Blenda Avelino Garcia, médica com especialização em pediatria, é uma das profissionais mais conhecidas da cidade de Boa Vista, RR. De família tradicional roraimense, a família Thomé, Dra. Blenda, como é conhecida, nasceu no dia 13 de junho de 1974 em Boa Vista e tem 44 anos. Filha de Dna. Lisete Thomé Avelino e Sr. Jose Lurene Avelino, ela tem 03 irmãs: Benvinda Thomé Avelino, Bianca Thomé Avelino Garcia e Betânia Thomé Avelino e 01 irmão: José Lurene Nunes Avelino Júnior sendo Blenda, a caçula da família. Sua formação superior foi realizada na Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Santa Catarina onde começou em 1991 e se formou em 1997 após 6 anos de estudo integral. Terminada a primeira etapa de Medicina, ela cursou a residência médica durante 3 anos para se tornar especialista em Pediatria pela mesma instituição: UFSC.
As memórias da infância da médica Blenda, na década de 1980 em Roraima, são marcadas pela alegria e energia que ela tinha para brincar: “a infância mais maravilhosa e mais saudável que uma pessoa pode ter”, diz ela que lembra que, nos fins de tarde, toda vizinhança do Bairro São Pedro (onde ela cresceu e viveu a maior parte de sua vida) se encontrava na rua; as famílias colocavam cadeiras em frente as casas e ficavam conversando até tarde da noite sem medos e sem receios de violência. A menina Blenda, seus irmãos e uma turma muito grande de amiguinhos da rua onde morava, brincavam de bandeirinha, cemitério, bicicleta, jogavam bola, soltavam papagaio (pipa) e também brincavam de peteca e bolinhas de gude. Nas férias escolares, a viagem preferida dela era pra uma fazenda localizada no interior de Roraima. No lugar, ela andava a cavalo, mexia com as galinhas atrás de ovos para coletar e se sentia ainda mais livre para ser feliz.
Na época em que teve que ir pra escola, a menina Blenda relembra que foi estudar nas escolas públicas de Boa Vista. A primeira escola de sua vida foi a Escola Estadual Princesa Isabel onde fez o pré-escolar. O primário (hoje chamado de Ensino Fundamental) foi realizado na Escola Estadual Euclides da Cunha no início dos anos 1980 e os dois primeiros anos do segundo grau (hoje Ensino Médio), foram cursados na Escola Estadual Gonçalves Dias. Ao passar para o terceiro ano, a jovem Blenda foi para Curitiba, no estado do Paraná onde terminou assim a última etapa da escolarização básica. Logo após ela fez vestibular e ingressou na UFSC em 1991. Com muito orgulho ela diz que os melhores anos da vida escolar foram vividos nas escolas públicas que estudou, principalmente o período que da 1ª a 8ª série. Ao seu olhar, seus professores foram ótimos e estimularam nela dar o melhor de si para alcançar os melhores resultados de aprendizagem. O resultado de tudo isso foi que ela passou no primeiro vestibular que fez e em uma grande universidade pública do Brasil.
Como já foi escrito, Dra. Blenda viveu toda infância e adolescência em Boa Vista e, por causa disso, se permite comparar aqueles tempos com os tempos atuais. Ela diz que, em tempos passados as pessoas não tinham grades nas janelas ou portas e ninguém se preocupava em trancar suas casas ou tirar as chaves da ignição dos carros porque as pessoas não tinham medo de serem assaltadas ou coisa pior: tudo era muito tranquilo. Já nos tempos atuais, Boa Vista ganhou prédios altos (2012 foi inaugurado o primeiro prédio de vários andares na cidade), shoppings centers, a cidade cresceu, se desenvolveu mas, com esse desenvolvimento veio também o aumento da violência e o medo da população, as moradias se transformaram, os tipos de moradia pioraram principalmente nos lugares mais longínquos da cidade, enfim, o que antes não existia, atualmente está por toda parte: moradores de rua, mendigos, pedintes, migrantes venezuelanos vivendo nas praças... Para ela, o desenvolvimento da cidade trouxe coisas positivas mas, muita coisa negativa.
