A Boca da Guerra

Capítulo 88: O príncipe

Pierre escolheu para sala de reuniões uma câmara redonda na torre sul do anel interior de Chambert. Havia levado para lá uma grande mesa retangular, sobre a qual diariamente espalhava o mapa antigo da Franária pré-guerra e namorava o reino sem quebras. A luz entrava em ângulo por janelas em forma de lanças e se despejava pelo chão levemente irregular de tijolos terracota. Cadeiras foram surgindo, umas altas, outras de braço, duas até estofadas.

— Cadeiras diferentes para indivíduos diversos — Pierre disse com aquele sorriso dele, tão cheio de dentes.

Quando Neville chegou para a reunião daquela tarde, Pierre conversava com o mensageiro louco Menior, que Neville achava ser a pessoa mais sã daquela assembléia. Chegou Luc, louco porque dizia ter desistido de tudo, que não ligava para ninguém, mas passava quase todas as noites velando o Acidentado moribundo, que ainda não havia recuperado consciência, apesar dos cuidados constantes da Mestra Curandeira Marie, que vinha de Tuen todos os dias olhar o desfalecido.

Entraram então Thaila e o Eslariano, loucos porque já tinham feito toda uma revolução, falharam, perderam tudo, mas insistiam em continuar ali lutando por uma Franária quebrada. Até o Cinzento se esgueirou para o lado de Líran, a contadora de histórias.

Menior havia cavalgado para o norte, não até Deran, de onde ainda não se ouviam notícias, mas para descobrir a localização de Fulbert. Ele ainda estava empoeirado da viagem.

— Fulbert não deixou um homem, uma mulher, um ganso para defender os Saguões de Neve ou Beloú — disse o mensageiro. — Ele marcha para cá com tudo o que Patire tem. Cerca de cinco mil homens.

— Quantos temos em Chambert e Tuen? — perguntou Gregoire da Fronteira. Neville não tinha notado que ele estava ali, na sombra de Pierre.

— Três mil — disse Gaul de Tuen.

— Mas temos as muralhas — disse Gregoire. — Estamos seguros aqui. Certo?

— Nós, sim — disse Pierre. — O problema são todas as vilas e cidades entre Fulbert e Chambert. Precisamos interceptar Patire.

— No entanto, se quisermos deixar Tuen e Chambert com um mínimo necessário de defesa — disse Neville — só podemos levar dois mil homens, talvez dois mil e quinhentos. Metade do que Fulbert lidera.

Trocaram mais algumas palavras, fizeram mais alguns cálculos, por fim Pierre disse:

— Há soldados em Debur.

— Neville é herói em Baynard — disse o Eslariano. — Minha filha é uma das faces da rebelião. Se vocês dois surgirem juntos, Debur seguirá vocês.

Thaila pegou o braço de Neville.

— E quanto a Henrique? — perguntou Gregoire. — E quanto a Olivier?

— Quanto tempo temos? — perguntou Pierre.

Por que, Neville se perguntou, Pierre se dirigia ao Cinzento, todo desmilinguido no canto da sala? Mais espantoso foi o Cinzento responder:

— Garanto que Fulbert ainda está longe. Ele vai se demorar em cada vilarejo, matando devagar, esmagando até o último rato.

— O príncipe está certo — disse Menior. — Fulbert vai torturar uma vila por vez. Não seguirá em frente enquanto não tiver a certeza de ter matado a última pulga.

O príncipe? Não era possível. Aquele pequeno homem cinzento era o filho mais novo do rei de Patire?

Frederico e a luz do sol escapuliram silenciosos da sala redonda enquanto se planejavam rotas, se elaboravam ordens, se organizavam tarefas. Thaila e o Eslariano foram arranjar o necessário para a viagem a Debur, Pierre confabulava com Menior, Líran observava da janela e Neville passou instruções a Gaul de Tuen e a Luc antes de ir no encalço de Frederico, o Cinzento. Não viu e trombou com Gregoire na quina da porta, teve de segurar pelo braço o rapaz, ou Gregoire teria ido ao chão.

— Sabe onde está Frederico? — perguntou Neville.

— Acho que o vi descer em direção ao jardim das macieiras. Por quê? Está tudo bem?

Neville empurrou Gregoire para o lado e correu para as escadas.

— Espere, o que você vai fazer? — Gregoire correu atrás de Neville, que desceu feito matilha em caça até o pomar enluarado.

Chambert era um rodamoinho estático de castelos e parques. Amplos pomares, pátios pavimentados e gramados lisos (agora empipocados com cores por causa da primavera, que se espreguiçava pela Franária). Árvores seduziam abelhas com perfumes eróticos e alguns arbustos vibravam com o zunido grave constante dos insetos enebriados.

Sombras despiram os últimos resquícios do por do sol laranja das torres de Chambert. No pomar abaixo, já em sombras, Frederico colheu e cheirou uma flor de macieira. Espirrou três vezes. Devia ser alérgico a beleza. O sol finalmente largou a pontinha de uma torre e o azul do céu foi ficando preto como um desmaio. Uma mulher de branco costurou entre folhagens na direção de Frederico.

