Em 1969, na cidade de Freicheirinha, CE, nascia Cristina Rocha. Sua família era de classe média alta, porém, na época do nascimento de Cristina, seu pai perdeu tudo o que tinham por conta de ter entrado para política. Devido a isso, Cristina não foi criada com mimos e luxos que o dinheiro pode comprar. Em suas palavras, essa situação a faz se sentir "uma azarada do tempo e sortuda da história" porque a situação em que foi criada ensinou muito a ela sobre superar desafios, lutar por ideais tornando-a uma guerreira na vida.
Cristina foi uma menina muito sapeca. Sua mãe lhe conta que desde muito cedo, ela vivia caindo e se machucando porque gostava de pular, girar e dar umas piruetas mais difíceis. Ela credita essas características a uma vocação que ela tinha pra dançar, mas que naquela época ainda não sabia. Apesar de ser sapeca, a criança Cristina sofria com problemas na coluna vertebral e asma brônquica. Ao consultar um médico do posto de saúde, a mãe ouviu dele que colocasse a menina na natação ou no balé para que ela melhorasse dos problemas de saúde. Para família, pagar uma escola de balé para a filha era inimaginável já que estava longe das condições financeiras que dispunham naqueles tempos. Cristina lembra que na década de 1970, 1980, o balé clássico era coisa “da elite, da elite, da elite” e, para uma garota como ela que era pobre não havia meios de entrar nesse mundo da arte e frequentar uma escola de balé clássico. No entanto, um dia após a consulta e a recomendação médica, a mãe dela foi informada sobre um projeto social que ensinava a arte do balé a crianças pobres na cidade de Fortaleza e, imediatamente, a mãe de Cristina a matriculou no projeto.
A entrada no projeto social propiciou a menina Cristina conhecer na prática o balé clássico e ela se apaixonou. Desde o início, Anastácia que foi sua professora e era a idealizadora do projeto viu que Cristina tinha muito talento para arte da dança e se tornou a fada madrinha da menina. Anastácia ensinou a base do balé clássico e Cristina passou a sonhar com a possibilidade de se tornar bailarina profissional. Ela passou então a se dedicar ao balé diariamente na busca pela perfeição dos passos e da postura que toda bailarina tem que ter. Apaixonada pelo balé, o prazer de sua vida estava na dança e por ela, faria loucuras.
A paixão de Cristina pela dança clássica, nunca tinha sido problema para seus pais até o dia em que, aos 16 anos, ela forjou a assinatura da sua mãe em uma autorização para poder viajar para fora de Fortaleza com o grupo de dança. Nesse momento, os pais se deram conta da situação de Cristina e se colocaram totalmente contra seus objetivos de fazer do balé, sua profissão. O negócio ficou feio: os pais queriam que ela fizesse faculdade, arrumasse outra profissão. A mãe foi conversar com ela pra tentar mudar seu pensamento quanto ao balé como carreira e lhe perguntou se ela queria passar fome porque a dança não seria uma carreira vantajosa. O pai, ficou sem falar com ela, enfim, a situação familiar de Cristina não estava boa. Mas, mesmo com tantos problemas causados por sua opção, ela não se deixou abater e continuou no propósito de dançar o balé clássico. A família, vendo que não tinha jeito mesmo e que, aquela filha amorosa e amiga já não estava mais feliz naquele clima, acabou por aceitar a decisão de Cristina.
Cristina fazia as aulas de balé, mas nunca deixou os estudos regulares de lado. Ao se formar no segundo grau, fez inscrição para o vestibular. No dia que seria realizado o vestibular, ela descobriu que teria um teste na cidade para uma apresentação de balé clássico onde a bailarina escolhida dançaria ao lado da Ana Botafogo, ícone do balé no Brasil e uma das principais bailarinas da história do balé clássico no mundo. Nesse momento, Cristina se sentiu perdida: ela queria fazer o teste, mas, também queria fazer o vestibular! Ela não sabia o caminho que deveria seguir e passou a andar triste e cabisbaixa. Uma de suas irmãs descobriu o motivo da tristeza e foi contar para mãe. A mãe de Cristina, de maneira surpreendente, foi conversar com a jovem e a motivou a fazer o teste para o balé observando que faculdade, a qualquer tempo ela poderia fazer, mas, a dança, tem um tempo determinado pelo corpo: se ela queria mesmo dançar, teria que ser naquele momento. Cristina então, com muita alegria pelo apoio que obteve da mãe, que ela respeitava e amava demais, foi fazer o teste ao invés do vestibular e, oito dias após o jornal estampava a manchete com o nome de Cristina em destaque informando que a mesma iria dançar ao lado de Ana Botafogo. O pai, que não sabia que a filha tinha desistido do vestibular para ir fazer o teste do balé, descobriu pelo jornal, mas, diante da situação, ficou orgulhoso da filha estar “famosa” na cidade por causa do balé. Assim, os pais de Cristina se tornaram seu maior apoio na carreira que ela tanto almejava seguir.
