Josidene Marques Rodrigues Silva é uma figura ímpar perante seus antepassados da etnia Taurepang. Ela nasceu no ano de 1981 na comunidade indígena do Araçá – Município do Amajari (onde vive sua etnia) e lá passou 04 anos inteiros. Josidene não lembra muito dessa parte da infância, mas, acredita que tenha sido igual a das crianças que vivem por lá: crescendo em meio a natureza, na companhia das pessoas do lugar, brincando ao ar livre e com muita liberdade.
Ao completar seus quatro anos de idade, a menina Josidene veio para a capital de Roraima, Boa Vista, com sua mãe e seus irmãos. A mudança de lugar de moradia se deu porque a família buscava melhores condições de estudo para os filhos pois, na sua comunidade, em 1985, não tinha nenhuma instituição escolar. Sendo assim, por causa disso, a mãe de Josidene optou por vir morar em uma cidade que oferecesse educação escolar aos filhos, pois, assim eles teriam a oportunidade de ter um ensino de qualidade como ela desejava. A mãe de Josidene almejava que os filhos conquistassem melhores condições de vida através dos estudos escolares. Chegada a época de os filhos irem para a escola, todos foram matriculados em escolas públicas da cidade onde concluíram todo o processo de escolarização.
Josidene nunca pensou em ser médica. Na verdade, ela sempre sonhou em ser professora com formação superior, mas, buscou por vários meios estudar nessa área – Pedagogia - porém, nunca deu certo. Apesar disso ela já atuou como professora, porém só tendo o Magistério. A Medicina como profissão, Josidene escolheu devido a ser algo muito importante para a comunidade indígena a qual ela pertence. Também decorreu de um acontecimento que ela presenciou: a morte do padrinho de sua mãe diante dela pois, não poder ajudar ou tentar salvar a vida do homem a fez se sentir inútil. Esse sentimento veio porque ela não sabia como ajuda-lo diante da situação envolvendo a vida e a morte. Presenciar tal acontecimento, fez com que ela tomasse a decisão de fazer Medicina e, agora, ela foi em frente no objetivo. Passar no vestibular de Medicina foi um momento marcante na vida de Josidene assim como o dia de sua formatura. O dia da formatura trouxe a memória da médica todas as dificuldades pelas quais passou durante os anos do curso e, por isso, se tornou um momento inesquecível em sua vida: simbolizou a vitória diante das dificuldades.
Ao adentrar na faculdade de Medicina, na UFRR, ela encontrou diversos obstáculos referentes a questão de continuar no curso. O maior deles foi a enfermidade de seu filho mais novo o qual foi tão grave que ela esteve prestes a perde-lo. Diante do fato, a única opção que ela teve foi trancar a faculdade para se dedicar integralmente ao filho doente pois, estava ele entre a vida e a morte. Esse acontecimento foi o mais perturbador em sua vida, porém, seu filho se recuperou e Josidene deu a volta por cima, conseguindo sua formação no ensino superior. Após a formatura, a agora médica Josidene foi a sua comunidade do Araçá levando seu diploma de Medicina como um troféu para sua gente: nesse momento, familiares e amigos a homenagearam ficando orgulhosos pela conquista que, segundo Josidene, foi deles também.
Josidene observa que ela não sentiu muitos preconceitos relacionados a sua origem indígena ao conviver com pessoas não indígenas ao longo de sua trajetória. Capacidade é igual pra todo mundo, portanto, todos podem conseguir o que desejam bastando se dedicar ao trabalho que fazem. Porém, ela já se sentiu vítima de preconceitos apesar de ficar triste apenas no momento. Quando tais coisas aconteceram serviram para lhe ensinar algo assim como a fortaleceram como pessoa. Ela tem muito orgulho de ser indígena Taurepang.
Dos vários momentos marcantes na vida de Josidene, o nascimento de seus dois filhos Bárbara Beatriz e Benjamim Frank, hoje com 3 anos foram os principais. Ela é mãe devotada aos filhos, também é casada a 16 anos. O marido é um parceiro na vida, ambos se ajudaram e se ajudam na vida e em casa: um dá força para o outro. Em sua vida, a prioridade é sua família e, por conta disso, trabalha de segunda a sexta deixando os sábados e domingos para se dedicar tanto na igreja que frequenta (ela é evangélica) quanto ao lazer com sua família.
Josidene vê o papel das mulheres na sociedade como primordial. Para ela, a mulher é mãe (mesmo que algumas não tenham filhos) pelo fato de ter sempre o ímpeto de cuidar, de fazer, de tomar a iniciativa e de lutar. Ela é a favor da mulher adentrar cada vez mais nas profissões, ganhar salário equiparado ao dos homens para as mesmas funções, enfim, ela acredita na força da mulher como parte primordial na construção da sociedade seja em que ambiente for.
Escrito por Ana Carolina de Castro Gomes e Pedro Ícaro Sampaio de Vasconcelos - dezembro de 2018
Orientadora: Rutemara Florencio - Fotos: Fonte: Arquivo Pessoal
As fotos mostram momentos importantes da vida da médica Josidene Marques: na formatura, com os filhos, atendendo como médica, na apresentação do projeto Histórias das Mulheres em Roraima, junto com sua família (mãe e irmãos) e junto aos alunos que fizeram a entrevista e escreveram a sua história.
Assista a entrevista completa que Josidene deu aos alunos Ana Carolina e Pedro Ícaro direto do YouTube.