A carreira da Medicina, Blenda ressalta que seguiu por influência e inspiração vindas da tia Olenka Tomé que era enfermeira. A tia, irmã de sua mãe, morava vizinha da família de Blenda que cresceu acompanhando-a em sua profissão. Blenda diz que nunca conviveu com médicos, mas que, a convivência com sua tia, trouxe desde cedo, a ideia de ajudar os outros como a tia sempre fazia. Tia Olenka construiu dois quartos de hospital em sua casa e, segundo lembra Blenda, ela trazia os doentes que eram abandonados pelas famílias, para ficarem ali e assim poder trata-los de melhor forma, ajudando-os a se recuperarem das enfermidades. Ao longo do tempo, as atitudes de sua tia foram tornando-a em exemplo para a hoje médica e, sem dúvida, Tia Olenka é e será sempre lembrada por Blenda como a grande influenciadora na profissão. Atualmente, o posto de saúde mais conhecido da cidade de Boa Vista e do Estado de Roraima se chama Olenka, em homenagem a tia da Dra. Blenda e fica localizado no bairro do Caimbé.
A Dra. Blenda nunca quis ser outra coisa a não ser médica. Ela diz não se lembrar da idade que tinha ao decidir que queria seguir essa profissão, mas, enfatiza que não teve a fase da indecisão, comum a muitos jovens e adolescentes que estão estudando: sempre soube o que desejava para si. Ao terminar a Residência em Pediatria, na UFSC, Blenda voltou para Boa Vista no início do ano 2000 já com emprego lhe esperando na Maternidade Nossa Senhora de Nazaré, que até hoje ainda é a única maternidade de grande porte de Roraima e atende pelo SUS. Nesse contexto, nossa médica lembra que não sentiu dificuldades no início do exercício de sua profissão nem em relação a empregabilidade nem em relação as condições de trabalho e salário. No entanto, ao falar dos dias atuais, Dra. Blenda diz que as condições para o exercício da medicina estão péssimos tanto em Roraima quanto no Brasil como um todo pois, há hospitais superlotados e, muitas vezes, sem materiais básicos de trabalho, sem medicamentos, sem leitos de UTI, sem condições de limpeza e isso dificulta, quase impossibilita, que a medicina seja exercida com qualidade na rede pública de saúde.
A escolha pela área da Pediatria, se deu porque Blenda sempre gostou muito de crianças. Ela gosta do acompanhamento que dá ao bebê desde que ainda não nasceu até a idade de 20 anos pois, ama ensinar as mães sobre a importância do aleitamento materno para a saúde da criança além de ir acompanhando o desenvolvimento do ser até a juventude. Em relação ao cuidado médico que vai da adolescência até os 20 anos, Dra. Blenda ressalta que é uma subárea da Pediatria, pouco conhecida pela sociedade em geral chamada de Epiatria.
Na Pediatria, segundo ela, o médico precisa estar atento a todos os órgãos do corpo humano e até mesmo cuidar do psicológico das pessoas. Ela diz que “a criança é a base de tudo e o futuro do mundo” então, ela sabe que está contribuindo para formar um ser humano bom no futuro, um bom cidadão e que isso é gratificante em sua carreira profissional. Sobre os pontos positivos e negativos da profissão, Dra. Blenda diz que estão relacionados a ajudar o outro a se livrar da dor ou mesmo dar um diagnostico difícil a uma mãe ou pai sobre a doença da filha ou do filho. Nessas situações, ela, sofre junto com a família pois, não consegue separar sua vivência profissional de quem ela é. Ao mesmo tempo que um diagnóstico grave a faz sofrer junto com o doente e sua família, ela também se alegra quando consegue fazer com que haja melhora na saúde da criança pois é pra isso que ela atua na medicina: ajudar as pessoas a se restaurarem da dor e do sofrimento, o que são grandes desafios profissionais.