Cristina Rocha é bailarina clássica profissional, mas, além dessa profissão ela é Educadora Física, Pedagoga e técnica contábil. Atualmente Cristina é empresária e administra a escola de balé “Cristina Rocha” como também é consultora artística e produtora cultural. Recentemente ela tomou posse como a Primeira Delegada da Dança em Roraima através do Conselho Brasileiro de Dança. Cristina é casada a 25 anos e tem três filhos: uma menina e dois meninos. Também fazem 25 anos que ela mora em Boa Vista, Roraima. Quando chegou a cidade, em 1993, era recém-casada. Ela e o marido vieram visitar parentes dele que aqui moravam e, ele, gostou muito da cidade: achou que era um local ainda em construção e com oportunidades de crescimento pessoal. Assim, ele foi conversar com a esposa Cristina pra saber se ela apoiaria a decisão de ficarem morando ali. A princípio, Cristina não gostou da ideia, mas, também viu oportunidades de crescer junto com a cidade e resolveu aceitar a proposta do marido. Em Boa Vista não existia escola de balé, nem apresentação de balé, nem teatro adequado a essa arte, enfim, não tinha nada e isso era frustrante para uma mulher que amava o balé e que estava no auge de sua forma física.
Apesar de Cristina ter ficado em Boa Vista, uma cidade que há 25 anos, tinha o desligamento da energia elétrica as 22:00 horas da noite só sendo religada pela manhã, novos sonhos sobre a dança foram sendo construídos no coração da bailarina teimosa. Dia e noite, ela pensava em como trazer o balé clássico para cidade, como faria e como seria organizado. Assim, contando com o total apoio do marido, que ela reconhece ser o amor e parceiro de sua vida, ela abriu a primeira escola de balé de Roraima em Boa Vista. Com a abertura da escola, Cristina agora se tornaria uma professora de dança clássica, já que como bailarina profissional não tinha mais oportunidade de dançar profissionalmente. Sobre se tornar uma professora de balé, ela relembra que, quando tinha 15 anos teve que substituir uma professora de uma turma de balé onde as alunas tinham a mesma idade que ela.
Mesmo tendo a mesma idade das alunas, Cristina teve muita aceitação na turma e, quando a professora titular avisou que não iria mais retornar pra escola, a dona da academia perguntou se ela, Cristina, não poderia dar aulas até o final do ano coisa que Cristina prontamente aceitou. No inicio do ano seguinte, as alunas foram requisitar Cristina para ser a professora da turma porque haviam gostado da didática que a menina empregou nas aulas. Dessa forma, Cristina percebeu que além de dançar também gostava de ensinar porém, precisava estudar além do balé para ter maturidade e conhecimento na área de ensino.
A primeira apresentação de sua escola pioneira, foi em praça pública pois, na cidade de Boa Vista, não havia local apropriado a esse tipo de espetáculo. Para realizar esse evento ela não tinha dinheiro e, não sabia onde iria conseguir... o marido, vendo-a triste e chorando, quis saber o que estava acontecendo. Ela então lhe disse que queria apresentar o balé na praça, mas, não tinha de onde tirar o dinheiro para produzir o espetáculo. Ele ouviu o problema da mulher, e sem contar nada do que pretendia a ela, vendeu um carro e lhe entregou o dinheiro para que realizasse o evento. Assim, a escola de balé idealizada por Cristina passou a se apresentar em espetáculos ao ar livre criando na população local o gosto pela arte da dança e do balé clássico.
Os espetáculos ao ar livre que Cristina Rocha organizou (seis ao todo e com mais de oito mil pessoas assistindo) foram decisivos para que, agora em 2018, o grande Teatro Municipal de Boa Vista, finalmente fosse inaugurado. Ela ressalta que os anos em que lutou para criar na cidade o gosto pelo balé clássico juntamente com a campanha que fez para que houvesse investimento público na construção de um teatro adequado a classe artística local e universal, valeram a pena devido a qualidade que o novo teatro representa assim como o acesso a cultura que o espaço tem proporcionado. Cristina lembra que Boa Vista era a única capital, dentre as capitais dos estados brasileiros, que não possuía um teatro municipal e, por isso, sempre esteve na luta para que a construção se efetivasse de fato. No dia da inauguração do tão aguardado espaço cultural, as autoridades presentes enfatizaram a história do balé Cristina Rocha e o quanto os eventos ao ar livre realizados por ela, foram fundamentais na justificativa de se construir um teatro do porte que o Teatro Municipal de Boa Vista possui através do investimento de dinheiro público.
