãos enfrentaram muitas dificuldades pois, tinham que andar muitas horas para chegar a escola que ficava numa cidadezinha do interior chamada Andrés. Quando chovia ela enfrentava a lama e a água, caminhando horas para chegar no estabelecimento e, como muitas vezes ocorreu, seu material escolar também sujava de lama e se perdia devido a chuva. Naquela época não havia a política do transporte escolar e as crianças tinham que ir andando a pé para poderem estudar. Nessa escola, Maria fez até a quarta série do primário. Quando chegou a segunda etapa, ela pode estudar na sua cidade que é Campo Maior, porém, mesmo não tendo que sair da cidade como foi nos primeiros anos de escola, ela tinha dificuldade pra chegar pois, a escola também ficava longe de sua casa. Nessa etapa ela já fazia uso da bicicleta para poder se locomover. Quando ela foi fazer o curso do Magistério, teve que conciliar os estudos com o trabalho: durante o dia ela trabalhava no comércio da cidade e, a noite, ela ia aos estudos. Finalmente, Maria conseguiu se formar como professora no Magistério o que foi uma alegria para sua família.
Aos 23 anos de idade, Maria do Socorro se tornou mãe. Seu filho Ítalo, nasceu lhe trazendo bastante alegria e marcando sua vida para sempre. Mesmo sendo mãe, Maria nunca deixou de trabalhar fora de casa como também não se sentiu culpada por ter que deixar o filho para ir ao serviço.
Maria do Socorro veio com os filhos para Roraima em 1991 a convite de uma prima, Fátima, que morava em Boa Vista. Nessa época, ela tinha 27 anos e foi morar em Pacaraima, a cidade que faz fronteira com a Venezuela. Ao chegar em Pacaraima, ela foi exercer a profissão de professora pois, era formada no Magistério ainda no Piauí. Ela morou por 16 anos em Pacaraima e naquele inicio dos anos 1990, a hoje cidade era somente uma vila. Maria lembra que eram poucos os moradores da região, haviam muitas dificuldades de transporte e comunicação. O único meio de comunicação era via Telaima, empresa que era operadora de telefonia da Telebras em Roraima na época (antes da privatização). Para se comunicar com os parentes que haviam ficado no Piauí, Maria dependia dos telefonemas. Ela conta que se alguém do estado de origem dela ligasse, um mensageiro vinha na casa chama-la para que ela fosse atender o telefone.
A primeira escola que Maria trabalhou como professora em Pacaraima foi na Escola Estadual Casimiro de Abreu logo que essa foi inaugurada. Ela foi convidada a dar aula para terceira série primário (hoje ensino fundamental I). Ela também trabalhou na escola estadual Cicero Vieira Neto, como professora de segunda série. Em sala de aula, como professora regente, Socorro ficou por 06 anos. Estando professora ainda, Maria do Socorro foi convidada para ocupar cargos na direção e vice direção de escolas tanto em Pacaraima, quanto em Boa Vista que foi a cidade em que veio morar a partir de 2007. Sua mudança para a capital se deu por conta de um convite que ela teve para assumir uma vice direção na escola estadual presidente Tancredo Neves, função na qual está até agora.
Maria do Socorro gosta de sua profissão. Ela tem dedicação total ao trabalho, as vezes esquecendo de si mesma para ficar na escola atendendo alunos e professores em suas solicitações. Ela vê a educação como um trabalho que forma cidadãos assim como pensa que tem o dever em resgatar alunos que as vezes estão indo por outros caminhos que não os do estudo e da responsabilidade. Em uma situação, ela atendeu a um adolescente que chegou na escola esfaqueado. No mesmo momento ela levou pro hospital, socorreu e passou a acompanha-lo com tratamento psicológico. O rapaz era aluno da escola e passou a melhorar cada vez mais nos estudos assim como entrou pro time de futsal sendo destaque no esporte. Passados alguns anos, ele voltou a escola para agradecer a ela por não ter negado assistência quando o mesmo chegou pedindo socorro, assim como agradecer por ela ter feito por ele muito mais que qualquer outra pessoa tinha feito. O rapaz, agora adulto, lhe disse que era casado já e cuidava de sua família trabalhando e sendo correto em sua vida. Para Maria do Socorro, esse momento foi gratificante e emocionante pois, ali ela viu que seu trabalho de professora, de servidora pública estava sendo valorizado.
Recentemente em 2017, Maria do Socorro se formou na segunda graduação pelo Instituto Federal de Roraima em Licenciatura Letras/Espanhol. Ela fez Magistério no Piauí e Pedagogia em Roraima, terminando em 2007. Ela também é pós-graduada em Gestão Escolar e fazer o segundo curso de licenciatura foi um sonho para ela pois, desde que vivia na região de fronteira, ela queria aprender espanhol.
Os momentos marcantes da vida de Maria do Socorro foram o nascimento de seus filhos assim como a formatura no curso de Licenciatura em Letras/Espanhol pois, foi um sonho realizado. Sua mãe é a mulher em quem se inspira pra viver pois, segundo ela, é uma guerreira que lutou para criar seus filhos e todos seguiram corretamente pela vida. Maria não se sente inferior a outras pessoas, ou mesmo aos homens pois, se precisar ela fará aquilo que for pra fazer. Todos tem capacidade de fazerem o seu melhor e as mulheres, são capazes assim como homens de estarem em qualquer lugar e desempenharem qualquer função que desejarem.
Entrevista concedida a Adriano Rodrigues de Aguiar e Alexandre Soares Pacheco.
Orientadora: Rutemara Florêncio - Fotos: Fonte: Arquivo Pessoal
Acesse logo abaixo a entrevista na íntegra direto do YouTube: