A Boca da Guerra

Capítulo 97

Neville ajustou a sela do cavalo do Eslariano. Estava preocupado. Linhas escuras ecoavam o contorno de suas sobrancelhas testa acima.

— O que te preocupa? — perguntou Thaila. Então deu uma risadinha porque a pergunta certa seria, o que não te preocupa?

Neville demorou para responder, talvez pesando dentro da cabeça quem o preocupava mais. Pierre em coma? Frederico desaparecido? Vivianne e Menior indo para Deran, que não mandava notícias?

— Acho que Líran é quem mais me preocupa — ele disse.

O Eslariano pegou as rédeas do cavalo. O braço estava curado, seu rosto havia voltado ao formato natural. A recuperação ligeira, Vivianne disse, tinha a ver com a magia de Fregósbor.

— Me parece — disse o padeiro — que Líran tem qualquer coisa de mistério no sangue. Talvez ela seja a única entre nós com chance de sucesso no que se refere ao dragão. Ela parecia saber o que fazer.

— Quando me perdi em trevas — disse Neville — encontrei um mistério — como descrever aquele sapo no riacho? — Foi o que me salvou.

O Eslariano se aproximou.

— Que mistério era esse?

— Não sei. Mas senti sua presença novamente quando Pierre enfrentou o dragão. Não me faça mais perguntas. Não sei. Não entendo. O mistério não estava ali, mas eu senti algo semelhante ao seu poder rodeando Pierre. Nunca o senti perto de Líran.

A contadora de histórias passou em frente à porta dos estábulos naquele momento.

Nunca o senti perto de Líran.

Ainda não, pensou Líran. Ainda não.

Vivianne esperava à porta do quarto de Líran, braços cruzados. Elas entraram juntas e, mal Líran fechou a porta, Vivianne disse:

— Não sei o que tem em mente, mas repense.

Líran levou alguns instantes para interpretar a agressividade de Vivianne. Ela, além de Pierre, foi a pessoa que mais se aproximou de Líran. Exploraram juntas parte de Chambert enquanto Vivianne o mapeava, faziam suas refeições lado a lado e, no fim do dia, quando estavam exaustas, procuravam uma à outra e a Pierre. Sentavam-se os três juntos, às vezes liam, outras vezes Líran contava histórias só para eles. E havia noites em que apenas se sentavam e ouviam o fogo falar.

— Você está preocupada comigo — disse Líran.

— É um dragão, Líran! Claro que estou preocupada.

Então era essa a sensação de ter amigos mortais. Líran tinha amigos quando era mistério, mas ninguém se preocupava com seu bem-estar. Afinal, o que poderia acontecer de errado a um mistério de seu porte? A preocupação de Vivianne era aconchegante e também contagiante. Vivianne ia para o Norte com o mensageiro Menior.

— Todos corremos risco de morte — disse Líran. — O meu vem em forma de dragão, só isso.

Só isso! Pierre jamais permitiria que você fizesse isso.

Líran sorriu, dobrou uma camisa e colocou-a na mochila.

— Você está falando de Pierre, aquele que correu para o dragão? Duas vezes.

Vivianne se jogou numa poltrona.

— Estou cercada por lunáticos.

Por alguns minutos, Líran arrumou a mala em silêncio.

— Como ele consegue, Líran?

— Quem?

— Pierre. Como ele se mantém firme? Sinto que, se alguém soprar, eu quebro.

— Eu também tenho medo — disse Líran. — Quanto aos outros: Frederico, Neville... eles vêm se desviando da História há anos. Foi Pierre quem a colocou em movimento. De certa forma, aceitar uma história é como colocar uma coroa na cabeça. Uma vez vestida, é impossível se livrar de seu peso.

— Líran, o que você pretende fazer com aquele dragão?

Líran caminhou até Vivianne e ajoelhou-se no chão a seus pés.

— Vivianne, você já foi beijada?

— Ã? Bem... não. Ainda não. — Que tinha aquilo a ver com dragões?

Líran levantou-se e abriu uma gaveta. Encontrou uma pena e uma garrafinha de tinta. Sobre a cômoda havia papel. Ela escreveu uma palavra, entregou a Vivianne.

— Leve consigo este nome. E guarde seu primeiro beijo para ele.

— Por quê?

— Ele é o mistério que me fez mortal.

— Por que ele te fez isso?

— Eu pedi. Ele realiza desejos, mas tem um preço: o primeiro ou último beijo de uma pessoa.

— Como faço para encontrá-lo?

— Você não o encontra: você o chama.

Vivianne colocou no bolso o nome de Nuille.

— E se ele não vier?

Líran olhou-a com os olhos púrpura de mistério.

— Ele virá — disse. — Ela virá.

— Ela? — Vivianne queria perguntar, mas a conversa começava a soar como aqueles intermináveis diálogos entre ela, Marcus e o Vulto. Perguntas levavam a mais perguntas, nunca a respostas. Se mistérios fizessem sentido, não seriam mistérios. Portanto Vivianne perguntou apenas:

— O que você vai fazer?

— Encontrar Nuille. — Líran apontou o bolso de Vivianne.

— Você disse que não tem como.

— Eu tenho uma ideia.

Mais uma vez centenas de perguntas brotaram na cabeça de Vivianne. Mais uma vez ela se conteve. O Vulto a havia preparado bem. Querido Vulto! Onde estaria agora?

Vivianne se levantou e abraçou a amiga.

— Tome cuidado. — E deixou Líran em paz.

Sozinha em seu quarto, Líran pendurou um cantil à mochila e distraidamente colocou no bolso a garrafinha de tinta que havia usado para escrever Nuille.


Capítulo 98