Vivianne não era exatamente graciosa, socando o ar com punhos tensos a cada passo, mas também não era desastrada. Selvagem, talvez, com o charme cósmico de uma corça selvagem.

Frederico esticou o braço, palma da mão para Vivianne.

— Se chegar mais perto, eu espirro.

Vivianne fez cara de quem não entendia nem queria entender.

— Onde estão todos? — perguntou.

— Em reunião.

— Onde?

— Já terminou — disse Frederico. — Posso te contar o que foi dito, se quiser.

— Você estava presente? — nem tentou esconder a surpresa.

Que imagem será que ela tinha dele? Mas também, o que Frederico esperava? Tudo o que fazia era se acinzentar pelos cantos. Recusava-se ainda a cruzar seu pesadelo para pousar neste mundo árido sem Velha e sem Faust.

Contou a Vivianne sobre Fulbert e sua invasão.

— Como eu disse a Pierre, garanto que Fulbert ainda está longe, saboreando cada morte, cada tortura.

— Frederico, você é de Patire?

Frederico fez um movimento de surpresa.

— Esqueci. Você não estava na reunião.

— Como assim, esqueceu, se está me colocando a par de tudo o que foi dito?

— Você deve ter notado — disse o príncipe — que ultimamente ando meio desatento.

— Você disse na reunião que é de Patire?

— Eu não disse nada. Quem falou foram Pierre e Menior. Dirigiram-se a mim por nome e título. Líran já me conhecia, mas Neville acho que se espantou. Aí vem ele.

— Nome e título? — Vivianne quase gritou. — Você é Frederico de Patire!

— E Neville salvou minha vida. Olhe só como ele vem. Ele que quis tanto me manter vivo, que me arrastou até aqui, agora vai querer me matar, que nem matou meu irmão.

Desceu o pomar uma criatura noturna empurrando arbustos, preto empurrando preto, galhos que chicoteavam de volta para o lugar, acertando outra sombra, esta tímida, desajeitada, pequena, no encalço do guerreiro negro, parecendo querer alcançá-lo, mas nunca esticando o braço. Neville e Gregoire.

Neville parou gigantescamente na frente de Frederico sentado em pedra.

— Arrepende-se de ter me salvado? — As palavras vieram todas sorridentes.

Neville, fúria concentrada.

— Frederico me contou sobre a reunião — Vivianne falou suave, tentando usar a voz como calmante.

— Então? — perguntou Frederico. — Vai me matar? Afinal, já matou meu irmão.

— Eu não matei seu irmão.

Frederico piscou três vezes.

— Eu não matei seu irmão — disse Neville. — Nem sabia da morte de Faust até chegar em Tuen.

— Você invadiu Patire — disse Frederico. — Você passou pelo sul dos Oltiens e matou meu irmão no vale que liga Anuré aos Saguões.

— Eu invadi Patire, sim, mas foi através da Fronteira. Destruímos Lencon, mas nosso objetivo sempre foi Anuré. Minha mãe estava lá, o Eslariano também. Eu não matei seu irmão.

Frederico se levantou.

— É muita ousadia mentir para mim sobre isso.

— Tentei matar Faust de Patire durante sete anos. Eu queria tê-lo matado. Desculpe, eu queria matar Faust de verdade. Mas não fui eu. Eu teria matado você também, parte de mim ainda quer te matar só porque você é filho de Fulbert.

O arqueiro negro e o príncipe cinzento congelaram num paradoxo em que um queria matar o outro, não conseguia, mas não sabia muito bem como seguir em frente. Vivianne notou Gregoire às costas do arqueiro, fez sinal para que ele dissesse alguma coisa, juntasse mais uma voz branda às vozes em brasa. Faça algo!

Gregoire ergueu os ombros. O quê?

Qualquer coisa!

— Sabe — disse Gregoire. Deu três passos atrás, perfeitamente ciente de que os dois homens haviam esquecido de sua presença ali. — Nem todos fomos feitos para a ação. Quero dizer, olhem para Pierre e olhem para mim. Estou tão fora de contexto quando um girassol olhando para a lua. Talvez Frederico também esteja fora de lugar.

Vivianne fez uma cara de O que é que você está falando?

— Então o que fazem aqui? — perguntou Neville.

Excelente pergunta. Rastejar da Fronteira até ali para continuar na sombra de Pierre.

— Eu estou aqui por sua causa — disse Frederico. — Você me arrastou até aqui. — Ele cutucou o braço, tentando arrancar alguma coisa invisível.

Fora de lugar estava Vivianne, longe de seus livros, há quanto tempo não namorava uma artquitetura? Queria encontrar Pierre, Líran ou Coalim, alguém que soubesse o que fazer. Ao invés disso, eis o que o pomar lhe oferecia. Pensou em deixar os três ali, procurar seus amigos, mas Neville e Frederico precisavam se ocupar com alguma coisa ou se matariam. Talvez ficassem para sempre ali parados, preso no paradoxo inverno após inverno dentro de Chambert.

— Preciso de ajuda com uma coisa que encontrei — ela disse


Capítulo 89