Apesar da profissão de médica pediatra ser desafiadora, o maior desafio que Blenda enfrentou em sua trajetória profissional foi ter que conciliar sua carreira de médica com a maternidade. Ela é casada com Arinos Tavares Garcia Júnior desde 26/02/2000 e mãe de Taís Avelino Garcia, hoje com 17 anos e Amanda Avelino Garcia de 13 anos. Como médica, ela sempre direciona as mães a alimentarem os bebês apenas com o leite materno até os 06 meses de vida (no minimo) pois sabe dos benefícios desse alimento para saúde e desenvolvimento das crianças. Porém, ao se tornar mãe de Thais, ela enfrentou muita dificuldade para amamentar pois, o contrato de trabalho ao qual estava vinculada não lhe dava o direito de ficar 04, 06 meses em casa cuidando de sua filha e recebendo salário. Assim, Blenda fez uma escolha: ficou sem receber salário para ficar em casa cuidando exclusivamente de sua filhinha e amamentando-a durante os primeiros 06 meses de vida. Após esse tempo, a maratona da amamentação teve início: Blenda amamentava sua Thais antes de sair de casa, ia trabalhar no Hospital da Criança Santo Antônio, voltava pra casa pra amamentar novamente, retornava ao Hospital, corria para casa outra vez, dava uma passada no consultório... enfim, durante dois anos foi essa a rotina da médica Blenda. A mesma coisa se repetiu com a segunda filha, Amanda.
Dra. Blenda, para cuidar de suas filhas, abriu mão de realizar plantões durante a noite e aos fins de semana e, mesmo assim, trabalhava 12 horas por dia alternando entre idas e vindas para casa e para seus locais de atendimento médico. Apesar de tantas dificuldades para conciliar seu exercício profissional e cuidados maternos, nossa médica se considera vitoriosa pois, ela conseguiu realizar com suas duas filhas, tudo aquilo que recomenda às outras mães em seu consultório: não dar outro tipo de leite além do materno pelo menos até um ano de vida da criança e evitar o uso de chupetas e mamadeiras o que, segundo ela, é o ideal para a saúde das crianças. Para ela, a saúde das filhas que, raramente ficam doentes, se deve aos cuidados que ela teve com as meninas nos primeiros anos da vida delas. Ela reconhece que a situação foi sacrificadora e que abriu mão do trabalho, da vida social, de noites de sono e da própria vaidade, mas, ela sabia que estava agindo conforme sua vontade e isso, até hoje, lhe traz felicidade por ver suas filhas bem e felizes. Blenda reconhece que não fez tudo sozinha pois, o marido lhe apoiou e foi parceiro nos cuidados com as meninas mesmo sem saber trocar as fraldas e nem dar banho! Ele sempre ficava de guarda das filhas pequenas para ela dormir, para ela trabalhar.
Nos momentos que mais precisamos, a família é sempre o grupo com o qual podemos contar. Blenda deixa muito claro que, suas irmãs sempre foram suas amigas e parceiras para todos os momentos, principalmente em relação as suas filhas e, até hoje, tendo ela uma vida cheia de compromissos por conta das responsabilidades adquiridas da profissão, as irmãs correm em seu auxilio para pegar as meninas na escola quando ela está viajando ou em um compromisso importante. Como Blenda teve sempre as irmãs lhe dando força, ela nunca precisou deixar as crianças aos cuidados de sua mãe pois, quando elas nasceram, a matriarca já tinha uma idade mais avançada e ela não achou justo lhe passar tal responsabilidade. No entanto, ela sabe que, caso precisasse, sua mãe estaria ali para lhe estender a mão.
