Renato Cortez cresceu no meio do som — mas foi o silêncio que o transformou.
Durante anos, viveu mergulhado no ritmo acelerado da cena musical de São Paulo. Baixista, produtor, artista sensível ao detalhe, era daqueles que ouviam tudo: a textura da voz, o ataque do prato, o que estava sendo dito entre as notas. Tocava em bandas, produzia discos no próprio apartamento e acompanhava de perto a criação de muitos artistas. Mas, aos poucos, algo começou a incomodar. A cidade estava sempre no meio do caminho. Os músicos chegavam atrasados, estressados, com tempo contado. Não havia espaço para escutar — nem a si mesmos, nem ao som.
Foi numa viagem com a banda Cérebro Eletrônico que tudo mudou. Um sítio no interior, quatro dias de imersão, nenhuma distração. Ali, a banda se encontrou de verdade. O processo foi profundo, criativo, transformador. E, consequentemente, muito produtivo. Saíram com um álbum fantástico de lá.
Renato entendeu que a música precisava de algo que a cidade não podia oferecer: presença.
Quando voltou para São Paulo, já não conseguia mais fingir que aquele ritmo fazia sentido. O estúdio improvisado no apartamento já não bastava. A cidade era ruído. A arte pedia silêncio. Então ele foi. Pegou a estrada para Minas Gerais — em busca de um lugar onde o tempo fosse mais lento e a escuta mais profunda.
Encontrou um pedaço de terra onde o vento soprava mais alto que motor dos carros. Lá, com as próprias mãos, começou a erguer o que viria a ser o Mato Records. Construiu paredes com cuidado milimétrico e foi atrás dos equipamento como quem seleciona ferramentas para um ofício sagrado. Trouxe uma mesa analógica dos EUA, soldou e instalou cabos, posicionou painéis acústicos, microfones, afinou o espaço ao som da natureza.
Mas a alma do estúdio não está nos equipamentos — está na escuta.
Aos poucos, artistas começaram a chegar. Não buscavam um "pacote de gravação". Procuravam um lugar para respirar, experimentar, se reconectar. Encontraram Renato — alguém que ouve antes de gravar, que percebe antes de sugerir, que sabe que um bom disco começa no silêncio. E assim, o estúdio virou um templo. Um lugar onde cada jornada criativa é única, sem fórmulas nem pressa. Onde a arte é recebida com respeito e o tempo é moldado pela música — não o contrário.
O Mato nasceu da escuta. E continua, até hoje, sendo guiada por ela.