Com tantos afazeres relacionados a atividade de professora de balé, empresária, produtora e outras mais que ela desempenha, conciliar a vida profissional e a pessoal é difícil, porém, ela diz que as mulheres têm a capacidade de fazer muitas coisas ao mesmo tempo sem perder de vista nenhuma das atividades que fazem. Cristina se considera teimosa como a mãe, que é o grande modelo de mulher que ela tem em sua vida: uma pessoa que nunca desiste mesmo que os obstáculos sejam uma “montanha”. Além disso, o marido é um suporte para todas as horas: desde dar condições dela se dedicar ao balé até no cuidado dos filhos. Ela diz que o balé é o quarto filho que ela possui e que o marido ama, além dos três filhos, também o balé. Sobre ele, o marido, ela diz que quando ele manifestou interesse em namorar com ela e depois, casar, foi avisado pelo pai de Cristina sobre o amor que ela tinha para com a dança: se ele também não amasse o balé e a apoiasse, ficaria sem ela porque ela sempre iria preferir dançar. Ele então, passou a amar o balé por causa do amor que sentia e sente por ela.
Cristina Rocha chegou onde chegou porque se dedicou a estudar e se aprimorar no conhecimento de sua arte. Ela lembra que o que conquistou até hoje foi com muito esforço e luta, estudando bastante para promover o melhor ensino e a melhor aprendizagem em sua escola de dança clássica. Às vezes, as pessoas não entendem que o melhor nem sempre vem de graça e que, o artista vive de sua arte por isso, ela se aprimora para oferecer o melhor ao público como também aos alunos que procuram e estudam balé em sua escola. Em seu entender, para se formar uma plateia que goste da arte da dança, as pessoas precisam ser educadas para isso e, no caso, os espetáculos que ela apresenta mostram às pessoas a arte e a educação dos bailarinos no palco incentivando e popularizando o acesso de pessoas de diferentes idades e classes sociais.
Os momentos mais marcantes da vida de Cristina Rocha para ela foram, em primeiro lugar, a gravidez e o nascimento dos filhos. Juntamente com a maternidade, ter conhecido o seu companheiro de vida, o marido, uma pessoa que esteve e está sempre ao seu lado lhe dando suporte para conquistar sonhos e que ela admira por ser um homem ético, parceiro. Ela lembra que o dia em que ela decidiu ficar vivendo em Boa Vista também é marcante pois ela e o marido não vieram para morar e sim para ficar um tempinho com os parentes cearenses que aqui viviam. Quando o marido veio falar com ela sobre a possibilidade de eles não retornarem mais para Fortaleza, ela, chorando, o questionou sobre o fato de aqui não ter nada relacionado ao balé além de que, ela estava no auge da forma física para dançar e, aqui, não teria mais como fazer o que tanto amava. Ela lembra que ele disse que se ela quisesse voltar, eles voltariam, porém, a frase que ele usou logo em seguida foi como uma profecia: “Você já pensou, daqui a um tempo, você ser história, você ser a percursora do balé clássico em Roraima? Lá em Fortaleza você é só mais uma... aqui você vai ser o divisor de águas. Cristina, vai doer, mas, não se lapida um diamante sem machucar a pedra...” Outros momentos marcantes da vida de Cristina estão relacionados aos balés montados na praça pública em Boa Vista com mais de oito mil pessoas assistindo os espetáculos.
Na vida de Cristina Rocha, a primeira bailarina de Roraima, os sonhos foram feitos para serem conquistados. Erguer a primeira escola de balé do estado de Roraima, trazer o balé clássico para a população, mudar o conceito que o brasileiro só gosta de futebol e samba... Cristina acredita que tudo pode ser aprendido, desenvolvido por meio da educação e que para a vida acontecer é preciso correr atrás do que se quer. Se na infância de Cristina, um projeto social mudou o futuro daquela menina pobre, hoje, ela, por meio de sua escola, a 17 anos promove aulas de balé gratuitamente, na Casa de Timóteo (Lar Fabiano de Cristo) além de também oferecer aulas de balé gratuitas a 4 anos na Fraternidade Vinha da Luz. Se sua vida foi feita de sonhos e conquistas, ela deseja que o mesmo aconteça com outras meninas e mulheres.
Escrito por Stefania Victoria Nuzzo Romero, Vinicius Nascimento Cunha e Ismael Adonay Vielma Mora em 01/12/2018
Orientadora: Rutemara Florêncio - Fotos: Fonte: Arquivo Pessoal