Em 2003, aos 29 anos de idade, Blenda foi convidada a fazer parte do Conselho Regional de Medicina de Roraima e devido a sua idade na época, se tornou a conselheira mais jovem a compor o quadro, passando a conviver com médicos experientes e mais antigos de 50, 60 anos de idade e com muita vivência na prática médica. A admiração e o aprendizado que ela obteve na convivência com esses profissionais lhe ensinou muitas coisas, principalmente o que ela deve e não deve fazer como médica. Fazendo parte do Conselho Regional de Medicina, Dra. Blenda ressalta que o papel do órgão é fiscalizar, zelar pela boa medicina e pela ética na prática dos médicos e que, o fato dela ser uma fiscal também lhe ensina a ser cada vez mais uma médica atenta as regras que compõem sua profissão. Em 2016, Dra. Blenda passou a ocupar a presidência do CRM/RR no mandato 2016/2018. Tal escolha se deu através dos votos dos 40 conselheiros que compõem o quadro de forma unanime, o que é motivo de muita felicidade para ela. Atualmente ela está como vice-presidente da instituição, porém, já foi reeleita, também de forma unanime, para o segundo mandato a ser iniciado em abril de 2021.
Além de médica pediatra e vice-presidente do CRM/RR, Dra. Blenda é professora efetiva e concursada da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Roraima e recebe alunos que já estão no 4º ano do curso. Para chegar a esse posto, ela teve que estudar bastante e, mesmo sendo professora, ela diz que tem que continuar estudando para poder ensinar os futuros médicos sobre os tratamentos mais atuais, os protocolos mais utilizados no mundo e todas as questões que envolvem a ação médica. Como professora, ela prepara as aulas e provas sempre a partir de um estudo aprofundado sobre os temas que compõem o currículo do curso pois, considera ser grande a responsabilidade que tem no ensino e na aprendizagem dos alunos e de si mesma. Ser professora do curso de Medicina ela considera engrandecedor por causa da contribuição que pode dar na formação de novos médicos além de se sentir rejuvenescida estando rodeada de tantos jovens animados.
Em sua trajetória profissional, a Dra. Blenda enfrentou alguns momentos em que analisa ter sofrido algum tipo de preconceito pelo fato de ser mulher e estar em posição inferior a um chefe imediato. Ela, apesar de obedecer a hierarquia das relações de trabalho, sempre se posicionou sobre as situações envolvendo a prática médica e nunca concordou em fazer algo que contrariasse a ética vinculada a profissão que exerce. Por causa disso, já se sentiu menosprezada, porém, sempre defensora de seus princípios, nunca se deixou abater ou mesmo concordou em fazer algo que fosse contrário a eles. Apesar de observar que a mulher ainda é vista, por alguns grupos, como menos inteligente que os homens ou que não é adequada para ocupar certos espaços de poder, Blenda acredita ter vencido esses desafios através do exercício de seu trabalho e se fez respeitar, mesmo em situações conflituosas com chefias masculinas.
A vida da médica Blenda está vinculada a um universo onde as mulheres de sua família são suas grandes inspirações. A mãe, D. Lisete, criou seus cinco filhos incentivando sempre a estudarem e a serem independentes, principalmente ao se tratar das quatro filhas. Ela não ocupou postos de trabalho fora do lar como também não teve formação superior, mas, em todo tempo, foi fundamental nos caminhos que construíram a mulher Blenda. Seu desejo era que as filhas não se casassem cedo para que pudessem se dedicar aos estudos. Além da mãe, a tia Olenka também teve um papel decisivo na vida da sobrinha Blenda, sendo o modelo de profissional da saúde que despertou o desejo da mesma em ser médica. Finalmente, as três irmãs mais velhas que deram à mulher Blenda amizade, carinho, união, além de serem, segundo ela, modelos de esposas, filhas, amigas e irmãs: são suas “ídolas”.
Para terminar, Blenda observa que o melhor caminho para trilhar a vida com boas perspectivas é o caminho dos estudos pois, o conhecimento que se adquire é algo que ninguém nos toma. Uma trajetória baseada na busca pelo conhecimento, pela profissionalização em qualquer área escolhida é a melhor opção aos jovens que querem fazer o que é certo em suas vidas.
Escrito por: Laine Sousa da Silva e Nátaly Severino Magalhães 01/12/2018
Orientadora: Rutemara Florêncio - Fotos: Fonte: Arquivo Pessoal
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